Gestão Responsável "Há cada vez mais empresas cidadãs"

"Há cada vez mais empresas cidadãs"

As empresas que lideram no seu mercado "são as que apresentam melhores práticas de governação".
Gabriela Costa - Portal Ver 11 de julho de 2011 às 14:26
Foi com base neste pressuposto que a Bnomics lançou o livro "Responsabilidade Social em Portugal", onde a identidade de organizações como a AXA, a Delta, a Fundação EDP, a Fundação PT e o Montepio serve de mote para analisar os fundamentos teóricos inerentes ao ainda recente, mas já evoluído, conceito de RS. Em entrevista ao VER, Tiago Robalo Gouveia, um dos cinco autores desta obra, defende que numa sociedade onde "há cada vez mais empresas cidadãs", tem de haver correspondência entre identidade e imagem.

De que modo contribui a Responsabilidade Social (RS) para a construção da identidade empresarial?

Estratégica e operacionalmente, a relação é estreita e estabelece-se a partir da imagem de uma empresa junto dos seus públicos, isto é, da sua reputação. E se o tema é controverso no que concerne a relação com a ética, a incorporação da RS no ADN da empresa traz benefícios incontornáveis à actividade da mesma, e é hoje uma realidade em muitas organizações, principalmente nas de maior dimensão e nas que lideram a área de negócio onde actuam.

Partindo de cinco casos de estudo de grandes empresas e fundações, os autores Ana Sá Leal, Joaquim Caetano, Nuno Goulart Brandão, Sofia Estrela Duarte e Tiago Robalo Gouveia lançaram, a 28 de Junho, no auditório do Montepio, em Lisboa, a obra "Responsabilidade Social em Portugal".

Com prefácio do Alto-comissário das Nações Unidas para os refugiados, António Guterres, a edição da Bnomics traça a identidade de organizações como a AXA Portugal, a Delta Cafés, a Fundação EDP, a Fundação PT e o Montepio, todas elas com estratégias de sustentabilidade consolidadas, apresentando-as como "exemplos de excelência no âmbito da Responsabilidade Social Empresarial rumo ao desenvolvimento sustentável". Mas não sem antes analisar os fundamentos teóricos inerentes ao ainda recente, mas já evoluído, conceito de RS: Responsabilidade Social Empresarial, Cidadania Empresarial, Voluntariado Empresarial e Desenvolvimento Sustentável.

É que, se "só há uma maneira de gerar riqueza: criando bem-estar junto da sociedade e especialmente junto dos cidadãos em situações socialmente mais desfavorecidas", como afirma no livro António Guterres, "às empresas cabe a capacidade de saberem integrar na sua corporate governance a sustentabilidade, para que os seus stakeholders tenham mais-valias ao nível social, económico e ambiental, envolvendo-se e envolvendo as partes interessadas na construção de uma sociedade com menos desequilíbrios". É precisamente num "quadro onde a sustentabilidade da nossa vida colectiva esteja presente" que o livro "Responsabilidade Social em Portugal" ganha importância, pois nele se encontra uma "preocupação com as pessoas, com o desenvolvimento sustentável das empresas e com o país" em geral, defendeu, na apresentação da obra, o presidente do Conselho de Administração do Montepio, António Tomás Correia.

E se actualmente "somos um país que está a perder capacidade de gerir o seu futuro", como comentou Sérgio Figueiredo, outro dos oradores presentes no lançamento desta obra, "o tema da RS convoca-nos a todos para uma mudança de comportamento colectiva".

Neste contexto, a RS "não pode ficar no final da cadeia de valor, como dantes”, conclui o presidente da Fundação EDP, para quem o tema encontra “uma resposta centrada nas pessoas, que são hoje a inovação".

Também Óscar Vieira, administrador delegado da Fundação PT (outro dos convidados presentes no Auditório do Montepio, ao lado dos representantes do Montepio, da Fundação EDP e da AXA), considerou que "a transversalidade da RS em toda a organização é um factor crítico" de sucesso. E porque, para o nosso próprio sucesso, "devemos dar o exemplo face ao que defendemos", como sublinhou Nuno Goulart Brandão, os direitos de autor desta edição revertem para uma instituição do Terceiro Sector, a AFID - Associação Nacional de Famílias para a Integração da Pessoa Deficiente.

