Mercados T-Man: O trader do Citigroup que encontrou ouro nos activos tóxicos

T-Man: O trader do Citigroup que encontrou ouro nos activos tóxicos

Saiu da Ucrânia adolescente com apenas 90 dólares no bolso e viveu como judeu clandestino na antiga União Soviética. Fez sucesso em Wall Street e apostou nos títulos que fizeram cair bancos na crise financeira. Conheça a história de Mark Tsesarsky.
T-Man: O trader do Citigroup que encontrou ouro nos activos tóxicos
Michael Paras/Bloomberg
Bloomberg 18 de junho de 2016 às 15:00

O memorando foi emitido num domingo de Novembro. Estávamos em 2007 e os títulos ligados a hipotecas "subprime" estavam no olho do furacão, provocando fortes desvalorizações nos mercados e quedas de bancos. O CEO do Merrill Lynch, Stan O’Neal, tinha acabado de se demitir e havia rumores de que o CEO do Citigroup, Chuck Prince, também estava de saída.

 

É por isso que, analisando agora, o memorando que o Citigroup enviou aos seus funcionários no dia 4 de Novembro desse ano parece ousado. Enquanto os outros bancos estavam a tentar livrar-se de títulos tóxicos e o Citigroup realizava uma provisão de 11 mil milhões de dólares, Jamie Forese, responsável de trading, e Paco Ybarra, director de renda fixa, tinham outros planos. Anunciaram que iriam transferir a crescente dívida hipotecária do banco para uma nova equipa e traçar um caminho para o futuro.

 

Uma estratégia que acreditavam ser uma "grande oportunidade" e cuja implementação atribuíram a Mark Tsesarsky, um refugiado da Ucrânia com olhos azuis intensos e um comportamento sereno.

 

Na altura, T-Man, como era conhecido no banco, era director de situações especiais para securitizações, pelo que fazia apostas em nome do Citigroup com obrigações que tinham hipotecas e outros activos como colateral. Agora os seus chefes estavam a pedir-lhe que os ajudasse a limitar as perdas nos portefólios construídos por outras pessoas e estavam repletos de CDO ("collateralized debt obligations") - instrumentos com nomes como Bonifacius e Jupiter que ameaçavam destruir o banco – e encontrasse uma maneira de lucrar com a turbulência que se estava a viver nos mercados.

 

Foi exactamente isso que fez a equipa liderada por Tsesarsky nos oito anos seguintes. Reergueram o Citigroup como o maior de Wall Street em CDO. Não emitiram títulos, mas compraram milhares de milhões de dólares de dívida, mantendo-a em carteira enquanto o valor subia e negociando com os clientes.

 

Nos três anos terminados em Dezembro de 2015, os traders de Tsesarsky obtiveram 2 mil milhões de dólares em receitas, mais do que qualquer outra unidade do banco, de acordo com pessoas familiarizadas com as operações da empresa. Um desempenho que só foi possível graças a um resgate sem precedentes do sistema financeiro, incluindo um resgate do Citigroup e uma forte injecção de dinheiro do banco central que elevou os preços dos activos.

 

Tsesarsky, de 54 anos, preferiu não comentar. Não dá nenhuma entrevista desde 1999, ano em que disse ao jornal Jewish Week que ter sofrido discriminação por ser judeu na antiga União Soviética o "tornou mais forte e diferente". Executivos de topo do banco também não quiseram comentar. Mas a história de como Tsesarsky conseguiu este resultado, montada a partir de conversas com mais de uma dezena de actuais e antigos executivos, mostra que, mesmo numa Wall Street mais conservadora e num banco que diz que quer ser mais chato, um trader pode apostar milhões de dólares nos mercados de dívida, muitas vezes obscuros.

 


Num dia soalheiro deste segundo trimestre, alguns trabalhadores do sector da construção conversam em frente aos dois edifícios da baixa de Manhattan que, durante muito tempo, abrigaram o banco de investimento do Citigroup e que, neste ano, se tornaram a sede da empresa. Michael Corbat, que assumiu o cargo de CEO em 2012, tem vindo a reestruturar o Citigroup, vendendo activos indesejados, reduzindo a presença mundial, aumentando o capital e cortando o número de funcionários. O andaime que cobre a parte inferior de um dos edifícios é um sinal das mudanças.

 

Mas no recinto de operações onde Tsesarsky tem uma secretária, no topo do outro edifício, pouca coisa mudou. Um homem magro, que prefere fatos e gravatas de estilistas, Tsesarsky dirige a unidade de negociação de CDO sob um véu de confidencialidade. Os CDO são apenas uma pequena parte de um império que inclui títulos vinculados a crédito automóvel ou de cartões de crédito, hipotecas e dívidas de consumidores. Durante duas décadas, Tsesarsky dividiu a liderança com Jeffrey Perlowitz, que anunciou a reforma em Março.

