Trading Cinco factores que explicam o "sell-off" dos mercados

Cinco factores que explicam o "sell-off" dos mercados

A maior queda em oito meses de Wall Street deu o mote para as perdas desta quinta-feira na Ásia e na Europa. As quedas são generalizadas, mas o que está, afinal, a justificar o pessimismo dos investidores?
Cinco factores que explicam o "sell-off" dos mercados
Reuters
Raquel Godinho 11 de outubro de 2018 às 15:05

Os investidores europeus amanheceram com os receios de mais uma "quinta-feira negra". As últimas sessões já tinham sido marcadas pelos receios em torno do ritmo de subidas dos juros nos Estados Unidos e da tensão em Itália, mas esta quarta-feira as bolsas americanas sofreram a maior descida desde Fevereiro e arrastaram as praças asiáticas que cederam mais de 3%. No Velho Continente, a tendência prolonga-se, com os índices a desceram cerca de 2%. E há vários factores a contribuírem para estas perdas.

"O acentuado ‘sell-off’ dos Estados Unidos provavelmente não apanhou ninguém de surpresa. Os investidores têm-se questionado como, perante uma política monetária mais apertada, uma contracção do mercado laboral e a subida dos preços do petróleo, os [índices dos] Estados Unidos continuavam a ser tão resilientes", sublinha Paras Anand, responsável pela gestão de activos da Ásia Pacífico da Fidelity International.

Subida dos juros nos Estados Unidos

A "yield" da dívida dos Estados Unidos a dez anos atingiu os 3,25%, um nível não visto nos últimos sete anos. E, tal como aconteceu na turbulência vivida no passado mês de Fevereiro, esta subida acentuada dos juros das Treasuries pesou no sentimento dos investidores. A perspectiva de que o ritmo de subida da taxa de juro por parte da Reserva Federal acelere tem estado a justificar a queda do preço das obrigações e a consequente subida das "yields".

"Sem referências, o mercado centrou-se em: (a) medo de uma rápida subida das ‘yields’ das obrigações, porque a Fed poderá subir as taxas de forma mais rápida e (b) consequências da guerra comercial, depois de a Fastenal ter alertado sobre uma queda das suas margens, devido ao aumento do preço das matérias-primas", explicam os analistas do Bankinter na nota diária desta quinta-feira.


Perspectivas para a economia

Nas últimas semanas, têm aumentado os receios em torno do rumo da economia mundial. Recentemente, o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, veio alertar que o avanço do proteccionismo é "a principal fonte de incerteza" para a economia da Zona Euro. E, nesta região, sondagens recentes têm revelado uma quebra na confiança de empresas e um abrandamento das exportações. Já esta semana, o Fundo Monetário Internacional (FMI) cortou as suas previsões de crescimento para muitos países para 2018 e 2019. Perspectivas que estão a afectar o sentimento dos mercados.


"Os investidores estão preocupados com a incerteza política e as perspectivas económicas e têm escolhido classes de activos e sectores que parecem oferecer perspectivas mais robustas e que têm demonstrado um desempenho mais previsível", defende Paras Anand, responsável pela gestão de activos da Ásia Pacífico da Fidelity International.


"A pergunta que hoje todos fazemos é simples: o ciclo económico e de mercado inverteu e estamos a entrar em recessão? A resposta também é simples: Não, a não ser que isto se torne numa profecia que se autorealiza", referem os analistas do Bankinter. "As bolsas caem por receios de que a curva das taxas americana inverta e que isso indique, segundo a teoria clássica, recessão. No entanto isto ainda não aconteceu e, embora a curva esteja de facto plana, não significa necessariamente uma inversão de ciclo, mas sim uma normalização muito rápida das taxas de juro nos Estados Unidos, país que cresce a um ritmo muito elevado, o que por sua vez obriga a uma maior rapidez no processo de normalização de taxas. Nada mais", frisam os mesmos especialistas.


Tensão em Itália

O novo orçamento de Itália, que terá que ser entregue até à próxima segunda-feira está a deixar os investidores nervosos. Os mercados temem que o défice orçamental no país supere as metas acordadas com Bruxelas, o que tem agravado os juros da dívida italiana e arrastado as bolsas. Há mesmo preocupações de um corte de "rating". Esta quarta-feira, a Fitch cortou o "rating" do Banca Carige para o nível de "lixo" perante o risco de insolvência.


"Continua o fluxo de notícias negativo sobre a banca italiana que deverá enfrentar um maior custo de financiamento e uma deterioração dos rácios de capital como consequência do aumento do ‘spread’ de risco italiano", sublinham os especialistas do Bankinter. Mas "a situação deverá estabilizar caso Itália ganhe algum discernimento em relação ao orçamento, o petróleo não toque nos 90 dólares e a macroeconomia se mantenha suficientemente sólida. E isso é o mais provável", defendem os mesmos analistas do Bankinter.


Rotação de sectores

O sector tecnológico esteve em destaque pela negativa, esta quarta-feira, liderando as quedas em Wall Street. Isto depois dos fortes ganhos acumulados em 2018. Mas, nas últimas sessões, sublinha o Financial Times, os investidores têm estado a voltar-se para acções de "valor" mais baratas e que vão beneficiar do fortalecimento da economia dos Estados Unidos. O grande problema é que as principais cotadas tecnológicas têm um peso relevante em Wall Street, tendo um importante papel no desempenho negativo.


"Tendo em conta que as perspectivas de médio prazo para a economia global continuam robustas e a retirada gradual dos estímulos é um sinal de regresso a condições mais normais, a resposta certa dos investidores aos sinais de que o mercado norte-americano está finalmente a perder dinâmica é a procura por valor em áreas que já foram agressivamente vendidas", considera Paras Anand, responsável pela gestão de activos da Ásia Pacífico da Fidelity International.


Questões técnicas e estratégias de investimento

Mais um factor que se verificou na correcção registada em Fevereiro. Os algoritmos e os programas automáticos também têm peso na pressão vendedora sobre as acções. Os sistemas de negociação de alta frequência desencadeiam e aceleram as vendas uma vez iniciada a correcção. Quando os títulos descem abaixo de um determinado nível, é activada de forma automática a ordem de venda, caso tenha sido dada essa indicação. 




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