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Frutos secos de casca rija vivem dias difíceis

Os frutos secos de casca rija – pinhão, avelã, pistácio, amêndoa, noz, noz-pecã, noz-macadâmia e caju – não têm estado imunes à crise que assolou muitos mercados devido à redução do consumo por via dos confinamentos ditados pela covid-19.

Os preços dos frutos secos de casa rija têm registado uma queda generalizada este ano.
Os preços dos frutos secos de casa rija têm registado uma queda generalizada este ano. Pedro Catarino
Carla Pedro cpedro@negocios.pt 21 de Setembro de 2020 às 10:00
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Os “lockdowns” vividos em todo o mundo penalizaram o consumo de muitos produtos e os frutos secos de casca rija não foram exceção, com grandes clientes – como as companhias aéreas, hotéis e bares – a travarem as suas compras, levando a uma forte queda dos preços na grande maioria dos casos.

Segundo a empresa norte-americana de dados sobre commodities Mintec, os preços de referência da amêndoa foram os mais atingidos, tenho caído cerca de 40% este ano. “Nas categorias do caju e das amêndoas, os preços caíram no mês passado para o nível mais baixo da última década”, diz Aidan Wright, analista de fixação de preços da Mintec, em declarações ao Negócios. Contudo, na sua opinião, “se houver uma segunda vaga de covid-19, embora a indústria receie que a procura possa diminuir de novo, não parece provável que os preços desçam muito abaixo dos mínimos que observámos em inícios deste ano”.

No caso das amêndoas e das nozes, a reduzida procura em resultado do coronavírus ocorreu numa altura em que também nos estamos a deparar com colheitas enormes, o que não está a ajudar, frisa Wright.

Nuno Ferreira, CEO da Euroamendoa e administrador da PABI S.A. – Produtos Alimentares da Beira Interior, refere o mesmo contexto. “Com o aumento de cerca de 20% das colheitas de amêndoa a nível mundial este ano – por conta dos preços altos, muita gente recorreu à plantação –, e com a quebra do consumo devido à covid-19, o preço baixou praticamente dois euros este ano, face a 2019”, aponta.

“O nível de preços está bastante baixo por causa do aumento das plantações em países como os EUA – particularmente na Califórnia, que detém 80% da produção mundial –, Portugal, Espanha e Austrália. E isso cria mossa”, diz o empresário sediado em Pinhel, na Guarda. É que, apesar da pandemia, a variável macro mais importante é sempre a das colheitas, aponta. "E embora as plantações aumentem a capacidade de grandes colheitas, o clima é também sempre um factor decisivo".

Juntando o aumento das colheitas, e as sobras de anos anteriores, à quebra de consumo decorrente das restrições impostas com o surgimento do novo coronavírus, “em pouco tempo tivemos um cocktail explosivo”, considera Nuno Ferreira, lembrando que há meia dúzia de anos a amêndoa em miolo estava cotada a 9 euros/quilo e agora ronda os 4 euros [o preço em miolo é superior ao da amêndoa em casca, pois não há que considerar o rendimento, que pode variar entre 20% e 40%].

Mercado da amêndoa “não está fácil”

Por todas estas razões, sublinha Albino Bento, vice-presidente do Centro Nacional de Competências dos Frutos Secos (CNCFS), “o mercado da amêndoa não está fácil, sobretudo para os produtores com amendoais tradicionais – menos produtivos –, porque os preços dependem do mercado mundial, que agora paga em torno de 3,2 euros por quilo de miolo, quando em finais do ano passado rondava os 4,5 euros”.

Quem compra amêndoa guia-se pelos preços dos mercados internacionais, mas o pagamento final varia também em função do rendimento no descasque e qualidade. “As variedades nacionais e uma ou outra de casca dura, não nacional, têm normalmente um rendimento mais baixo: à volta de 20%. E o quer isto dizer? Que um quilo de amêndoa em casca só rende 200 gramas de miolo”, salienta Albino Bento.

“Para as amêndoas em casca com um rendimento de 30%, em 2019 pagavam em torno de 1,6 euros ao produtor. Quando as empresas começarem a comprar em meados de outubro – que é quando a amêndoa já está seca [quando é colhida da árvore ainda tem humidade e por isso fica em armazém para ir secando] – é que vamos saber quanto vão pagar e se calhar esse valor já vai baixar para um valor a rondar 1 euro por quilo”, lamenta.

Albino Bento é claro: “Se os preços do quilo de amêndoa em casca baixarem para menos de 80 cêntimos, a rentabilidade da cultura no amendoal tradicional (não regado) desaparece. Será quase impossível o setor aguentar.” Nesse caso, “parte da amêndoa deixa de ser apanhada, porque deixa de compensar”. É que, sublinha, o produtor não tem apenas o custo da apanha. Há que contar também com o tratamento fitossanitário, fertilização e podas e manutenção do solo.

Além da queda de grandes clientes, fruto do confinamento decorrente da pandemia, também há que ter em conta os consumidores individuais, que é neste tipo de produtos que cortam primeiro quando há uma crise, salienta o vice-presidente do CNCFS.

“Dentro de um ano, se tudo tiver regressado ao normal, acredito que o consumo possa crescer, mas não acredito que voltemos a ver os preços de antes, porque muitos países aumentaram muito a produção quando os preços estavam muito atrativos”, diz Albino Bento. “Era preciso o mercado crescer muito para se voltar a níveis de há três ou quatro anos.”