 

Para se perceber como Tsesarsky transformou activos tóxicos em ouro vale a pena ir aos primórdios do mercado. Na década de 1970, menos de dez anos antes de Tsesarsky entrar na Salomon Brothers, em 1986, um trader deste banco criou o primeiro título hipotecário privado reunindo empréstimos hipotecários e distribuindo os fluxos de dinheiro em diversos títulos. A inovação repartiu os riscos por milhares de empréstimos, facilitando a sua negociação e atraindo investidores que não queriam comprar hipotecas individuais. Uma inovação que catapultou a Salomon para o topo de Wall Street.

 

No início deste século, o sucesso da ideia levou executivos do sector bancário a um instrumento pouco usado e com um nome esotérico, a obrigação de dívida com garantia. Com um funcionamento parecido com o do título hipotecário, uma CDO reunia títulos existentes numa nova dívida. Era a segunda geração de um passe de mágica que possibilitou que até mesmo hipotecas subprime fossem transformadas em títulos com rating AAA. O mercado disparou e cresceu de 68 mil milhões de dólares em 2000 para 521 mil milhões em 2006, de acordo com dados da Associação dos Mercados Financeiros e de Valores Mobiliários. O Citigroup, que tinha absorvido a Salomon em 1998, tornou-se o maior emissor de CDO.

 

Quando os preços das casas dispararam em 2006, os investidores estavam muito distantes dos bancos que concediam empréstimos para julgar os riscos dos títulos. E tiveram dificuldades em reduzir o peso destes títulos nos seus balanços. Os bancos mais fortes neste mercado - entre eles o Citigroup, Merrill Lynch e UBS  - sofreram prejuízos de muitos milhões de dólares à medida que o valor dos títulos afundava. Na altura do memorando enviado por Forese, em Novembro de 2007, não era claro se iria sobrar algo mais do que escombros para Tsesarsky gerir.

 

Em Dezembro, analistas do Barclays estimavam que os CDO vistos como mais seguros poderiam perder 80% do valor. Muitos consideraram que os CDO tinham fracassado e boa parte de Wall Street deu este mercado como morto.

 

O Citigroup, no entanto, não estava pronto para desistir. Quadros do banco, como Forese, consideraram que a sua experiência nesta actividade era um factor-chave para o crescimento do banco. Tendo também em conta as mais de duas décadas de Tsesarsky nos mercados hipotecários, o Citigroup pensou que poderia ganhar dinheiro e decidiu adoptar uma posição compradora destes títulos.

 

Dez meses depois, o Lehman Brothers declarou falência, mergulhando o mundo numa crise que colocou o sistema financeiro em risco. O Citigroup precisou de um resgate do governo no valor de mais de 500 mil milhões de dólares, incluindo empréstimos de emergência e garantias de activos – pelo menos 14 mil milhões de dólares para as hipotecas de risco da carteira de Tsesarsky – e o Departamento do Tesouro dos EUA ficou com uma posição de 27% do banco.

 

Mesmo assim, a equipa de Tsesarsky tinha mais liberdade que as outras e o gestor conseguiu convencer os directores do banco a dar mais recursos à sua unidade.

Tsesarsky e a sua equipa, no Salomon Brothers, onde trabalhava em 1999.
Tsesarsky e a sua equipa, no Salomon Brothers, onde trabalhava em 1999.
Michael Paras/Bloomberg

O Citigroup estava preparado quando a Reserva Federal leiloou uma carteira de CDO em 2012. A equipa de Tsesarsky sondou os clientes e recolheu os pedidos, fazendo apresentações e mais apresentações sobre o seu profundo conhecimento desses títulos, que considerava estarem baratos.

 

Nos casos em que encontrava uma boa oportunidade, mas não conseguia convencer os investidores a apostarem, o banco usava fundos próprios para comprar a dívida. Dos mais de 45 mil milhões de dólares vendidos pelo banco central, o Citigroup ficou com 6,3 mil milhões de dólares, pagando em média 38% do valor nominal dos títulos.

 

"É impossível de imaginar. Estavam a receber um resgate com uma mão, e com a outra estavam a colocar o dinheiro exactamente nos mesmos activos que conduziram ao resgate", afirmou uma fonte próxima do processo. 

 

Durante os anos seguintes o banco recolheu os frutos e tornou-se a fonte por excelência para os mais de 500 fundos de investimentos, hedge funds e outras instituições que ainda negociavam CDO. E, como havia menos concorrência e o mercado não era líquido, a diferença entre o que o Citigroup pagou pelos títulos e o valor pelos quais os vendeu foi mais elevado do que o habitual.

