Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Notícia

Juros da dívida disparam mais de 100 pontos base e bolsa afunda mais de 5%

A bolsa portuguesa está a negociar em forte queda e os juros da dívida portuguesa disparam mais de 1 ponto percentual, reflexo da crise política instalada em Portugal depois da demissão de dois ministros e a recusa do primeiro-ministro em aceitar a saída de Portas. O PSI-20 já esteve a cair mais de 7%, na maior queda intra-diária do PSI-20 desde Outubro de 2008, quando o Lehman foi à falência. Os juros a 10 anos já estiveram acima dos 8%

Mariline Alves/Cofina Media
  • Assine já 1€/1 mês
  • 128
  • ...

A crise política instalada em Portugal está a ter um forte impacto nos mercados, com a bolsa portuguesa a afundar e os juros da dívida pública em forte alta, com os investidores a incorporarem já que o país não escapa a um segundo resgate.

 

A “yield” das obrigações a 10 anos dispara 117 pontos base, ou 1,17 pontos percentuais, para 7,89%, sendo que a subida é bem superior a 100 pontos base em todas as maturidades. O juro já superou os 8%, atingindo o nível mais elevado desde Novembro de 2012 em 8,106%.

 

O spread face às bunds alemãs também está a disparar mais de 100 pontos base, para 636 pontos base, registando a maior subida diária desde Novembro.

 

Já ontem, logo após a notícia do pedido de demissão “irrevogável” de Paulo Portas, os juros da dívida pública portuguesa dispararam cerca de 30 pontos base, pelo que o impacto da crise política é já superior a 1,5 pontos percentuais nos juros da dívida.

 

Os investidores estão claramente a abandonar os activos portugueses, perante os desenvolvimentos recentes, que colocam o Governo de Passos Coelho numa situação muito difícil, com a maioria dos analistas a anteciparem a queda do Executivo e eleições antecipadas.

 

A fuga dos investidores surge também numa altura em que a imprensa internacional dá conta da “confusão” que se vive em Portugal, avolumada pela recusa de Passos Coelho em se demitir e aceitar a demissão de Paulo Portas, criando mais incerteza quando ao futuro do País.

 

A crise em Portugal está também a afectar os juros de outros países, como é o caso de Espanha, onde a “yield” das obrigações a 10 anos avança 15 pontos base para 4,77%.

 

Bolsa em queda livre com banca a afundar

 

No mercado de acções o cenário é ainda mais negro, com uma avalanche de ordens de venda a levar o PSI-20 a cair mais de 6% nos primeiros minutos de negociação. Duas horas depois da abertura o índice português já recuvaa mais de 7%, seguindo nesta altura (13h00) com uma queda e 5,61%.

 

A queda acima de 7% é maior desvalorização intra-diária desde Outubro de 2008, no dia em que a falência do Lehman Brothers arrasou os mercados mundiais.

 

A publicação de notas de análise dos economistas internacionais, a dar conta da situação de crise em Portugal terá também contribuido para o agravar das quedas no mercado português. O Bank of America, bem como o Citigroup, falam já de uma reestruturação da dívida portuguesa.

 

O índice está a ser fustigado sobretudo pelo sector financeiro, com as cotações dos bancos a sofrerem quedas de dois dígitos. O BCP desce 12,9% para 0,081 euros e o BES recua 10,46% para 0,548 euros. O Banif afunda 13,04% para 0,076 euros, a aliviar de uma queda máxima de mais de 40%.

 

Mas as quedas são transversais e atingem também em força os pesos pesados. A Portugal Telecom cai 4,97% para 2,734 euros, a EDP desce 6,98% para 2,293 euros.

 

A crise em Portugal está também a penalizar todos os mercados europeus, com os índices accionistas a cederem mais de 1%. Madrid é o mais penalizado, com o IBEX35 a ceder perto de 3%.

 

Segundo resgate

Toda a confiança que foi conquistada pelo governo está em risco
 
Christian Schulz, do Berenberg

 

Os analistas acreditam que esta crise política, apesar de Passos Coelho não ter ontem avançado com a demissão, vai atirar Portugal para um segundo resgate, o que justifica o comportamento dos títulos portugueses.

 

A súbita degradação da estabilidade política em Portugal nas últimas 48 horas fez "soar os alarmes" entre os investidores internacionais. A notícia da demissão de Paulo Portas foi, nas palavras de um investidor londrino que participou nas recentes emissões de dívida, "o cenário terrível que temíamos".

 

"O regresso aos mercados torna-se extremamente complicado enquanto se mantiver a incerteza política", diz ao Negócios Ricardo Santos, economista do BNP Paribas, em Londres. Christian Schulz, do Berenberg, concorda: "A sorte de Portugal é que as emissões do primeiro semestre ajudaram a criar uma almofada de tesouraria, que permite dispensar a necessidade de novas operações no curto prazo". Isto porque "os investidores vão agora tornar-se muito mais cautelosos e isso poderá fazer os juros voltarem a disparar para níveis que tornam o acesso muito difícil".

 

Portugal precisa de um acesso ao mercado, no mínimo, parcial para poder candidatar-se a um programa cautelar do Mecanismo Europeu de Estabilidade. Mas o fundo europeu nunca comprará todas as obrigações que Portugal emitir, apenas uma parte. Razão por que, se a situação não estabilizar, analistas do Royal Bank of Scotland consideram que Portugal poderá necessitar de um segundo resgate total. E mais: para que a Europa aceite concedê-lo, poderá ter de haver uma "contribuição doméstica" em que os investidores e bancos nacionais aceitem trocar a dívida por prazos mais longos, como aconteceu na Grécia. Um "perdão suave", explicam.

 

O Bank of America Merrill Lynch diz que a subida das taxas de juro e a incerteza política reduzem as probabilidades de que Portugal reconquiste o acesso aos mercados no próximo ano. Segundo resgate envolverá participação de privados. Em nota distribuída aos clientes, os economistas Laurence Boone, Ruben Segura-Cayuela e Sphia Salim antecipam uma forte correcção negativa dos juros de Portugal, com os investidores a temerem que num segundo resgate seja necessário envolver os credores privados numa reestruturação da dívida.

 

"O cenário terrível que temíamos"

 

Um gestor de um "hedge fund" em Londres diz ao Negócios que a estabilidade política era um dos "três pilares" que mantinha a "história positiva em torno de Portugal". Os outros eram o apoio da troika e os fluxos globais de aversão e apetite pelo risco. Se quanto a este último Portugal pouco pode fazer, como se viu nas últimas semanas com os receios em torno dos estímulos nos EUA, a crise política vem abalar o "pilar" da estabilidade política e arrisca perturbar também o apoio implícito da troika.

 

Analistas como Christian Schulz, do Berenberg, dizem que "toda a confiança que foi conquistada pelo governo está em risco". Conforme a solução encontrada, "é claro que este ou um próximo governo terão de trabalhar muito para recuperar a confiança perdida". No entanto, se se confirmar o cenário de eleições antecipadas, Schulz e Lefteris Farmakis, do Nomura, dizem que "a Europa terá de trabalhar com o governo que existir". Comparando a situação com o desaire eleitoral de Monti e também do impasse eleitoral na Grécia, este último diz que "se o contexto externo ajudar, talvez isto possa não ser um desastre".

 

(notícia actualizada às 13h00 com mais informação)

 

Ver comentários
Saber mais juros da dívida crise política demissão e Portas Yields
Outras Notícias