Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Notícia

O perigo da esperança esvaziada

Sente raiva, ansiedade e incerteza relativamente ao futuro? Óptimo. Isso é sinal de que está a aceitar a situação de crise – sim, na verdade, também não tem outro remédio – e não a enfiar a cabeça na areia.

Helena Oliveira - Portal VER helena.oliveira@ver.pt 28 de Outubro de 2010 às 18:30
  • Partilhar artigo
  • ...
Uma boa notícia é que este sentimento é partilhado por muitos outros iguais a si; a outra é que existem formas que ajudam a lidar com estas emoções. De acordo com especialistas da psicologia e da economia comportamental, só não vale desistir.

Esta talvez seja uma altura da história de Portugal em que uma grande fatia da sua população poderá rever-se na frase de que "estamos todos no mesmo barco". Ou assim seria se todos fossemos afectados da mesma forma pelo mais "tenebroso" Orçamento de Estado dos últimos 25 anos, como muitos assim o encaram.

Outros chamam-lhe coisas piores, mas a verdade é que não há memória recente de um Orçamento ser comentado em cafés, restaurantes, estações de Metro, ou seja, na arena pública – ou pelo "povo" -, e não somente nos espaços reservados a uma certa "elite" que, geralmente, não inclui mais do que políticos, economistas, empresários e os jornalistas que têm de fazer o seu trabalho e informarem os cidadãos das decisões tomadas no que respeita às finanças do país.

Se, por um lado, o primeiro-ministro português conseguiu ser fiel a si mesmo, cumprindo a promessa de que iria pedir sacrifícios a todos os portugueses – todas as famílias, ricas ou pobres, irão viver pior em 2011 – por outro sabemos também que o "pior" tem significados muito diferentes para estas mesmas famílias.

E se já todos aprendemos que é melhor um mau orçamento do que nenhum – porque os mercados internacionais assim o exigem e porque não queremos que o FMI nos invada a casa – ninguém tem noção, na realidade, da forma como este choque irá abalar os portugueses e que outras consequências, para além das “normais”, farão parte do “pacote emocional” que o irá acompanhar.

O VER foi à procura dos possíveis efeitos psicológicos que esta crise poderá ter, não só a nível individual, mas também na denominada "psicologia das massas". E, tal como não é possível fazer prognósticos antes do jogo, a forma como se irá reagir a tempos muito difíceis é, obviamente uma incógnita.

O problema agudiza-se pois não se vislumbram garantias de que, a médio prazo, existam motivos para voltar a respirar. E esse será, talvez, o mais complexo factor com o qual teremos de lidar.
Não se pretende, com este artigo, antecipar possíveis depressões colectivas ou divisar respostas violentas.

Continuam, e ainda bem, a existir aqueles que pegam nas crises e as transformam em oportunidades. Portugal tem, na sua história de quase 900 anos, exemplos fartos dessa proeza. Não é a primeira vez (e porventura não será a última) que temos de superar crises que têm origem na irresponsabilidade de quem nos governa. Nunca fechámos as portas e não será desta que o faremos. Mas existe algo de diferente no ar: uma sociedade que mistura a apatia com o desespero e este cocktail poderá ter efeitos secundários não previsíveis. Alguns estudos na área da psicologia e da economia comportamental poderão ajudar a prevenir, antes que seja tarde demais para remediar.

Lidar com o desânimo

É muito fácil desapontar o ser humano. São várias as pesquisas que sugerem que mesmo quando as pessoas sabem que só existem más escolhas, continuam a culpar o decisor pelos maus resultados. Mas enquanto o desapontamento, a mágoa e até a raiva são, geralmente, descritos de forma similar, os psicólogos encaram-nos como emoções distintas e "impelidas" por diferentes tipos de acontecimentos, motivando o ser humano a agir de forma distinta.

O problema é que enquanto existem movimentos terapêuticos que ajudam as pessoas a lidar com a raiva e uma panóplia de produtos de consumo que nos escudam de sentimentos de mágoa, não existem muitos recursos disponíveis para aqueles que gostariam de “curar” o seu desapontamento. Por outro lado, se emoções negativas como a raiva podem dar energia e incentivar as pessoas a agir, o desapontamento tem o efeito oposto.

E, não restam dúvidas, os portugueses sentem-se desapontados, traídos e sem esperança.
Nas nossas vidas pessoais, podemos tentar manter as nossas expectativas (ou poderíamos) de uma forma realista ou agir no sentido de as alcançar. Mas, para os cidadãos que se encontram no meio deste tsunami financeiro (passe o parafraseamento), o resultado em termos das suas vidas pessoais está absolutamente fora do seu controlo.

