Obrigações Estes países enfrentaram a bancarrota. Agora, a sua dívida já não rende quase nada

Estes países enfrentaram a bancarrota. Agora, a sua dívida já não rende quase nada

Há menos de uma década, a compensação recebida pelos investidores para deterem obrigações de Espanha e Portugal quase não era suficiente para compensar o medo de que estes países pudessem ser separados da União Europeia. Agora, têm quase de pagar pelo privilégio.
Estes países enfrentaram a bancarrota. Agora, a sua dívida já não rende quase nada
reuters
Bloomberg 19 de agosto de 2019 às 15:11

Um aumento sem precedentes na dívida soberana em todo o mundo levou as yields a 10 anos das nações ibéricas a registarem uma queda para um nível próximo de 0%. Com cerca de 16 biliões de dólares de dívida global a pagar agora juros negativos, os investidores a deitar a mão a yields positivas onde quer que as consigam encontrar – mesmo que isso signifique entrar em alguns dos mercados mais arriscados da Zona Euro.

 

Esta evolução marca uma reviravolta extraordinária para os países que já estiveram à beira da falência, ao mesmo tempo que evidencia o surgimento de uma nova era para os mercados de dívida, onde as yields são perpetuamente baixas e os bancos centrais pouco podem fazer para reavivar a inflação. E surge com os seus próprios perigos – o crescente receio de que se esteja a formar uma bolha nas obrigações.

 

"Receio que todas as curvas estejam a cair para zero, e todas as taxas também", disse James Athey, gestor de investimentos da Aberdeen Standard Investments, que não tem atualmente posições na dívida de Espanha ou Portugal. "Seria um sinal incrivelmente preocupante".

 

As yields tornaram-se negativas nos mercados mais bem classificados da Zona Euro, à medida que se aprofundou o pessimismo sobre as perspetivas de crescimento global. A subida das obrigações também está a ser alimentada pela crescente expectativa de novos estímulos por parte do Banco Central Europeu. O BCE deve apresentar um pacote de estímulos "impactante e significativo" na sua próxima reunião, em setembro, segundo avançou Olli Rehn na quinta-feira.

 

"Num regime de repressão financeira, isto é normal", afirmou Jorge Garayo, estratega do Société Générale, referindo-se às yields ultrabaixas. "A grande questão é como tudo isto se vai desenrolar com o tempo. Yields mais baixas incentivam mais endividamento quando os níveis de dívida já estão elevados".

 

Os juros da dívida a dez anos caíram abaixo de 0,1% em Espanha e Portugal na semana passada - muito longe dos quase 8% e 18%, respetivamente, há sete anos, quando os países enfrentaram uma crise de dívida e tiveram de aceitar pacotes de resgate financeiro da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional. Para ambos os países, o spread face à dívida alemã, um indicador chave do risco, atingiu um mínimo histórico de 60 pontos base no mês passado.

 

Melhoria dos ratings

 

Ainda que os ratings das nações ibéricas ainda estejam bem abaixo dos dos países mais bem classificados, como a Alemanha, já recuperaram dos mínimos pós-crise. Espanha está atualmente classificada como Baa1, ou três níveis acima de lixo, pela Moody’s, depois de ter sido reduzida a Baa3 em 2012. Já Portugal está agora em Baa3, o nível mais baixo do patamar de investimento, depois de a dívida do país ter sido classificada como investimento especulativo. Os dois países ainda têm níveis elevados de endividamento, um indicador de risco relativamente alto, com a dívida de Espanha a chegar a 98% do PIB e a de Portugal a 126%.


Recuperação económica

 

As obrigações ibéricas também se fortaleceram com a recuperação económica da região. Apesar dos episódios de incerteza política, como a crise da Catalunha em 2017, os dois países registaram consistentemente algumas das maiores taxas de crescimento da Zona Euro. Portugal e Espanha cresceram 1,8% e 2,3%, respetivamente, nos 12 meses terminados em junho, o que compara com uma estagnação na Alemanha.

 

O suporte adicional para os títulos espanhóis e portugueses veio do programa de compra de dívida de 2,6 biliões de euros do Banco Central Europeu, que garantiu um comprador mesmo em tempos de turbulência. Portugal permaneceu no programa depois de a DBRS ter sido a única agência de rating que se absteve de baixar o rating para o nível de lixo, mesmo quando o país teve de depender de um plano de resgate do FMI em 2011 para enfrentar a crise.

 

"Os países ibéricos fizeram grandes progressos económicos ano após ano", disse Ruediger Kerth, gestor de portefólio da Union Investment em Frankfurt. "A perspetiva continua promissora".




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