Redes Sociais 20 anos depois, para onde foi o movimento associativo?

20 anos depois, para onde foi o movimento associativo?

A crise pode ter dado um empurrão a juntar 300 mil da "geração à rasca", mas e os outros, que estudam na universidade? Já não têm problemas, como nos anos 1990? Têm. Mas a política e Bolonha tiram-lhes o interesse e o tempo.
20 anos depois, para onde foi o movimento associativo?
Em 1992, os estudantes mobilizaram-se contra a Prova Geral de Acesso (PGA). Um ano depois, contestaram nas ruas o aumento das propinas. A 24 de Novembro de 1993, uma manifestação de estudantes em frente à Assembleia da República é carregada violentamente pela polícia.
Sair à rua era, há pouco menos de 20 anos, uma condição obrigatória para mudar. Com irreverência e influências partidárias à mistura, os jovens mexiam-se, gritavam, exigiam. Cavaco Silva que o diga. O seu governo, que caiu em 1995, ficou fragilizado pelos protestos dos jovens, que não queriam mais propinas. Até há quase duas semanas, os jovens deixaram(-se) adormecer o seu intervencionismo associativo. As gerações mudaram, e se antes o problema era entrar, agora é sair. A crise pode ter dado um empurrão a juntar 300 mil da "geração à rasca", mas e os outros, que estudam na universidade? Já não têm problemas, como nos anos 1990? Têm. Mas a política e Bolonha tiram-lhes o interesse e o tempo. Respectivamente.

Da "geração rasca" à "geração à rasca" vai um mundo de diferenças. Quase duas décadas depois, as queixas de ontem deram lugar às incertezas de amanhã. Os rabos à mostra são substituídos por cartazes. Se antes o problema era entrar, agora é para onde sair. Ontem pagavam-se mil escudos de propina anual no ensino universitário público, hoje pagam-se mil euros. Mas o movimento associativo das universidades já não mobiliza como dantes. Como mobilizou na década de 90, esses anos repletos de protestos e manifestações contra a PGA (Prova Geral de Acesso) e o então anunciado aumento das propinas. O que se passa para o movimento associativo de hoje andar mais sossegado? Com elevadas taxas de abstenção nas eleições para as associações de estudantes. Com escassa participação nas reuniões gerais de alunos, as famosas RGA que nos anos 90 enchiam alas. A nova geração parece ser menos ideológica, mais despolitizada, mais individualista e com menos tempo para actividades associativas. E exprime-se menos nas ruas e mais na blogosfera. Esta é a opinião de antigos e actuais lideres associativos ouvidos pelo Negócios.

"Os alunos acham que as coisas estão mal, mas conformam-se com isso e seguem em frente", lamenta Ivan Gonçalves, presidente da Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico (IST). Os motivos para o "alheamento" são muitos e variados. A falta de tempo é quase sempre a justificação que se ouve. Com Bolonha, os anos de estudo diminuíram mas a carga de trabalho aumentou. E há redes sociais, na internet, que distraem os estudantes. Hoje, até partir para os protestos nas ruas parece fora de moda.





Agora, o diálogo interno é a via preferencial para resolver problemas. "Tendo em conta que temos vias de comunicação muito abertas, a nível de reitor e coordenadores, e desde que seja algo localizado, faz mais sentido trabalhar directamente e não partir logo para a manifestação", conta Luís Pedra Costa, o líder da Associação de Estudantes do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG).

Eduardo Melo, presidente da Associação Académica de Coimbra, reconhece que é mais difícil mobilizar os estudantes porque "Bolonha rouba imenso tempo" aos alunos. Mas discorda quanto ao alheamento dos jovens da política. "Eles estão cada vez mais interessados, estão é muito descontentes com os actuais actores políticos", sustenta. Além disso, há outras formas "de as pessoas se manifestarem, que não se vêem tanto no dia-a-dia".

Livro de reclamações é o melhor que se "arranja"?
As manifestações, excepção feita à de 12 de Março, cuja génese estava no desemprego e precariedade, estão a léguas do que eram dantes, e os dirigentes associativos reconhecem-no. Ontem, cerca de 300 estudantes manifestaram-se frente à Direcção-Geral do Ensino Superior para protestar contra os cortes nas bolsas. O objectivo, com alguns cânticos e cartazes à mistura, era assinar o livro de reclamações do organismo. A iniciativa surgiu no Encontro Nacional de Direcções Asssociativas (ENDA). Além das reclamações, foi também decidido encerrar as portas de algumas universidades - em Coimbra, por exemplo.