 

O Citigroup ficou com um elevado "stock" de CDO e obteve lucros quando os títulos aumentaram de valor. Nos primeiros anos depois da crise havia negócios muito bons: grande parte do mercado de CDO era negociada com grandes descontos. À medida que os preços das casas aumentaram, os mutuários refinanciaram os empréstimos ou começaram a fazer pagamentos e os títulos recuperaram.

cotacao É impossível de imaginar. Estavam a receber um resgate com uma mão, e com a outra estavam a colocar o dinheiro exactamente nos mesmos activos que conduziram ao resgate

Embora não seja claro quanto o Citigroup ganhou com o aumento do preço dos títulos que tinha em carteira, uma coisa é certa: em 2015 o banco tinha o controlo absoluto do mercado de CDO. Negociou cerca de 6 mil milhões de dólares em títulos com aproximadamente 150 clientes naquele ano, obtendo uma receita de 700 milhões de dólares, ou 80% do mercado. O valor, que representa mais de 6% do total obtido pelo banco com a negociação de títulos no ano passado, foi suficiente para evitar que a unidade do Citigroup registasse o pior desempenho desde antes da crise financeira. Para Tsesarsky, foi apenas a ultima transacção vencedora. Quando era um adolescente e vivia na Ucrânia,escapou com a mão, a avó e a irmã, com apenas 90 dólares no bolso, de acordo com o perfil efectuado pela Jewish Week, que o entrevistou depois de ter vencido o Young Leadership Award de Wall Street. Judeu, Tsesarsky nasceu na antiga União Soviética, onde arriscou ser preso por ler o romance Exodus, sobre a fundação de Israel. Tornou-se um "sionista na clandestinidade", afirmou um "sionista na clandestinidade".

A educação que teve foi fundamental para a carreira que construiu em Wall Street, onde é conhecido pela capacidade de analisar transacções complexas, diz o antigo colega David Finkelstein. "Chegou aqui sem nada. Tens uma margem de erro muito diminuta quando não tens nada", acrescentou.

Ainda assim a carreira de Tsesarsky também contém alguns erros. Quando fazia equipa com Perlowitz, em 2014, perdeu dinheiro no crédito hipotecário alemão e três anos depois participou no aumento de capital da Ameriquest Mortgage, uma firma de empréstimos subprime que entrou e dificuldades e veio a ser comprada pelo Citigroup.

 

cotacao Chegou aqui sem nada. Tens uma margem de erro muito diminuta quando não tens nada AUTORDavid Finkelstein, antigo colega de Tsesarsky

O sucesso de Tsesarsky com os CDO – uma vitória de 2 mil milhões de dólares que os gestores não quiseram comentar – aponta para o contínuo apetite do Citigroup pelo risco. O banco mais do que duplicou a exposição ao mercado de derivados durante a última década e intensificou a negociação de commodities.

 

Danielle Romero-Apsilos, porta-voz do Citigroup, diz que o banco utiliza "práticas de gestão de risco prudentes" na unidade de CDO. Mas o segredo que envolve a unidade de Tsesarsky e o histórico de produtos estruturados complicados em Wall Street levantam dúvidas sobre o compromisso do CEO de tornar a empresa mais segura e mais chata.

 

"Ninguém tem realmente qualquer ideia dos riscos que esses bancos estão a assumir e, portanto, da ameaça que eles representam para o sistema financeiro", afirma Dennis Kelleher, presidente da Better Markets, uma organização sem fins lucrativos que defende a adopção de normas financeiras mais estritas.

 

Os riscos podem estar a diminuir, pelo menos para a unidade de CDO, porque continuam a existir poucas transacções novas e as antigas estão a ser desmanteladas ou a render lucros. Para Tsesarsky, tal significa que tem muito tempo para meditar sobre os próximos passos durante os mais de seis quilómetros que costuma caminhar entre o trabalho e a sua casa, na zona ocidental do Central Park, onde mora com a esposa, que é rabina, e os seus quatro filhos.

 

Tsesarsky é um homem muito ocupado: é membro do conselho de uma sinagoga do Upper West Side que afirma ser a mais antiga congregação judaica dos EUA e contribui para causas pró-Israel e judaicas. Uma vez, comprou passagens de avião para 250 russos que imigravam para Israel e foi com eles na viagem. "As pessoas em Wall Street tornam-se cínicas e acham que só o dinheiro é importante na vida", disse Tsesarsky ao jornal Jewish Week em 1999. "A indiferença realmente incomoda-me".

 

Mesmo assim, Tsesarsky está sempre à procura de uma transacção lucrativa. "Ele tem essa capacidade de ver o jogo a longo prazo e um tacto para o mercado e para saber qual é a direcção certa", considera David Finkelstein, ex-colega e executivo do fundo de investimento imobiliário Annaly Capital Management. "Quando ele vê uma oportunidade, mergulha de cabeça".

 

 

Reportagem de Dakin Campbell e Donal Griffin, publicada na edição de Julho/Agosto da Bloomberg Markets.




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