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A Internet é o espelho da sociedade e o reflexo não é nada bonito

Uma das promessas que nos foi feita aquando do “nascimento” da Internet, era a de que esta seria o melhor veículo para transformar o mundo numa comunidade de cidadãos bem informados, a qual e consequentemente, abriria portas a uma sociedade mais tolerante e pacífica. A promessa falhou, mas a culpa não é da rede que realmente mudou o mundo – em muitos casos para melhor. Pelo contrário, são os humanos que a utilizam os responsáveis pelo aumento do ódio e da violência. E num ano em que o terrorismo e a crise dos refugiados nos manteve colados aos vários ecrãs digitais, a resposta dos que presidem aos destinos da Europa deixa também muito a desejar. Valores precisam-se, urgentemente, para este mundo “dois-em-um”

Helena Oliveira - Portal VER helena.oliveira@ver.pt 18 de Dezembro de 2015 às 15:00
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NOTA PRÉVIA: Numa altura em que a realidade física se mistura com a virtual e em que a Internet passou a fazer parte integrante do quotidiano de quase 3,5 mil milhões de pessoas em todo o mundo, não é exagero afirmar que esta sobreposição de universos se transformou num fenómeno de dimensões sem precedentes e que passámos a assistir ao "mundo em directo". Para o bem e para o mal, o acesso imediato ao que de real acontece aos humanos em diferentes partes do mundo implica reacções igualmente imediatas, muitas vezes desprovidas de contexto e de reflexão prévia, num misto de excesso de informação e de desinformação.

Num ano particularmente complexo em que o terrorismo e a crise dos refugiados foram, sem dúvida, os acontecimentos que mais marcaram a Europa, foi também através da Internet que mais notícias bebemos, sendo constantemente intoxicados por imagens e comentários de violência atroz e observando, estupefactos, um ódio em crescendo, veiculado, não só por terroristas especialistas na venda de propaganda, mas por aqueles que até nos são próximos, nem que seja pelo facto de pertencerem à "nossa rede".

Razão pela qual o artigo que se segue mistura as promessas falhadas da Internet, a ausência de respostas concertadas por parte da União Europeia no que à crise dos refugiados diz respeito, a luta contínua pela defesa dos direitos humanos, a terrível escolha entre a liberdade de expressão e a necessidade de censura em prol da segurança dos cidadãos e, por último, a percepção de que os valores universais da tolerância e da diversidade parecem estar cada vez mais longínquos.


"Vejo a Internet como a melhor das nossas esperanças… para que o mundo comece, finalmente, a transformar-se numa comunidade global e que todos se possam entender entre si"

Harley Hahn, escritor, filósofo, humorista e especialista em tecnologia

É quase uma (ou várias) pergunta de um milhão de dólares: a Internet contribui mais para disseminar o bem ou o mal? Foram alcançadas todas as promessas -optimistas – que, em meados da década de 90, previam que a rede das redes contribuiria para criar uma comunidade de cidadãos "do mundo", informados, interactivos e tolerantes? Que seria a Net, através do seu enorme poder de comunicação e de geração de conhecimento, proveniente de inúmeras pessoas, oriundas de todos os países e culturas, que ofereceria o caminho para a paz? Ou ainda que um dos seus mais positivos impactos seria o declínio do "fundamentalismo", dado que muitas crenças extremistas e irracionais seriam aberta e facilmente desacreditadas à medida que a capacidade dos internautas para pesquisar e encontrar a informação "verdadeira" e avaliar estas falsas verdades fosse melhorada? Ou que a Internet seria a ferramenta por excelência para fomentar e preservar o respeito pelos direitos humanos e promover os processos democráticos, imprescindível para atingirmos uma progressão pacífica no sentido de um nível de civilização mais elevado?

Mais ou menos 20 anos passados sobre este "wishful thinking" ninguém pode negar que a internet mudou, para melhor, inúmeros aspectos das nossas vidas, e que se torna crescentemente difícil imaginar a nossa existência sem ela. Mas também todos sabemos que, enquanto espelho de uma sociedade crescentemente intolerante, violenta, disposta a promover pequenos e grandes ódios, a Internet não escapa a esta tendência e que é o veículo perfeito para disseminar o pior que existe nos humanos que a utilizam.

 

Todavia e se pensarmos que, na sua "infância" o optimismo era reinante, que principais fenómenos podem ser enumerados para que as grandes expectativas, nomeadamente face a um contágio de tolerância entre cidadãos que passariam a viver na aldeia global, tenham saído gorados?

Em 2012, James Curran, o co-autor de um interessante livro intitulado "Misunderstanding the Internet" apontava para um conjunto de razões que podem ajudar a explicar este fracasso: a (ainda) desigualdade no acesso à web; o facto de a língua universal "falada" ser o inglês, o qual e de acordo com a Internet World Stats, é apenas compreendido por 26% dos utilizadores, em comparação, por exemplo, com apenas 4,8% que falam árabe, o que determina o nível de alcance de uma mensagem em termos globais; o facto de o mundo estar/ser profundamente dividido em conflitos de interesse e de valores – o que tem uma expressão crescente em websites e, nomeadamente, através dos media sociais, no que respeita ao fomento do ódio e não da tolerância e, por último, a persistência de regimes autoritários em que o discurso global é distorcido pela censura e intimidação levada a cabo pelos seus governantes.

Tudo isto adicionado ao facto de serem muitas as pessoas que passam mais tempo das suas vidas online do que offline, é possível afirmar que, neste ano complexo a terminar, é a Internet que influencia, negativamente, a sociedade, ou que é esta última que determina o estado de intolerância e violência crescente que temos vindo a assistir?

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