Aviação Telemóveis são perigosos nos voos? Em alguns aviões da Boeing, sim

Telemóveis são perigosos nos voos? Em alguns aviões da Boeing, sim

Apenas nos últimos três anos, pilotos perplexos no comando de jatos Boeing NG ou 777 relataram mais de uma dezena de casos de importantes informações que desapareceram durante o voo.
Telemóveis são perigosos nos voos? Em alguns aviões da Boeing, sim
Bloomberg
Bloomberg 20 de julho de 2019 às 19:00

Autoridades do governo dos Estados Unidos revelaram em 2014 um alarmante problema de segurança: telemóveis de passageiros e outros tipos de sinais de rádio poderiam aumentar as probabilidades de acidentes em alguns modelos de aviões Boeing 737 e 777.

 

Mais de 1.300 jatos registados nos EUA foram equipados com ecrãs de cabine vulneráveis à interferência de Wi-Fi, telemóveis e até mesmo fora do alcance de frequências, como o radar meteorológico, segundo um relatório da Administração Federal de Aviação (FAA, na sigla em inglês), que deu um prazo até novembro de 2019 para que as companhias aéreas substituam as unidades fabricadas pela Honeywell International.

 

Hoje, potencialmente centenas de aviões em todo o mundo ainda voam com os sistemas inseguros citados no relatório da FAA. Dados críticos de voo como velocidade, altitude e navegação podem desaparecer e "resultar na perda do controlo do avião a uma altitude insuficiente para a recuperação", revelou a FAA no boletim de segurança, conhecida como diretiva de aeronavegabilidade.

 

A Honeywell diz que não foi informada de nenhum ecrã que se tivesse desligado por interferência de telemóveis ou outras frequências de rádio durante o voo de um avião, disse a porta-voz da empresa, Nina Krauss. Quando as companhias aéreas e a Honeywell argumentaram que os sinais de rádio provavelmente não causariam problemas de segurança durante os voos, a FAA respondeu que tinha realizado testes com aviões em operação - e que os aviões não passaram no teste.

 

A Boeing descobriu a interferência num teste de laboratório em 2012 e não identificou problemas semelhantes noutras aeronaves, revelou um porta-voz da empresa. A Honeywell tem conhecimento de apenas um caso em que os seis ecrãs existentes numa cabine de um 737 ficaram em branco, disse Krauss. O problema, causado por uma falha de software, foi corrigido e atualmente está sendo testado, disse.

 

Os 737 afetados fazem parte do chamado modelo da Próxima Geração, um antecessor do Boeing Max, que esteve envolvido em dois acidentes em menos de cinco meses. Os ecrãs da cabine do Max foram fabricados pela Rockwell Collins, agora uma unidade da United Technologies, e não pela Honeywell. Os 777 da Boeing também foram incluídos na ordem da FAA.

 

A ordem da FAA não quantificou a quantidade de sinais de rádio necessários para causar problemas de interferência. Ainda assim, a ameaça do sinal de rádio vai além do sistema de exibição específico e do aviso da FAA.

 

Vários telemóveis que ficam ligados durante um voo "podem realmente ser um problema", afirmou o professor Tim Wilson, chefe do departamento de engenharia elétrica, computadores, software e sistemas da Universidade Aeronáutica Embry-Riddle. Quanto maior o número de telefones a emitir sinais de rádio, maior é o potencial de interferência no sistema de voo de um avião.

 

Modo voo

Muitas companhias aéreas agora permitem que os passageiros coloquem os telemóveis em "modo voo", o que permite transmissões Wi-Fi. Mas os telemóveis operam em níveis mais altos de energia, disse Wilson, já que os sinais devem chegar a uma torre de comunicações móveis e não apenas a uma antena local. "Por isso, o serviço de telemóvel é potencialmente mais impactante", acrescentou.

 

Apenas nos últimos três anos, pilotos perplexos no comando de jatos Boeing NG ou 777 - os mesmos modelos citados no alerta da FAA sobre o uso de telemóveis - relataram mais de uma dezena de casos de importantes informações que desapareceram durante o voo. Os pilotos classificaram as situações de "críticas" e enviaram os seus relatórios ao Sistema de Relatórios de Segurança da Aviação, ou ASRS, que é gerido pela NASA.

 

Em setembro do ano passado, pilotos de um 737-700 observaram que várias informações de voo piscavam, mostrando diferentes velocidades e altitudes. Depois, um ecrã de exibição ficou em branco. "Naquele momento", escreveram os pilotos, "decidimos que era melhor aterrar a aeronave".

 

(Texto original: Are Cellphones a Flight Danger? They Are on These Boeing Jets)



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