Turismo & Lazer Alojamento local: "Fechem o aeroporto. Se quisermos gente aqui, temos de acomodá-la"

Alojamento local: "Fechem o aeroporto. Se quisermos gente aqui, temos de acomodá-la"

É preciso criar condições para alojar o crescente número de turistas que Portugal recebe. O "atrito" face ao alojamento local é uma realidade, numa altura em que se busca a profissionalização. Não é uma questão de massas, mas de ideias. "Somos a personificação do turismo."
Alojamento local: "Fechem o aeroporto. Se quisermos gente aqui, temos de acomodá-la"
Wilson Ledo 08 de junho de 2016 às 15:07

Carlota Godinho deixou Londres e um trabalho na área financeira para trás. A saúde e a vontade de voltar para Portugal ditaram essa mudança de vida. Foi nessa altura que o alojamento local surgiu como uma opção.

Os três apartamentos que Carlota explora fazem parte dos 5.114 estabelecimentos de alojamento local registados actualmente em Lisboa. A ALEP – associação que representa este sector – acredita que possam existir outros mil por registar.


Lisboa ocupa um peso de 17% do total nacional no que respeita ao alojamento local. 30 mil registos. Além do Porto, "o resto está essencialmente nas zonas balneares". O Algarve ocupa a maior fatia, mas os circuitos de distribuição não permitem ainda um cálculo fiável, explica o presidente da ALEP, Eduardo Miranda.


Carlota tem dois apartamentos na Graça e outro na zona da Gulbenkian. São áreas consideradas pouco "tradicionais" para instalar este tipo de negócios. As freguesias de Santa Maria Maior e Misericórdia – correspondentes à Baixa de Lisboa – ocupam um peso de 8,8% a nível nacional.


Fora do centro histórico, o impacto do alojamento local "é quase irrelevante", garante Eduardo Miranda. Neste pacote cabem apartamentos, moradias e estabelecimentos de hospedagem como pensões, residenciais ou hostels. Esta oferta acaba por representar 29 a 35% da capacidade de alojamento a turistas em Lisboa.


O presidente da ALEP alerta para as taxas de ocupação superiores a 90% na hotelaria. Agora imagine-se se não existisse o alojamento local. Eduardo Miranda, em tom de brincadeira, traça um cenário de extremos: "Fechem o aeroporto. Se quisermos gente aqui, temos de acomodá-la".

 

Uma questão de propriedade

"Está a correr bem, é muito trabalho". Carlota Godinho só não trata da limpeza dos apartamentos que gere. No seu horizonte está apenas a abertura de mais duas unidades, algo que lhe permite uma certa "estabilização" no orçamento familiar.


Carlota é um dos exemplos de um mercado de alojamento local lisboeta constituído em 90% por pequenos proprietários. Os rendimentos desta actividade beneficiam já 1.450 famílias e 3.700 pessoas de uma forma directa. Contudo, para mais de metade destes empresários, o alojamento local representa menos de 40% do seu orçamento familiar. Em média, a diária em Lisboa está fixada nos 68 euros.


A ALEP mediu também o impacto do alojamento local a nível local. São 7,5 milhões de euros para a contratação de serviços como limpeza, recepção ou transferes do aeroporto, mesmo com as questões sociais que esta actividade levanta.


Carlota Godinho admite que a questão pode "trazer atrito" mas acredita que é possível superá-lo. Dá o exemplo: a administração de um prédio onde abriu uma unidade não estava muito inclinada para aceitar a sua proposta. Carlota mostrou-se disposta a explicar o conceito e deixou todos os contactos para que a administração pudesse falar com ela caso existissem situações menos agradáveis com turistas. O negócio foi em frente. "Isto é colocar Lisboa no mapa das capitais", resume.

 

No mapa dos estrangeiros

Os estrangeiros têm ainda um peso reduzido no mercado do alojamento local, mas o seu contributo tem chegado por outra via: a da reabilitação urbana. A ALEP recorda quem, em 2012, 30% dos imóveis da Baixa estavam vazios. Metade precisava de obras.


Só no ano passado, a associação estima um investimento de 48 milhões de euros em reabilitação urbana na área do alojamento local. "Os estrangeiros têm feito uma excelente reabilitação. O processo resgatou os bairros históricos que tinham um ar abandonado", posiciona Eduardo Miranda.


O alojamento local surgiu como uma via para "compatibilizar" o investimento com as exigências dos regimes dos residentes não habituais (destinado a cidadãos europeus) e dos vistos "gold".


Eduardo Miranda reconhece que essa direcção do investimento acabou por se reflectir numa diminuição do arrendamento no centro da cidade. Todavia, a garantia é de que a ALEP está disponível para discutir a questão, sobretudo no que respeita ao arrendamento jovem.


A flexibilidade para o regresso ao mercado de arrendamento é precisamente uma das vantagens identificadas no negócio do alojamento local. "Há proprietários [de alojamento local] que admitem estar interessados em contratos de longo prazo", exemplifica. Nesse sentido, estão a ser preparadas propostas, que deverão ser apresentadas em breve.


Para isso é preciso "despolitizar a conversa". "Estamos abertos para sentar e conversar. O que temos visto são bandeiras políticas, o que não dá para conversar", lamenta o responsável. É preciso separar as águas, tirar tudo do mesmo saco. Eduardo Miranda admite que "muita gente entrou no alojamento local com ideia que ia fazer fortunas e de que era fácil". 


O presidente da ALEP acredita que, ao seu ritmo, o mercado irá separar o trigo do joio. O alojamento local não é o rosto da massificação turística, pelo contrário. E deixa o convite: "venham passar um dia connosco. Somos a personificação do turismo".




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