Mercados Faria de Oliveira: É preciso maximizar o valor de venda do Novo Banco

Faria de Oliveira: É preciso maximizar o valor de venda do Novo Banco

O presidente da APB diz que é fundamental fazer uma "boa venda" do Novo Banco, para diminuir o impacto para o sector bancário. Num momento conturbado para a banca, Faria de Oliveira fala sobre os desafios que o sector enfrenta.
Faria de Oliveira: É preciso maximizar o valor de venda do Novo Banco
Bruno Simão/Negócios
Patrícia Abreu 16 de março de 2016 às 07:00

O processo de venda do Novo Banco merece grande atenção por parte da Associação Portuguesa de Bancos (APB). Para Faria de Oliveira, é fundamental que se promovam condições para maximizar o valor do negócio, de modo a minimizar o impacto para o sector. Numa conversa com o Negócios, o presidente da APB fala de outros desafios que o sector enfrenta, desde a rentabilidade, até às imparidades que ainda estão nos balanços e às mudanças que podem ocorrer no Banco de Portugal.


O ambiente de taxas negativas é um dos grandes desafios que o sector enfrenta para aumentar a rentabilidade, como é que o sector financeiro pode enfrentar estes desafios?


O problema da rentabilidade é, talvez, a primeira das prioridades do sistema bancário neste momento. Vivemos um quadro cheio de dificuldades. Para melhorar a rentabilidade, a hipótese de melhoria dos proveitos depende muito da procura de crédito solvente. Hoje há uma enorme competição entre os bancos para conseguirem obter créditos novos. O preço do crédito para as médias empresas e para as empresas de risco baixo e médio é extremamente favorável. Creio que nunca vivemos uma situação de taxas de juro tão favoráveis, incentivadoras para o investimento. Mas a procura de crédito é insuficiente para as necessidades dos bancos.


Do lado dos custos, a margem financeira está esmagadíssima, devido às taxas de juro extremamente baixas. Temos uma situação em que as comissões estão sob forte pressão, embora em Portugal sejam das comissões mais baixas do sistema europeu. Continua a existir uma insistência muito forte sobre a questão das comissões. E as operações financeiras dependem, naturalmente, das oportunidades de mercado.


Vive-se um quadro onde a actuação sobre os custos acaba por ser muito, muito relevante. Nesta matéria temos também um conjunto de situações não consistentes. Temos novos custos, relacionados com a supervisão e principalmente com a resolução. Temos novos custos no domínio fiscal. Custos relacionados com necessidades de investimento para satisfazer o novo paradigma do sistema bancário. Mas a verdade é que o sistema necessita mesmo de reduzir custos e tem sido feito um trabalho de reestruturação profunda dos bancos nesse sentido.


Que outros problemas ainda há por resolver no sector?


No contexto da actividade bancária actual continua a existir situações não completamente resolvidas. Umas relacionadas com os activos herdados, outras relacionadas com uma questão muito importante neste momento, que é o crédito malparado, ou crédito em incumprimento. O nível de créditos vencidos é elevadíssimo em Portugal e o tratamento dos créditos vencidos merece-nos particular atenção.


Estas são as áreas de actuação possível por parte dos bancos. Necessitamos de tempo para conseguir atingir novamente níveis de rentabilidade razoável, que atraiam os investidores. Enquanto a rentabilidade permanecer baixa é muito difícil que os investidores nacionais e estrangeiros se interessem muito pelo sistema bancário. E a banca está sob forte atenção das autoridades regulatórias e de supervisão. Em qualquer momento podem ser determinadas novas necessidades de aumentar os rácios de capital das instituições. Portanto é necessário criar capital orgânico que resulta da melhoria dos resultados para suprir a actual falta de atracção do investimento para o sector. As taxas de juro muito baixas não facilitam, mas esse é o contexto em que vivemos e temos que contar com ele.

cotacao Precisamos de fortalecer o sistema bancário e atrair investidores para o sistema bancário e isso não é possível sem melhoria da rentabilidade Faria de Oliveira Presidente da APB


Referiu que as comissões estão pressionadas em Portugal. Mas, os bancos têm vindo a aumentar…


As comissões em Portugal são das mais baratas no sistema bancário europeu. Ao contrário de muitas afirmações, o valor líquido das comissões em Portugal não aumentou nos últimos cinco anos. Existe uma pressão que é difícil de entender porque sem dúvida nenhuma em vários outros países são as próprias autoridades que incentivam os bancos, uma vez que a margem financeira está esmagada, a compensarem com um aumento de comissões, existe aqui um clima um bocadinho artificial, no sentido contrário. É preciso tomar a devida consciência da situação real. É fácil demonstrar que as comissões líquidas em Portugal nos últimos cinco anos não aumentaram.


