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Europa sentada num barril de pólvora

Ainda não recuperado dos monstruosos ataques que colocaram Paris no centro do mundo, o Velho Continente terá de dar uso a toda a sua sabedoria para assegurar que a tríade de valores que sustenta a democracia permaneça intacta. Todavia, quando se misturam fundamentalismos, islamofobias e políticas de imigração, garantir a liberdade e a igualdade e não esquecer a fraternidade poderá ser a mais forte ameaça a enfrentar no período “pós-Charlie”

Helena Oliveira - Portal VER helena.oliveira@ver.pt 16 de Janeiro de 2015 às 14:01
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Um dia depois dos terríveis ataques terroristas que colocaram Paris no centro do mundo, a mais conhecida organização sem fins lucrativos germânica, a Bertelsmann Stiftung, publicou um estudo aprofundado sobre a comunidade muçulmana residente na Alemanha. Se a data de publicação estava já anteriormente designada não se sabe, mas a verdade é que alguns dos dados divulgados dão que pensar, especialmente agora em que o mundo entra em fase de rescaldo face aos acontecimentos, (quase) unanimemente repudiados e condenados, que vitimaram 20 pessoas (três delas, os próprios terroristas) na passada semana.

 

Num breve resumo do estudo em causa, conclui-se que as atitudes e os estilos de vida dos muçulmanos que vivem na Alemanha (cuja comunidade é, a seguir à França, a segunda maior da Europa) reflectem, significativamente, os valores sociais prevalecentes na terra liderada por Merkel, um facto, no entanto, muito pouco reconhecido pela população em geral. O estudo demonstra, assim, que a maioria dos alemães está, de forma crescente, a desenvolver um sentimento de aversão no que respeita ao Islão, o que resulta em maior exclusão e num clima de adversidade para os muçulmanos que ali construíram as suas vidas.

 

Ainda de acordo com o mesmo estudo, a maioria dos quatro milhões de muçulmanos que vive na Alemanha "faz parte do tecido social do país", sendo que as suas atitudes reflectem os valores essenciais da República Federal, tais como a crença na democracia e na diversidade. A título de exemplo, 90% dos respondentes muçulmanos – que afirmaram ser extremamente religiosos -, apoiam a democracia como forma de governo; nove em cada 10 têm contacto com não-muçulmanos no seu tempo livre e um em cada dois refere ter o mesmo contacto tanto com não-muçulmanos como com muçulmanos.

 

Todavia, o facto de estes entrevistados terem demonstrado uma forte ligação ao país que os acolhe e aos seus valores, em nada ajuda a ultrapassar as atitudes negativas que os alemães "nativos" demonstram face a esta comunidade, antes pelo contrário. Numa sondagem de opinião recente realizada também para este mesmo estudo, 57% dos alemães (não-muçulmanos) encaram o Islão como uma ameaça, contra 53% dos entrevistados em 2012, e 61% não acreditam que o Islão seja compatível com a vida no Ocidente, face a 52% em 2012. Como afirma Yasemin El-Menouar, especialista em temáticas do Islão na própria Bertelsmann, "se por um lado, os muçulmanos consideram a Alemanha como a sua casa, por outro, confrontam-se a si mesmos com uma imagem negativa que prevalece devido a uma minoria de radicais islâmicos".

 

Uma semana passada sobre o mais vil ataque a um dos pilares por excelência da democracia – a liberdade de expressão – o qual transformou este acto de terrorismo bárbaro em algo completamente diferente dos demais que até agora afectaram o Ocidente – muita tinta já correu (livremente) sobre as causas e as consequências deste radicalismo crescente e sem quaisquer limites que grupos islâmicos extremistas perpetram de forma cada vez mais sanguinária. Todavia, e se lições existem que se possam retirar do mediatismo e das ondas de choque que os ataques "Charlie Hebdo" provocaram, uma delas aponta para o cuidado extremo que a Europa, e os seus líderes, terão de ter para separar e isolar a minoria islâmica extremista da maioria muçulmana moderada.

 

Uma forma para tal acontecer, como defende a revista The Atlantic, é assegurar que os muçulmanos percebam que o Ocidente não está à procura de uma luta com toda a comunidade islâmica. "A Europa tem de viver de acordo com os ideais representados pelos seus parlamentos supranacionais ao defender os seus cidadãos, e os seus princípios, do terror islâmico, com toda a força, sempre que necessário, mas terá também de proteger os muçulmanos comuns de formas de vingança, as quais representariam, elas mesmas, uma ameaça aos mesmos ideais europeus". Ou, por outras palavras, a Europa terá de conviver com a noção clara de que dois sentimentos aparentemente contraditórios podem viver lado a lado: a convicção que os muçulmanos podem ser membros "integrais" das democracias europeias em conjunto com a determinação inabalável de defender essas democracias contra o fundamentalismo islâmico.

 

E está será, porventura, a maior dificuldade que o Velho Continente enfrentará no período "pós-Charlie".

 

Fundamentalismo, islamofobia e políticas de imigração

 

Não só em França, mas num conjunto crescente de países europeus, o sentimento de medo e de aversão face às comunidades muçulmanas e a outras minorias tem estado no centro do debate, em especial ao longo do último ano, tal como demonstraram os resultados eleitorais da Europa a 25 de Maio de 2014. A queda dos partidos tradicionalmente fortes na Europa – também denominados como mainstream – gerou consternação, principalmente em países como a França, considerada como um dos motores principais, em conjunto com a Alemanha, do chamado projecto europeu, o qual parece ter ficado seriamente ameaçado depois da vitória de Marine Le Pen e da sua Frente Nacional, em conjunto com os bons resultados obtidos por partidos "congéneres" um pouco por toda a União. Aliás, a líder da Frente Nacional, o partido de extrema-direita, anti-imigração no geral e anti-Islão no particular, não perdeu tempo para usar a tragédia em seu proveito e para tentar dividir os franceses, apelando ao regresso da pena de morte (abolida em 1981 em França) e pedindo a suspensão do Espaço Schengen para que os franceses "recuperem o controlo das suas fronteiras".

 

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