Aviação VEM, a compra da TAP que nasceu torta e nunca se endireitou

VEM, a compra da TAP que nasceu torta e nunca se endireitou

A TAP queria comprar a Varig mas acabou apenas por conseguiu ficar com a Varig Manutenção & Engenharia Brasil. Estava-se em 2005. Desde então a empresa tem sido uma dor de cabeça para a transportadora nacional.
VEM, a compra da TAP que nasceu torta e nunca se endireitou
Celso Filipe 08 de abril de 2016 às 21:34
A 8 de Novembro de 2005 chegou a notícia de que a TAP havia assinado um contrato para compra da VEM (Varig Engenharia e Manutenção) e da Varig Log (Varig Logística) por 62 milhões de dólares.


A aquisição destas duas subsidiárias fazia parte de uma estratégia não confessada da transportadora portuguesa, já então liderada por Fernando Pinto, de avançar para a compra da Varig, a transportadora aérea. Para concretizar a operação, a TAP formou com a Geocapital, uma sociedade detida por Stanley Ho e liderada por Ferro Ribeiro, o consórcio Aero LB.


Contudo, parte do acordo assinado pelo consórcio Aero LB caiu logo nesse ano. Em Janeiro de 2006 a Varig Log foi comprada por uma empresa denominada Volo Brasil SA, constituída pelo fundo de investimento norte-americano Matlin Petterson e por três empresários brasileiros, os quais acabaram também por adquirir a parte saudável da transportadora Varig que em 2007 a Volo Brasil acabou por vender a outra companhia brasileira, a Gol.


Nos bastidores, chegou a ser comentado que a TAP havia perdido a corrida à compra da Varig por influência de José Dirceu, então ministro da Presidência de Lula da Silva e um dos envolvidos no escândalo "Mensalão". No fim deste processo, em Fevereiro de 2006, o consórcio Aero LB ficou apenas com a VEM, pela qual pagou 24 milhões de dólares, tendo assumido ainda um passivo então avaliado em 100 milhões de dólares.

José Dirceu, ex-ministro de Lula da Silva, terá tido influência no desfecho de venda da Varig.
José Dirceu, ex-ministro de Lula da Silva, terá tido influência no desfecho de venda da Varig.

A parceria entre a TAP e a Geocapital tinha uma cláusula que obrigava a companhia aérea portuguesa a adquirir a parte da Geocapital na VEM caso o negócio da Varig falhasse. Como isso aconteceu, a TAP teve de devolver à empresa de Stanley Ho e Ferro Ribeiro os 21 milhões de dólares investidos por esta e como isso só se tornou efectiva em 2007, a TAP teria de pagar à Geocapital um prémio de 20%, ou seja, mais 4,2 milhões de dólares, outra condição do acordo, um pagamento que acabou por se efectivar.


A TAP acabou por ficar com a VEM, rebaptizou-a como TAP Engenharia e Manutenção e ao longo de todos estes anos não conseguiu tirar as contas da subsidiária brasileira do vermelho.


Pelo caminho, desconhece-se em que ano, chegou à Unidade Nacional de Combate à Corrupção da Polícia Judiciária uma denúncia anónima onde era colocada em causa a compra da VEM. O certo é que em Junho de 2014, na sequência desta denúncia, a PJ fez buscas à TAP e em Setembro desse ano ouviu Fernando Pinto sobre o tema na condição de testemunha.


Nessa altura, o presidente da TAP, citado pelo Público, explicava assim a sua presença na PJ. "Fui chamado como testemunha para responder a perguntas sobre o processo de aquisição da manutenção & Engenharia Brasil. Levei documentos, ‘pen drives’". Na altura, adiantou ao mesmo jornal: a compra "foi feita de forma correcta" e "teve a participação do Ministério das Obras Públicas e da Parpública". "Estou confortável porque somos extremamente cuidadosos", acrescentou.

cotacao A compra da VEM foi feita de forma correcta.
Fernando Pinto, presidente da TAP

A comissão paga de 4,2 milhões paga à Geocapital foi, na ocasião, o tema central da inquiração, tendo Fernando Pinto explicado que a Geocapital "não exerceu a opção" de sair na data indicada, o que fez com que a TAP tivesse que pagar esse montante extra.


Em 2014, o próprio Sindicato dos Pilotos da Aviação Civil, através de Jaime Prieto, então seu presidente, apontava baterias ao negócio da VEM. "O problema da TAP é o negócio do Brasil, onde temos enterrado milhões de euros e que em sete anos apenas deu resultados positivos num mês", declarava então Jaime Prieto.

Nesse mesmo ano, o último relativamente ao qual ao qual existem resultados finais, a Manutenção e Engenharia Brasil, que tem bases no Rio de Janeiro e em Porto Alegre emprega 2.000 pessoas, fechou o exercício com prejuízos de 22,6 milhões de euros.


Desde o testemunho de Fernando Pinto na PJ, em 2014, não mais tinha havido notícias sobre diligências policiais por causa da VEM. Até esta sexta-feira, 8 de Abril, em que foram tornadas públicas buscas à TAP e à Parpública.

Em comunicado, a Procuradora-Geral da República explicou que "os factos em investigação estão relacionados com o negócio de aquisição da empresa de manutenção e engenharia VEM", refere um comunicado enviado às redacções esta tarde. Segundo a PGR estão em causa suspeitas da prática de crimes de administração danosa, participação económica em negócio, tráfico de influência, burla qualificada, corrupção e branqueamento. Até ao momento, garante a PGR, não há arguidos constituídos no âmbito deste processo.




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