E podem aumentar agora?


Os bancos têm que tomar as medidas necessárias para melhorarem a sua rentabilidade. A melhoria da rentabilidade dos bancos é do interesse nacional. Precisamos de fortalecer o sistema bancário e atrair investidores para o sistema bancário e isso não é possível sem melhoria da rentabilidade. E tem que se actuar onde é possível actuar.


Um dos problemas que referiu no sector tem que ver com activos herdados. Estava a referir-se aos casos BES e Banif?


Todos os bancos têm um conjunto de activos em que muitos casos foram feitas provisões suficientes registadas as imparidades devidas, mas a reparação dos balanços, nalguns casos, não está completamente concluída. É ainda necessário fazer um esforço adicional para a limpeza completa dos balanços das instituições.

Noutros países adoptaram-se veículos específicos que ajudam a resolver o problema dos activos improdutivos, designadamente de longa duração, que aceleraram a que os balanços estejam neste momento completamente sãos, noutros casos ainda há algumas situações em que é necessário prosseguir esse esforço de provisionamento e de registo de imparidades.


E a questão do Novo Banco pode agravar esta situação e causar maior instabilidade no sector?


O Novo Banco está a realizar a segunda fase deste processo, que é acelerar um processo de reestruturação. Depois das últimas medidas tomadas pelo Banco de Portugal em relação ao balanço da instituição com a transferência de alguns passivos, numa segunda fase, para o BES, o Novo Banco tem que centrar-se na reestruturação para criar condições de maior atractividade no processo de venda.

cotacao É necessário estar atento às condições em que se possa lançar o processo de venda, de maneira a atrair o maior número possível de investidores, designadamente institucionais e, se possível, do próprio sistema bancário, para maximizar o valor de venda Faria de Oliveira Presidente da APB


Para nós é extremamente importante que este processo corra muito bem. Os bancos vão ter que suportar o diferencial entre valor injectado no Novo Banco – 4,9 mil milhões de euros – e o valor final da venda. Para nós é determinante que se criem condições para uma boa venda. É necessário estar atento às condições em que se possa lançar o processo de venda, de maneira a atrair o maior número possível de investidores, designadamente institucionais e, se possível, do próprio sistema bancário, para maximizar o valor de venda.

Foi noticiado que o Governo está a preparar mudanças ao nível do supervisor, no Banco de Portugal. Como é que a APB está a acompanhar este processo?


É extremamente importante que no que diz respeito à evolução do sistema bancário nacional haja uma forte ligação entre Governo, regulador, instituições europeias e o próprio sistema bancário. São questões de tal maneira importantes que nós próprios (APB) temos muitos contributos a dar que podem ser muito favoráveis nesse sentido. Neste momento a questão mais relevante que se possa colocar é de natureza do modelo de resolução existente. Deve ou não deve a autoridade de resolução ser entregue ao Banco de Portugal, ou deve ser uma autoridade independente do Banco de Portugal, uma vez que podem existir alguns conflitos entre supervisão prudencial e decisões na área da resolução. É uma matéria que merece bastante reflexão.


Depois temos também que ter muito presente que a supervisão bancária hoje é da responsabilidade do Banco Central Europeu, porque a autoridade de supervisão bancária ao nível do Eurogrupo foi prometida com a criação da União Bancária e foi cometida ao BCE. O Banco de Portugal funciona e trabalha com o BCE, mas de acordo com o modelo, a metodologia e as práticas do BCE. Para os bancos de menor dimensão, em geral, a supervisão é realizada pela autoridade nacional, ainda que sempre sobre a orientação do BCE. E isto, muitas vezes, é um bocadinho esquecido. 




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