Jerónimo Martins renova mínimos. Analistas explicam o tombo

As acções da retalhista têm reforçado as quedas e os mínimos de mais de dois anos. O abrandamento da economia na Europa, a concorrência acentuada pela tecnologia e outros factores afectam margens e receitas, dizem os especialistas. E apontam: não é caso único no sector.
A ausência de ganhos extraordinários provocou uma queda de 35% nos lucros da Jerónimo Martins, mas a cotada decidiu aumentar a remuneração aos accionistas para 386 milhões de euros, entregando-lhes todos os lucros. O dividendo sobe de 0,605 euros para 0,615 euros por acção, o que representa uma rendibilidade de 4,1%. O “payout” sobe de 64,2% para 100%.
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Ana Batalha Oliveira 03 de julho de 2018 às 18:38

A Jerónimo Martins já viu melhores dias em bolsa. "A tendência é de queda desde a apresentação de resultados de 2017", nota Pedro Lino, administrador da Dif Broker.
A dar o empurrão estão factores que vão desde os resultados do próximo semestre, que se aproximam e podem sofrer com a actividade na Polónia, até à conjuntura económica europeia e o preço do petróleo, notam os analistas consultados pelo Negócios. 
Desde o pico de Fevereiro até ao fecho da última sessão, o tombo supera os 32%, afastando-se dos 17,705 euros para passar a negociar nos actuais 11,96 euros. Nas últimas semanas, a retalhista tem vindo a reafirmar os mínimos de Fevereiro de 2016, com sucessivas quebras. 


As mais recentes recomendações fazem eco das descidas. No dia 2 de Julho, o Jefferies reviu em baixa o preço-alvo desta cotada de 15 euros para os 13,5, um corte de 10%. No mesmo dia, o Haitong baixou a avaliação em um euro, ou 5,88%, dos 17 euros para os 16 - ainda assim, ambas acima do preço de negociação. 
Para Pedro Lino, a postura mais conservadora das casas de investimento reflecte o cepticismo dos analistas na capacidade da retalhista manter a evolução positiva registada até ao momento e classifica estas desvalorizações como "bastante substanciais".
"Há a expectativa que os resultados não consigam sustentar a valorização elevada que a Jerónimo Martins nos habituou", explica o mesmo especialista. João Queiroz, do Banco Carregosa, reforça: "existe a percepção de que os próximos resultados não comportarão surpresas positivas". Por isto mesmo, os números reportados pela cotada no próximo dia 25 de Julho, relativos ao segundo trimestre, serão decisivos no sentimento relativamente ao título.
Os analistas consultados pelo Negócios concordam que, aquela que tem sido a escada para a confiança dos investidores - as vendas na Polónia - pode agora conduzi-los no sentido contrário e levar à contenção na troca de títulos. Para Pedro Lino, a desvalorização da moeda polaca é um motivo de preocupação que se pode reflectir no próximo balanço, uma vez que "a instabilidade da moeda pode transferir-se para a economia". O zloty já desvalorizou 6% em relação ao euro desde o início do ano. 
A pressionar o desempenho da cotada estará também a crescente concorrência, decorrente da digitalização do sector. Para enfrentar os novos players, a retalhista tem de apostar em promoções, na localização e outros factores de atracção para os clientes, o que pode reduzir as margens, refere ainda João Queiroz. Também os aumentos no preço do petróleo podem pesar nas margens pelo lado dos custos, acrescenta Pedro Lino.
Para além das margens, "os investimentos na área da tecnologia podem ainda afectar múltiplos como o resultado por acção", observa o analista do BCP, apesar da Jerónimo Martins negociar, historicamente, com múltiplos superiores aos do restante mercado. O destaque relativamente às pares internacionais deve-se, na opinião de Queiroz, à "gestão eficaz e posicionamento" da retalhista.
Europa não ajuda. E não é só a Jerónimo Martins a sofrer
Os receios relativamente ao desempenho da Jerónimo Martins não se confinam às fronteiras da Polónia. O abrandamento que se tem vindo a verificar na economia europeia influencia o sector do retalho em particular, uma vez que este está especialmente ligado ao consumo, nota finalmente Pedro Lino.
A somar à incerteza política, obtém-se uma conjuntura pouco favorável. "Portugal depende muito da economia espanhola", relembra o analista, onde "a situação da Catalunha e alterações no Governo" têm estado no centro das atenções. Também Itália e Alemanha têm mostrado instabilidade no campo político. E, do lado dos Estados Unidos, adensa-se a guerra comercial. 
Desta forma, as restantes cotadas do sector - tanto na bolsa nacional como nas restantes praças europeias - têm visto a mesma tendência de queda. Por cá, a Sonae já desvalorizou 23,39% para os 99,6 cêntimos desde o pico de 1,30 atingido no primeiro mês do ano. Em Espanha, o Grupo Dia, acumulou uma descida de 46,05% entre 22 de Janeiro e esta terça-feira. Em França, o Carrefour também serve de exemplo com uma quebra de 30,04% desde o máximo de 19 de Janeiro até ao momento.

Nota: A notícia não dispensa a consulta da nota de "research" emitida pela casa de investimento, que poderá ser pedida junto da mesma. O Negócios alerta para a possibilidade de existirem conflitos de interesse nalguns bancos de investimento em relação à cotada analisada, como participações no seu capital. Para tomar decisões de investimento deverá consultar a nota de "research" na íntegra e informar-se junto do seu intermediário financeiro. 

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