Research Os impactos do pedido de ajuda de Angola em Lisboa, segundo o Haitong

Os impactos do pedido de ajuda de Angola em Lisboa, segundo o Haitong

BCP e BPI, mas também Galp Energia, Mota-Engil, Nos e Ibersol são cotadas que, na perspectiva do banco de investimento, podem ser afectadas pelo recurso de Angola ao Fundo Monetário Internacional.
Os impactos do pedido de ajuda de Angola em Lisboa, segundo o Haitong
Bruno Simão/Negócios
Paulo Moutinho 08 de abril de 2016 às 10:03

Angola avançou com um pedido de resgate. A forte queda das cotações do petróleo afundou as receitas do país, deixando-o numa situação complicada em termos de acesso a financiamento que o levou a recorrer ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Uma movimentação que "deverá ter algum impacto na economia portuguesa", diz o Haitong. Mas também terá nas cotadas da bolsa de Lisboa.


"Esta decisão [de pedir ajuda] deverá ter algum impacto na economia portuguesa já que as exportações para aquele país deverão ser travadas (Angola é o quarto mercado de exportação de Portugal) e algumas das empresas cotadas ou têm as suas operações no país (BPI, BCP, Mota-Engil, Nos e Ibersol) ou têm o Estado angolano directa ou indirectamente na sua estrutura de capital (BCP e Galp)", refere o Haitong.


Neste sentido, "olhámos para o potencial impacto em cada uma destas empresas", diz o banco de investimento que, desde logo, alerta para o impacto negativo nos títulos do sector financeiro, nomeadamente o BCP e o BPI. Mas nem para todas as empresas será mau o recurso de Angola ao FMI. A Mota-Engil, por exemplo, poderá beneficiar a longo prazo. Veja o que diz o Haitong para cada um dos títulos:


Atrasar ou cancelar fusão do BCP em Angola

 

O Haitong considera que o pedido de ajuda "é negativo" para as acções do BCP já que poderá "deteriorar a qualidade dos activos e a recuperação do custo do risco em 2016". Além disso, o banco de investimento lembra que o BCP estava em processo de fusão da sua subsidiária angolana com o Banco Atlântico, o que poderia "libertar algum capital para que o banco pague a ajuda estatal nos meses seguintes".


Neste sentido, o Haitong receia o impacto que tal possa ter no BCP. "Acreditamos que este programa do FMI e a revisão do sistema financeira poderá potencialmente adiar, ou mesmo cancelar, a aprovação regulatória da fusão" em Angola.

cotacao Esta decisão [de pedir ajuda] deverá ter algum impacto na economia portuguesa já que as exportações para aquele país deverão ser travadas (Angola é o quarto mercado de exportação de Portugal) e algumas das empresas cotadas ou têm as suas operações no país (BPI, BCP, Mota-Engil, Nos e Ibersol) ou têm o Estado angolano directa ou indirectamente na sua estrutura de capital (BCP e Galp) Haitong


Mais incerteza nas negociações à volta do BPI


Tal como para o BCP, também para o BPI este pedido de ajuda de Angola "é negativo" já que "poderá aumentar a incerteza em torno das negociações entre Isabel dos Santos e o Caixabank com vista à mudança da estrutura accionista do BPI e da sua subsidiária angolana, o BFA". "Num primeiro olhar, não prevemos que qualquer dos dois accionistas abandone as negociações", refere o banco. O acordo terá de ser alcançado até 10 de Abril.


Apesar desta visão, o Haitong diz que o programa do FMI "poderá afectar a avaliação do BFA e, consequentemente, do BPI". "Em princípio, deverá dar razão ao Caixabank para baixar o preço potencial do BPI ao mesmo tempo que aceitam um valor mais baixo na venda do BFA a Isabel dos Santos".


"Além disso, acreditamos que o programa deverá afectar todas as empresas portuguesas com exportação a Angola e, nesse sentido, a qualidade dos activos do sistema financeiro português", diz o Haitong, notando no entanto que o BPI deverá ser "relativamente menos penalizado devido à grande presença que tem no negócio do retalho e de crédito à habitação".

