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Taxas Libor são definidas por "um cartel em Londres"

Foram divulgadas as conversas entre os operadores de mercado e "traders" de pediam a manipulação das taxas Libor, que servem de referência para empréstimos nos EUA e Reino Unido. Estas determinam juros sobre biliões de dólares ou libras esterlinas.

Hugo Paula hugopaula@negocios.pt 26 de Setembro de 2012 às 13:52
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O "trader" do Royal Bank Scotland (RBS), Tan Chi Min, está a processar o banco por considerar que este não pode alegar justa causa para o seu despedimento. Sem desmentir o seu papel no escândalo de manipulação das taxas de referência Libor, alega que a prática foi tolerada pelas chefias e que o banco o está a utilizar como bode expiatório.

Uma acção legal que não seria digna de registo não fosse a publicação das conversas que o "trader" que operava a partir de Singapura manteve com colegas quer do RBS quer de outros bancos. A Bloomberg cita o processo de Tan, que teve acesso às conversas quando foi alvo de um processo disciplinar pelo banco.

Durante as conversas publicadas (em inglês) pela agência noticiosa é evidente que os participantes do mercado agiam com confiança, expondo em mensagens escritas os pedidos que mais lhes convinham e congratulando-se com os resultados que obtinham.

A certo ponto, Tan discute a influência que o valor das taxas de referência Libor pode ter no resultado final de um "trade" especulativo com derivados de crédito.

“É um cartel que está agora em Londres”, que fixa as taxas interbancárias, disse Tan em conversa por mensagens instantâneas com um grupo de partes interessadas do mercado. “É impressionante como a determinação das Libor pode dar a ganhar tanto dinheiro, ou a perder se [for] no sentido oposto”, afirmou.

“Deve ser mesmo difícil de negociar”, respondeu Mark Wong, que investia em nome do Deutsche Bank. “Especialmente se não pertenceres ao circuito”.

“A nossa cotação a seis meses pressionou toda a taxa [Libor], hahahah”

As taxas Libor são determinadas pela cotação que os bancos remetem para a Associação Bancária Britânica (ABB), que corresponde ao valor a que estão dispostos a financiar-se mutuamente. A ABB exclui as cotações extremas para reduzir a volatilidade das taxas interbancárias e realiza uma média das restantes, fixando-se assim a Libor.

Uma das justificações mais óbvias para que os bancos manipulem as taxas é aumentarem os seus lucros. A outra surgiu em 2008 e diz que a finalidade era mascarar problemas de liquidez. As transcrições destas conversas mostram que ambas se verificam.

“Qual é a vossa cotação para a Libor”, pergunta um responsável do RBS ao colega, Neil Danziger, que responde: “Onde é que a queres? A Libor, isto é”.

“Tenho sentimentos contraditórios mas, sobretudo, gostaria que fosse mais baixa para que o mundo [financeiro] comece a fazer algum sentido”, contrapôs um terceiro participante na conversa.

A conversa ocorreu em 2007, meses antes de a Reserva Federal norte-americana ter concedido um empréstimo de emergência ao Bear Stearns, de forma a impedir o seu colapso eminente em Março de 2008.

Apesar de ser expressa preocupação sobre a visibilidade dos problemas de liquidez do mercado. A preocupação tinha razão de ser - 81% do RBS é hoje controlado pelo Governo britânico, que teve de injectar capitais públicos no banco para que este evitasse a falência em consequência da crise de liquidez que se seguiu ao "subprime". Contudo, os "traders" não pareciam demasiado assombrados pela instabilidade no mercado de capitais.

"A nossa cotação a seis meses pressionou toda a taxa, hahahah", escreveu Neil Danziger, que também foi demitido do RBS. "Boa Libor", fora a nota introdutória da afirmação anterior.

Noutra conversa, a ter lugar no dia 27 de Março de 2008, Tan Chi Min, ligou para o RBS em Londres a dizer que uma cotação baixa do banco poderia custar, à sua equipa, 200 mil libras esterlinas. “Temos de a impulsionar bastante, para ser a mais alta de todas, se possível”.
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