Esta incapacidade de lutar contra forças que se sobrepõem à nossa vontade de mudar ou melhorar o estado em que nos encontramos imprime sentimentos próximos do desespero, com os quais é muito difícil de lidar.
De acordo com Art Markman, psicólogo na Universidade do Texas, "o desapontamento, porque é uma esperança esvaziada, é um estado que compreende níveis muito reduzidos de energia". Assim, se o discurso dos decisores se basear somente em ameaças de que é necessário um controlo absolutamente austero do país, como aquelas de que temos sido alvo nas últimas semanas (por vezes, como se a culpa fosse exactamente do eleitorado), não existe nada que motive a inspiração, não há vislumbre algum de que o futuro próximo possa ser mais fácil, o que poderá levar a sentimentos mais graves de verdadeira depressão. Sim, há que ser realista, mas não excessivamente cruel.

Saber avaliar a situação

Existe um ramo específico da psicologia devotado ao estudo de como as pessoas tomam decisões quando imersas em situações de crise. Referida como a "Teoria da Decisão na Crise", uma das autoridades mundiais nesta área, Kate Sweeny, uma psicóloga da Universidade da Florida, afirma que quando entramos numa situação de crise o nosso comportamento passa por três fases e, quanto melhor estas são analisadas, melhor equipados ficamos para sobreviver a esses períodos.

Assim, o primeiro passo é avaliar o nível de gravidade da crise.
Esta fase é vital porque determina quanto dos nossos recursos emocionais e intelectuais teremos de aplicar na abordagem da crise. Se avaliamos um acontecimento negativo como algo trivial – sim, mais uma crise, qual a novidade? – podemos escolher ignorá-lo mas, e de forma fascinante no lado oposto da escala – se o mesmo for mesmo grave – se for demasiado terrível, nessas condições é uma característica humana comum devotar muito poucos – ou mesmo nenhuns – recursos para o abordar.

No seu mais famoso paper sobre esta temática, Kate Sweeney declara que, na maioria das vezes, as crises mais graves são, paradoxalmente, aquelas que atraem menos recursos por parte das pessoas que as têm de enfrentar. E, das duas uma: ou preferem "enterrar a cabeça na areia" ou simplesmente entram em "choque". E para decidirmos se a crise é de pequena ou grande dimensão é necessário que façamos as nossas estimativas sobre o que está em risco e o quão valorizamos esse risco.

O problema é que nas alturas em que as nossas fundações financeiras estão ameaçadas – como é o caso especifico que vivemos – o normal é que a crise seja encarada como catastrófica. E aqueles que sobrevivem melhor e que até conseguem prosperar em período de crise são os que maior controlo têm da sua vida ao conseguirem reavaliar os seus sistemas de valores: por exemplo, quando confrontadas com uma crise financeira tomar uma decisão activa no sentido de valorizar menos o status e o conforto material reduz o impacto da ameaça no que respeita ao equilíbrio emocional.

Um outro método utilizado para avaliarmos quão graves são as situações reside na nossa experiência passada – neste caso em particular, há quem se lembre perfeitamente da crise de 1984, altura em que Portugal estava em situação semelhante à da actualidade e que levou mesmo a uma intervenção do FMI.

O facto de se ter essa recordação, por má que tenha sido a experiência, mas sabendo que foi ultrapassada, ajuda a encarar novos eventos catastróficos. Ora, na ausência de experiências passadas existe uma tendência para se dramatizar e exagerar o grau de dificuldade das coisas, exactamente porque não existe um contexto passado no qual as possamos posicionar.
Uma questão final sobre a forma como interpretamos a crise apontada por Kate Swenney diz respeito à antecipação de quão intensamente bem ou mal nos iremos sentir no futuro se a crise se mantiver em ritmo desenfreado ou se as soluções que divisarmos não funcionarem.

Esta questão é particularmente importante em várias áreas da psicologia que já estabeleceram que, tal como existe uma tendência para sobrestimarmos o quão bem nos iremos sentir depois de comprarmos um Ferrari, o mesmo acontece quando sabemos que o iremos perder. Na verdade, o ser humano tende sempre a acreditar que se irá sentir pior ou melhor numa medida equivalente comparativamente aos sentimentos que realmente acabará por expressar no futuro.
As fases que seguem à da avaliação consistem em pensar nas opções que se tem e, de seguida, na decisão sobre o que fazer com elas. Se é fácil ouvir a frase “não entre em pânico”, lembre-se que é sempre melhor tomar decisões, mesmo que no final não sejam as melhores, do que se manter apático e nada fazer.

Para ler o artigo na integra:

http://www.ver.pt/conteudos/verArtigo.aspx?id=1044&a=Geral

Ver comentários
Saber mais Psicologia da crise
Outras Notícias