Mas nem todas as faculdades estão unidas quando se trata de mostrar a insatisfação. A grande maioria das universidades de Lisboa demarcou-se do protesto de ontem. Marlon Francisco, presidente da Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, é lapidar na justificação. "Se isto [assinatura no livro de reclamações] é o melhor que o movimento associativo tem para dar, então está completamente esgotado nos moldes em que está a ser feito. Estamos a falar de um movimento associativo cuja principal preocupação são festas", acusa. O dirigente associativo lembra que "há pessoas a recorrer ao banco alimentar contra a fome" e deixa a questão: "isto é o melhor que os representantes dos estudantes conseguem? Isto é gozar com a cara das pessoas que realmente estão com problemas financeiros", sintetiza.

E por que razão é que os estudantes estão descontentes com os políticos? A questão é, aparentemente, geracional. E tem vindo a crescer, consolidada pela democracia e melhores condições económicas. "Nos últimos 30 anos não tem havido respostas às ambições do povo, os partidos fecham-se muito sobre si mesmos e perdem-se na trica política em vez de oferecerem uma visão para o País. Isso faz com que exista este alheamento - que é maior na nossa geração, mas que também acontece com os nossos pais, que estão mais alheados do que há 20 anos", explica Ivan Gonçalves.

"A nossa geração não tem a veia revolucionária de outras. É mais passiva. Nós não vivemos o 25 de Abril, nós não lutámos pelo direito de votar. O direito de votar já nos chegou, já é um dado adquirido", lembra Gonçalo Carrilho, presidente da Associação Académica da Faculdade de Direito (AAFDL). As estruturas familiares que os estudantes tinham por garantidas moldaram o seu intervencionismo. "A nossa geração não foi muito prejudicada nem sofreu de problemas económicos. Sendo a nossa geração mais individualista, acaba por tomar menos atenção ao colectivo e concentrar-se cada vez mais no seu sucesso, sem olhar à volta para a sociedade", justifica Ivan Gonçalves.

Esvaziamento político
Há imagens que toda a gente associa aos protestos dos anos 90 - e os mais velhos lembram-se disso melhor do que a juventude actual. A política, hoje, parece ser quase tabu nas associações de estudantes. "As pessoas têm receio, falta-lhes sentido de coesão que existia na parte final do século XX", aponta Luís Rebelo, da Federação Académica do Porto (FAP).

João Chambel, presidente da Associação Académica de Lisboa entre 1994 e 1995, lembra que, quando assumiu o cargo, havia "um movimento amplo em que as associações se politizaram e, ao mesmo tempo, se despartidarizaram". Ou seja, "deixou de haver influências das 'jotas' mas houve um maior enfoque nas questões políticas do ensino", resume. E agora? A impressão não é a melhor. "O movimento associativo perdeu o poder político que já teve. As associações de estudantes estão de volta ao que eram nos anos 80: só faziam festas".

Um outro dirigente deste período, que prefere não se identificar, aponta diferenças entre os anos 90 e a actualidade. "Na altura estávamos sempre nos jornais, havia muita política no meio… parecia um movimento profissional. Era uma coisa mais à séria. Hoje, o movimento parece ser mais desorganizado", analisa. A importância que a Internet adquiriu na vida dos jovens pode ter tido algum impacto no intervencionismo dos estudantes, também. "Antes, havia muito a ideia de que, com contestação, se podiam resolver os problemas junto das instituições. Agora… os jovens pensam que podem resolver tudo no seu próprio blogue". E o problema dos jovens é também de expectativas. "Noutros países, vemos os licenciados a trabalhar como taxistas. Aqui não pode ser", lamenta.

Participação em eleições transformou-se na abstenção
As Reuniões Gerais de Alunos (RGA) e as eleições para a associação de estudantes já foram muito frequentadas. No ISEG, onde João Chambel estudava, havia cerca de 1.500 alunos em meados dos anos 90. Desses, 300 iam às RGA normais. Quando as reuniões eram mais polémicas, o número era muito superior. "Iam tantos quantos coubessem na sala", recorda. E agora? O retrato é bastante diferente. Os números mais fracos dos anos 90 são, agora, considerados os melhores. E as reuniões transformaram-se em "campos de batalha".

Com Bolonha, acabou a "participação construtiva", descreve Luís Pedro Costa, do ISEG, onde num universo de quatro mil alunos, cerca de 150 vão a uma RGA. "Por vezes, estas reuniões tornam-se num concurso de quem diz mais disparates, servem para lavagem de roupa suja em público". No IST o cenário é semelhante. Dos 10 mil alunos, 100 vão à RGA. "Mas tendo em conta o passado recente, têm sido das mais participadas", acrescenta Ivan Gonçalves. Do Porto (200 pessoas) a Coimbra (200 no máximo), as RGA perderam a força que já tiveram no passado.