Isabel dos Santos está a negociar um acordo com o Caixabank
Isabel dos Santos está a negociar um acordo com o Caixabank
Miguel Baltazar/Negócios


Potencial pressão vendedora na Galp Energia


A Galp Energia opera em Angola, mas tem também a Sonangol na sua estrutura accionista de forma indirecta (através da Amorim Energia). A posição ascende a 10,3% do capital, avaliada em 900 milhões de euros, o que "é relevante, mesmo para Angola", diz o Haitong, antecipando que possa haver pressão para a venda desta participação. Isso será "potencialmente negativo" para a Galp Energia.


"Pensamos que poderá haver alguma pressão do FMI para que Angola venda os seus activos ‘não-core’, mas também não será fácil fazê-lo [vender esta participação] já que a Sonangol teria de negociar tanto com Isabel dos Santos como com Américo Amorim", nota o banco de investimento. "Será difícil encontrar alguém que queira esta posição minoritária na Amorim Energia a menos que os seus interesses estejam alinhados com os de Américo Amorim". Perante este cenário, "pensamos que seria difícil, neste momento, que as acções viesse para o mercado, mas não afastamos esse cenário. É algo que deve ser monitorizado", diz o banco de investimento.


Além da questão accionista, o Haitong lembra que a Galp Energia "também tem uma pequena parte do seu negócio de exploração de petróleo em Angola, mas não esperamos grande impacto a este nível já que os preços baixos do petróleo deixam pouca margem [a Angola] para aumentar os impostos sobre a matéria-prima".


Pressão a curto prazo, bom no longo para a Mota-Engil

A Mota-Engil controla 50% da Mota-Engil Angola. E esta unidade representou cerca de 14% das receitas e 19% do EBITDA em 2015, diz o Haitong, lembrando que de Angola há ainda mais de 400 milhões de euros de receitas a receber.


"O programa do FMI deverá levar a uma redução do investimento público, o que poderá reduzir as receitas e o EBITDA da Mota-Engil no país", diz o banco. "De um ponto de vista de curto prazo, isto pode ser visto como negativo já que a actividade deverá registar uma quebra relevante e os dividendos para a ‘casa-mãe’ podem ser cortados", nota.

António Mota tem grande parte do negócio em Angola
António Mota tem grande parte do negócio em Angola


Contudo, há uma perspectiva mais positiva a longo prazo. "Num prazo mais longo, isto poderá ser positivo para a Mota-Engil como uma referência no mercado de construção angolano caso o país seja capaz de se reestruturar".

Ajuda a Angola? Não tem grande impacto na Nos

 

Se para a maioria das cotadas o impacto do pedido de ajuda angolano é negativo, no caso da Nos, não. "A Nos tem 30% da ZAP", negócio que está limitado a 3,6% dos lucros estimados pelo Haitong para 2016, pelo que o risco está mitigado.


Além disso, "outro possível impacto poderá vir do facto de a Nos ser um fornecedor de conteúdos para a ZAP", nota o banco, lembrando que em 2015 já houve alguns atrasos nos pagamentos. Neste sentido, "dificuldades adicionais em Angola podem levar a mais atrasos, o que será negativo", mas "não pensamos que o impacto seja material".

Noutra frente, "um dos principais accionistas da Nos é Isabel dos Santos, com 25% da empresa". Tendo em conta que este é um dos, se não o mais, relevante investimento de Isabel dos Santos fora de Angola, "não esperamos, por agora, qualquer impacto na sua posição na Nos", remata o Haitong.

Travão no negócio da Ibersol

O Haitong considera "negativo, no curto prazo", o programa do FMI de Angola no caso da Ibersol. "Deverá ter impacto no volume de negócios e deverá levar a uma desvalorização ainda maior da divisa do país", o kwanza que cai já pelo oitavo ano consecutivo. A Ibersol tem, actualmente, "seis lojas KFC em Angola de um total de 371 e estimamos que estas deverão pesar 10% das vendas e estão entre as mais rentáveis".




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