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Qual o papel da Cultura na Economia? A Salsa pode explicar

"O inferno são os outros". “Gostaria que esta fosse uma citação de um economista, mas não.” É de Jean-Paul Sartre, escritor e filósofo existencialista. Da Cultura, portanto, salienta José Tavares, professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa.

Hugo Paula hugopaula@negocios.pt 15 de Fevereiro de 2013 às 20:12
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A Economia é uma ciência, e como tal tem um método. Como centra o seu estudo no indivíduo, convencionou-se chamar-lhe “individualismo metodológico.” O princípio afasta, numa análise superficial, a disciplina da cultura. Pode dizer-se que se encontram nos “antípodas” uma da outra, explica José Tavares, professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa. Mas um olhar atento vislumbra diversos pontos de contacto. 

 

Foi isso que o académico procurou demonstrar, na apresentação que fez durante a conferência "Perspectivas para a Cultura no Quadro Estratégico Europeu". Como ciência social, a economia procura responder aos problemas do indivíduo. O primeiro de seis é a relação com “os outros”.

 

“Este é um problema com que a economia lida com muita modéstia porque é muito difícil ponderar valores inter-subjectivos”, explicou José Tavares. Refere a citação: "o inferno são os outros". “Eu gostaria que esta fosse uma citação de um economista, mas não.” É de Jean-Paul Sartre, escritor e filósofo existencialista. Da Cultura, portanto.

 

Um segundo problema para o qual a economia procura solução é “o tempo”. Por ser escasso, é, por definição, uma temática a tratar com economia. E a Cultura também se relaciona com o tempo.

 

“Muito do que valorizamos na Cultura é algo que nos é legado por pessoas com as quais nunca convivemos. Isso é valorizado porque a sua obra sobreviveu ao tempo. Há produtos culturais que não podemos avaliar pelo seu impacto, pelo resultado imediato.”

 

“O colectivo”, é o terceiro problema. “Todos percebemos que há um ênfase individualista” na ciência económica. Mas, ao longo dos últimos 50 anos, tem havido uma procura para “integrar comportamentos colectivos que não podem ser entendidos com uma atenção ao indivíduo.”

 

“Aqui, também, a ligação com a cultura é óbvia”, prossegue José Tavares. “A promoção e consumo de cultura têm elementos colectivos, elementos de grupo, de herança e de legado para o futuro que não são possíveis de pensar de forma individualista.”

 

Salsa produz felicidade. Cultura produz felicidade

 

Por outro lado, as preferências do indivíduo: É o quarto problema e diz-nos, ao contrário do que se pensa, que “a economia não se preocupa tanto com dinheiro e produção”. Preocupa-se, antes, com as preferências. Sem fazer “nenhum julgamento de valor” entre o que é possível produzir e aquilo que se produz de facto. “O que as pessoas querem é aquilo que nos deve guiar [aos economistas]. O juízo da economia é: o que devemos fazer para chegar onde as pessoas querem.”

 

Na cultura, acontece o mesmo: “não nos devemos preocupar com ela apenas porque tem um impacto no produto, no emprego ou no valor acrescentado.” Até porque o benefício chega, muitas vezes, em forma de bem-estar, difícil de mensurar.

 

Ainda assim, existe quem se dedique a medir a felicidade e, de um estudo citado por José Tavares, observam-se dois factos: não existe nenhum país mais rico e menos feliz do que Portugal e há muitos países que, com menos recursos, são mais felizes.

 

“Nenhum país que tenha mais rendimento é tão pouco feliz como nós. No entanto, entre os países com menor rendimento há muitos com maior felicidade. Muitos economistas chamam a isto ‘Salsa effect’”, ou "efeito Salsa". A cultura deve, portanto, ser produtora de felicidade e não só de produto.

 

Um quinto problema que a economia procura solucionar é encontrar o equilíbrio. A intersecção que permite retirar o máximo de bem-estar, dos compromissos que é necessário fazer.

 

“Ao contrário da cultura, que procura ruptura, diferenciações, mudanças, choques, críticas, etc., a economia tem uma obsessão do equilíbrio”, diz o professor. Contudo, também aqui tem havido uma convergência com a cultura. “Cada vez mais, se estuda respostas a desequilíbrios e a forma como os desequilíbrios levam a oportunidades melhores”, referiu, lembrando que vários economistas têm discutido como encontrar oportunidades na crise.

 

A racionalidade é o último dos problemas abordados pelo economista. “Há vários tipos de racionalidade e todos são legítimos. A racionalidade cartesiana, matemática, não resolve problemas sociais ou do colectivo. Já a racionalidade que envolve as emoções, as percepções do outro chamada inteligência emocional, é muito importante socialmente”. A economia começa a considerar estes diferentes tipos de racionalidade e, dessa forma, aproxima-se da cultura.

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