Nos anos 90, quando havia eleições para a Associação Académica de Lisboa, as taxas de participação rondavam os 60 a 70%, recorda João Chambel. Nas últimas eleições, a abstenção rondou os 74%. No IST foi de 84%. No ISEG chegou aos 65%. Na Faculdade de Direito costuma ser de 50%. O problema pode ser falta de estímulo. "Quando é mesmo necessário, os jovens dizem 'presente", frisa João Chambel.

E a actividades extracurriculares? Todas as faculdades oferecem clubes ou núcleos para praticar teatro, rádio, jornalismo, desporto, cinema. Se na FAP a maioria das actividades é "muito frequentada", no ISEG… nem por isso. Mas as festas, essas, não passam despercebidas. Até porque "se não tivermos contacto directo com os estudantes pelas festas, não conseguimos fazer mais nada", reconhece Luís Pedro Costa.



Nos anos 90 eram as propinas e as PGA, hoje são as bolsas...

É como em tudo na vida. O impacto das manifestações do Ensino Superior depende da mobilização junto dos estudantes, e esta, por seu turno, depende da forma como os estudantes percebem o problema... e principalmente, de como o sentem. Nos anos 90, o problema do aumento de propinas atingia todos os estudantes que ingressavam no Ensino Superior. Antes, a Prova Geral de Acesso (PGA) doía a todos aqueles que terminavam o Ensino Secundário e queriam seguir para a universidade. E agora?...

A maioria dos dirigentes associativos elencou três problemas como alvos principais a "abater". A Acção Social Escolar, o processo de Bolonha e as imprevisíveis saídas profissionais. E é fácil perceber as diferenças geracionais entre os dois momentos. Antes, o problema era entrar. Depois disso, o futuro estava mais ou menos garantido. Um diploma era quase sinónimo de emprego - na área - bem remunerado. Mas hoje, essa garantia não existe. Ainda antes de entrar no Ensino Superior, o jovem português já sabe que não tem um trabalho à sua espera. E à sua frente ainda tem vários milhares de desempregados.

A manifestação de ontem, que contestou os cortes na acção social, não teve o impacto da "geração à rasca". Não era esse o objectivo, mas foi uma tomada de posição minada pela fraca participação - quando o Negócios lá esteve, estariam cerca de 300 pessoas a gritar e a agitar cartazes. O objectivo era criticar os cortes nas bolsas. E essa questão não é transversal a todos os estudantes. Foi até marcada por um paradoxo: a esmagadora maioria dos que lá estavam não eram de Lisboa (a Associação Académica de Lisboa demarcou-se do protesto) mas do Porto, Braga e até Aveiro. O objectivo, assinar o livro de reclamações da Direcção-Geral do Ensino Superior, foi cumprido com dificuldade: três pessoas de cada vez.

Os anos noventa ficaram marcados pelo poder das associações de estudantes em mobilizar a população estudantil para travar a chamada "guerra das propinas". O "confronto", desencadeado pela intenção do governo de Cavaco Silva de aumentar as propinas, ficou na memória de muitos pela magnitude que o número de estudantes presentes nos protestos lhe deu. Até aí o valor exigido aos estudantes universitários estava fixado nos 1.200 escudos. Seis euros. Milhares e milhares de estudantes fincaram o pé na escadaria da Assembleia da República e enfrentaram a carga policial que os "recebeu".

Luís Branco, jornalista e editor no portal esquerda.net, recorda que essa iniciativa do Governo "causou uma grande revolta nas faculdades" porque significava "o início da privatização e da elitização do ensino". O membro da direcção da Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (AEFCSH) à data dos protestos qualifica o período como uma "experiência muito rica porque havia uma grande luta social e uma grande mobilização estudantil". A tal mobilização que hoje não se vê e não é por falta de motivos.

Hoje, as propinas, na maioria das faculdades, estão fixadas no valor máximo permitido por lei: 986,70 € e, nem por isso, se vê a população estudantil a reclamar. O processo de Bolonha veio alterar profundamente a estrutura dos cursos leccionados e, nem por isso, se vêem mais protestos ou mais manifestações. O Governo aprovou recentemente o novo regime de atribuição de bolsas de estudo para acção social que se traduz numa redução generalizada não só no número de bolsas atribuídas mas também no valor das mesmas e as associações estudantis respondem com a sua assinatura no livro de reclamações da Direcção Geral do Ensino Superior (DGES).