Como surgiu a oportunidade de desenvolver esta obra que liga a Responsabilidade Social ao conceito de identidade empresarial, reunindo cinco autores com competências académicas e profissionais nesta área transversal?

O tema da Responsabilidade Social está na ordem do dia, quer das empresas, quer dos cidadãos, e da sociedade em geral. Vivemos uma época de mudança de valores e comportamentos aos mais diversos níveis: económico, social, político, ambiental, entre outros. Os últimos dez anos foram revolucionários na governance empresarial, bem como na forma como as empresas encaram os seus stakeholders, e como se relacionam e comunicam com os mesmos. A Responsabilidade Social não deve ser vista como uma moda, mas sim como fazendo parte da estratégia de uma empresa, sendo que para isso deve ser integrada nos valores e na cultura da mesma.

A identidade de uma instituição é construída pela relação com as suas partes interessadas, pela forma como vê e é vista pelas mesmas. A Responsabilidade Social contribui fortemente para a construção da identidade empresarial, já que não faz sentido possuir intrinsecamente determinados valores e não os aplicar em todas as frentes da empresa, nomeadamente nas suas estratégias e práticas de Responsabilidade Social. Acima de tudo, tem de haver correspondência entre o que a empresa é realmente - ou seja, a sua identidade - e a imagem que os públicos têm, caso contrário é posta em causa a imagem e reputação da empresa. A transparência e a coerência são aspectos que devem estar presentes para o bem da sobrevivência das empresas.

Os consumidores valorizam cada vez mais as boas práticas empresariais, integrando esse aspecto nas suas escolhas.
Qual é a oportunidade deste livro no actual contexto socioeconómico e numa altura em que não se publicava nenhum livro especificamente dedicado ao tema, há já algum tempo?

Os acontecimentos globais e o contexto socioeconómico são uma oportunidade para que as empresas melhorem o seu desempenho e fortaleçam as relações com as partes interessadas, em que a ética e a cidadania devem estar presentes.

Enquanto autores e profissionais atentos ao "pulsar empresarial" e aos acontecimentos globais consideramos que a publicação de um livro na área da Responsabilidade Social com uma abordagem teórica e prática é fundamental. A componente teórica pretende dar a conhecer alguns aspectos relevantes do tema, fazendo referência igualmente à nossa abordagem sobre a Responsabilidade Social, que é comprovada depois através dos casos de estudo presentes.

Cinco áreas de mercado distintas – Seguros, Café, Energia, Telecomunicações e Banca, representadas respectivamente pela AXA Portugal, Delta Cafés, Fundação EDP, Fundação PT e Montepio, pretendem demonstrar que em diferentes áreas de actividade está presente a Responsabilidade Social nas mais diversas formas, não descurando a Sustentabilidade.

Com que objectivos optaram por dar destaque a casos de excelência de três empresas de dimensão relevante, todas elas com estratégias de sustentabilidade bem implementadas, e de duas das principais fundações com vocação social do país?

Pensamos que a melhor forma de ilustrar o tema é com a apresentação de casos de estudo, concretamente com instituições que são uma referência em qualquer parte do mundo. Depois de termos feito um estudo de mercado em que averiguámos o trabalho desenvolvido por diversas empresas e instituições nas mais diversas áreas de actuação, estas foram as escolhidas, por considerarmos que são das melhores na sua área.

A presença de três grandes empresas de dimensão relevantes e duas das principais fundações do nosso país prende-se com o facto de querermos demonstrar que em Portugal existem boas práticas de Responsabilidade Social, e que as estratégias de Sustentabilidade estão igualmente presentes. Temos muitos motivos para nos orgulharmos do nosso país. As instituições apresentadas neste livro são reconhecidas pelo seu desempenho a nível global, nacional e local, tendo já obtido prémios internacionais e outro tipo de classificações meritórias. No momento em que o tema da Portugalidade está na ordem do dia, e em que algumas marcas estão a associar-se às raízes do nosso país, pensamos que estes exemplos são bem-vindos.

Para continuar a ler a entrevista: http://www.ver.pt/conteudos/verArtigo.aspx?id=1243&a=Geral



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