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Vergonha de resultados "demasiado embaraçosos" e lealdade cega alimentaram escândalo da Toshiba

“Faça-o como se a sua vida dependesse disso”. A ordem foi dada por Atsutoshi Nishida, ex-presidente da Toshiba, em 2008. O orgulho ferido aliado a uma lealdade cega empurraram a empresa nipónica para um dos maiores escândalos empresariais japoneses. Sete anos e três líderes depois, a vénia prolongada, um pedido de desculpa e a demissão.

Reuters
Inês F. Alves inesalves@negocios.pt 21 de Julho de 2015 às 17:02
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Os resultados eram "demasiado embaraçosos" para serem publicados, então Atsutoshi Nishida ordenou aos seus funcionários que fizessem tudo o que estava ao seu alcance para esconder esta realidade, escreve a Bloomberg. Falsearam-se as contas da empresa, inflacionaram-se os lucros e aumentou-se a pressão sobre os funcionários da Toshiba para darem resposta aos "desafios" que lhes eram colocados, principalmente depois da crise financeira de 2008. As irregularidades continuaram sob a gestão de Norio Sasaki, que tomou posse em 2009, e do sucessor Hisao Tanaka. Esta terça-feira, 21 de Julho, os três homens abandonaram a gigante tecnológica e a Toshiba inicia agora um longo caminho para reconquistar a confiança de accionistas, investidores e clientes.

O presidente Hisao Tanaka, o vice presidente, Norio Sasaki e o ex-presidente e actual consultor, Atsutoshi Nishida, demitiram-se esta terça-feira, 21 de Julho, assumindo a responsabilidade pelo escândalo de falseamento dos resultados contabilísticos da Toshiba.

"Estamos a levar muito a sério o que aconteceu, e gostaríamos de pedir desculpa do fundo do nosso coração", disse Hisao Tanaka, segundos antes de anunciar a sua demissão e dos ex-líderes da Toshiba. Uma vénia prolongada, para sinalizar um pedido de desculpas sentido, antecedeu o compromisso de que a empresa tudo fará para reconquistar a confiança do mercado.

O "chairman" Masashi Muromachi vai assumir o comando da Toshiba por agora e a nova administração será anunciada em Agosto. Os resultados operacionais referentes a 2014 serão apresentados no fim desse mesmo mês. De recordar que em Maio, altura em que a empresa expandiu o alcance da auditoria interna, decidiu retirar as suas previsões de lucros e cancelar o dividendo do final do ano.

Em causa está o escândalo contabilístico que obrigará a Toshiba a corrigir resultados em, pelo menos, 152 mil milhões de ienes (cerca de 1,1 mil milhões de euros). Esta correcção é referente aos resultados de um período de seis anos, sendo que grande parte do montante diz respeito às contas de 2012.

"Os responsáveis pelas unidades, os executivos e contabilistas estavam sob uma intensa pressão para atingir objectivos de lucros", escreve a Bloomberg, dando conta que estes eram conhecidos internamente como "desafios".

A agência noticiosa exemplifica esta realidade com o relato de uma reunião, em Setembro de 2013, altura em que Hisao Tanaka ordenou aos seus subordinados que fizessem uso "de todos os meios concebíveis para atingir lucros", uma vez que o próprio havia prometido "recuperar as lucros no sector das televisões na segunda metade" desse ano.

As irregularidades nas contas da empresa eram escondidas de forma "engenhosa", escreve a Bloomberg e os subordinados não eram capazes de fazer frente às chefias.

A cultura corporativa no Japão é hierárquica e baseada numa longa tradição que dá ênfase à lealdade, a fazer o nosso melhor, e a fazer tudo o que é possível para evitar trazer vergonha ao grupo.
Loizos Heracleous
Professor da Warwick Business School

A BBC, por seu turno, cita o relatório da auditoria e faz referência a uma cultura corporativa em que "ninguém pode agir contra os desejos dos seus superiores". Assim sendo, quando as chefias apresentavam 'desafios', todos os funcionários em cargos hierarquicamente inferiores levavam a cabo "de forma sistemática e inapropriada práticas de contabilidade que atingissem os objectivos traçados pelos seus superiores".

"A cultura corporativa no Japão é hierárquica e baseada numa longa tradição que dá ênfase à lealdade, a fazer o nosso melhor, e a fazer tudo o que é possível para evitar trazer vergonha ao grupo", explicou à BBC Loizos Heracleous, professor da Warwick Business School.

"Estes valores combinados com as pressões do mercado podem muitas vezes incentivar os executivos a optar por atalhos, e podem também dificultar a tarefa dos funcionários de colocar questões embaraçosas e inquiridoras aos executivos", disse ainda.

Perante este caso - o maior escândalo contabilístico do Japão desde que a Olympus Corp. admitiu ter ocultado cerca de 1,7 mil milhões de dólares de prejuízo – o ministro das Finanças Taro Aso disse que as irregularidades nas contas da Toshiba são "muito lamentáveis" e acrescentou que esta ocorrência pode minar a confiança no sector empresarial do país, escreve a BBC.

Reconhecendo isto mesmo, Tanaka assumiu que "para a companhia se reconstruir é necessária uma renovação da estrutura de gestão" e garantiu que a Toshiba "encetará todos os esforços para reconquistar a confiança" dos accionistas e investidores.

Wee Teck Loo, analista da Euromonitor, disse à BBC que a Toshiba, tal como outras empresas japonesas, "estão a perder competitividade face aos concorrentes coreanos e chineses" e defendeu que a empresa "deve focar-se em acelerar os seus planos de restruturação e direccionar os recursos que tem no sector da electrónica para consumo para o seu negócio principal – energia e componentes".

Wee Teck Loo assinalou também que a empresa poderá enfrentar alguns desafios ao negociar novos contratos com parceiros e clientes, uma vez que estes podem estar hesitantes em comprometer-se com a firma dada a incerteza sobre o futuro, incluindo possíveis coimas, escreve a BBC.

Na mesma linha de raciocínio, Loizos Heracleous, em comunicado enviado ao Negócios, adiantou que "o escândalo da Toshiba será visto no contexto do caso da Olympus, com os investidores a questionarem-se se há um padrão de comportamento corporativo de manipulação de contas" e com uma atitude de "observação atenta". Assim, defende, "as autoridades reguladoras vão ter de assegurar aos mercados que estão atentas às companhias japonesas, e que a cultura corporativa japonesa está a mover-se no sentido das expectativas globais".

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