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A desobediência inteligente

Mais frequentemente do que seria desejável é comum tomarmos conhecimento de uma tragédia ou escândalo empresarial que poderia ter sido evitado se alguém tivesse tido a coragem de se recusar a obedecer a uma ordem ilegítima, ilegal ou que vá contra os fundamentos morais que nos orientam.

Helena Oliveira - Portal VER helena.oliveira@ver.pt 25 de Setembro de 2015 às 20:44
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Mais frequentemente do que seria desejável é comum tomarmos conhecimento de uma tragédia ou escândalo empresarial que poderia ter sido evitado se alguém tivesse tido a coragem de se recusar a obedecer a uma ordem ilegítima, ilegal ou que vá contra os fundamentos morais que nos orientam. Mas nem sempre é fácil erguer a voz e assumir a responsabilidade devida. Um novo e fascinante livro sobre a natureza da obediência ajuda a fazer o que é, simplesmente, certo

 

Um dos mais famosos – e controversos – estudos sobre a obediência foi realizado pelo psicólogo e professor na Universidade de Yale, Stanley Milgram, em 1963. As experiências levadas a cabo por Milgram tinham como principal objectivo o enfoque no conflito existente entre a obediência à autoridade e a consciência pessoal. Tendo como pano de fundo os nazis condenados, no Tribunal de Nuremberga, pelos seus actos de genocídio durante a segunda guerra mundial – e como ponto de partida a defesa dos mesmos que se baseava na ideia que se tinham limitado a obedecer a ordens – o psicólogo de Yale protagonizaria uma experiência que ainda hoje é tida como obrigatória para quem estuda a psicologia da obediência.

Muito resumidamente, a experiência, com a duração de dois anos, foi feita com centenas de pessoas que, voluntariamente, se ofereceram para fazer de "professores" de um "aluno"- da equipa do psicólogo – este último sentado numa outra sala e amarrado a uma cadeira de choques eléctricos. Os "professores" recitavam um conjunto de palavras e o "aluno" deveria repeti-las sem se enganar. Cada vez que surgia um erro, o "professor" tinha permissão para lhe ministrar choques, de intensidade crescente, começando com 15 volts (choque ligeiro) e aumentando-os até 450 volts (choque severo). Alguns dos voluntários (que eram pagos para fazer parte da experiência), horrorizados com o que lhes era pedido, abandonaram a experiência precocemente, desafiando a insistência do supervisor para continuarem; mas outros continuaram e chegaram a intensificar os choques até aos 450 volts, mesmo depois do "aluno" gritar por clemência. Na variação mais conhecida desta experiência, 65% dos "professores" voluntários cumpriram-na até ao fim.

Na verdade, nem os choques eram verdadeiros, nem o "aluno" gritava de dor, mas os voluntários não tinham conhecimento destes factos. Nem sabiam também que tinham sido usados para provar o argumento que tornaria Milgram famoso: o de que pessoas comuns, comandadas por uma figura de autoridade, obedeceriam a qualquer ordem que lhes fosse dada, até mesmo à tortura.

Mais de cinquenta anos passados e este fenómeno continua a ser usado para explicar atrocidades não só como o Holocausto, mas também as que foram feitas durante a guerra no Vietname ou os abusos perpetrados aos prisioneiros de Abu Grahib. E é sobre (e contra) esta obediência cega – que está presente em todas as instituições da sociedade contemporânea – que versa o novo livro de Ira Chaleff, consultor, coach e especialista em ética empresarial, intitulado "Intelligent Disobedience: Doing Right When What You´re Told To Do Is Wrong", o qual tem vindo a ser aclamado por pessoas de diferentes quadrantes.

Com base na denominada "desobediência inteligente", um conceito normalmente utilizado no treino de cães-guia, os que acompanham pessoas com deficiência, e que são suficientemente espertos para obedecer, mas também inteligentes o suficiente para desobedecer quando pressentem algum perigo e não seguem, por questões de protecção, as ordens que lhe são dadas, o autor convida a uma viagem – a qual visita níveis diferentes das nossas vidas – e à compreensão da obediência apropriada e da desobediência inteligente em cada um destes estágios – pessoais, profissionais, educativos, etc., – para reforçar a nossa capacidade de criar o equilíbrio certo entre ambos. Porque são muitas as situações em que não devemos cumprir ordens que nos são dadas, em particular quando as mesmas colidem com os nossos fundamentos morais e éticos.

 

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