As bitolas para os preços

Mas onde vão os produtores e compradores buscar os preços de referência? No caso da amêndoa, “a bitola, para os produtores de todo o mundo, é a Califórnia, por ter 80% da produção. Para outros frutos, o mercado de referência dos preços varia. Na avelã, por exemplo, é a Turquia que é mais forte”, diz Nuno Ferreira.

Ainda sobre a amêndoa, que foi dos frutos secos de casca rija mais castigados nos últimos tempos, Roland Fumasi explica que os preços caíram em três fases ao longo dos últimos 8-9 meses. “Em primeiro lugar, em 2019, a colheita da Califórnia foi superior ao estimado. Depois, a covid-19 atingiu o mundo, o que penalizou a procura e criou problemas logísticos. Por último, já este ano, as estimativas para a colheita na Califórnia foram bastante elevadas, apontando-se para que rondem os três mil milhões de libras-peso”, diz o vice-presidente do RaboResearch Food & Agribusiness. A acontecer, será o terceiro ano agrícola consecutivo de recorde de colheita.

E uma segunda vaga da pandemia irá, provavelmente, levar a uma disrupção no transporte de produto, adverte por seu lado o presidente da American Pistachio Growers, Richard Matoian. “A título de exemplo, em inícios de 2020, o pistácio manteve-se nos contentores, em muitos portos, pelo facto de estes pontos de embarque e desembarque estarem encerrados ou a laborar mais lentamente devido à covid-19.”

Tudo pesado, em que direção irão evoluir os frutos secos de casca rija? A expectativa é de que os preços mais baixos reavivem o consumo mundial. “Temos tido sinais de que os baixos preços estão a atrair os compradores e isso poderá estimular o aumento de algum consumo”, sublinha Aidan Wright. Giles Hacking, operador da CG Hacking em Londres, é da mesma opinião: com a procura por snacks saudáveis a preços mais baixos, “tudo acabará por ser consumido”, comentou ao FT.

Resta saber se os preços caem a ponto de ficarem abaixo do custo de produção. Nesse caso, a situação pode complicar-se bastante para os produtores.

 


Amêndoa, a mais castigada
Os preços da amêndoa estão a querer recuperar lentamente dos baixos valores de agosto e a previsão de Roland Fumasi para o preço médio no ano comercial de 2020/21 (agosto a julho) na Califórnia, para os produtores, é de 1,6 dólares por libra-peso (453 gramas). “Contudo, qualquer coisa que faça prolongar a recessão mundial levar-me-á a rever em baixa as estimativas”, adverte. 

Por cá, as variedades mais recentes apresentam um rendimento de descasque na ordem dos 30%, sobretudo em regadio. A vantagem do regadio no amendoal é enorme: a produção quase triplica, o rendimento de descasque é maior e a produção mais estável, diz Albino Bento, sublinhando que Trás-os-Montes necessita resolver a questão da água urgentemente.

 

 


Pistácio tem-se “aguentado”
O pistácio é outro dos frutos de casca rija que viu os preços caírem, mas em menor grau. “A procura por pistácios tem-se mantido elevada na União Europeia.

Ainda assim, o consumo diminuiu nalguns países, sobretudo devido às mudanças decorrentes da covid-19, como menos ajuntamentos sociais, diferentes hábitos na ingestão de snacks pelo facto de se estar em teletrabalho, diferentes hábitos alimentares em casa e, nalguns casos, à impossibilidade de transportar tão facilmente o produto pelos portos e pela restante cadeia de distribuição”, comenta Richard Matoian.

Apesar destes dissabores, “os preços têm-se mantido estáveis, com a procura mundial a revelar também uma estabilidade ou crescimento, mesmo com a covid-19”.

 

 


Caju, comprado caro e vendido barato
O preço do popular fruto seco em forma de rim perde cerca de 10% no acumulado do ano, segundo a empresa norte-americana de dados sobre commodities Mintec.

No Vietname, que é o maior processador mundial de castanha-de-caju, seguido pela Índia, muitos processadores dizem estar a incorrer em grandes perdas pelo facto de terem comprado a matéria-prima a preços altos e estarem agora a exportar o produto acabado a preços baixos.

Segundo a Associação Vietnamita de Caju (Vinacas), citada pela Tienphong News, a queda dos preços não permite que as empresas equilibrem os custos de produção, pelo que muitas reduziram ou suspenderam as operações de processamento. Também os agricultores estão a sofrer com este cenário.

 

 


Nozes querem capitalizar as suas proteínas
A colheita recorde de nozes nos EUA, que é o maior produtor e exportador mundial deste fruto seco e que este ano deverá ver a safra aumentar em 19%, tem estado a pesar nos preços, que cedem 18% desde janeiro.

“O coronavírus afetou as matérias-primas de forma diferente e, neste caso, os frutos de casca rija, que veem um grande volume ser escoado para a confeitaria e segmento dos serviços alimentares, foram os mais duramente atingidos”, diz Aidan Wright, da Mintec.

Mas esta categoria de frutos está bem posicionada para capitalizar a atual perspetiva da opinião pública relativamente à alimentação saudável, ao fornecer uma boa alternativa proteica para quem procura mudar a sua dieta alimentar, acrescenta.

 

 

Era preciso o mercado crescer muito para o preço da amêndoa voltar a níveis de há 3 ou 4 anos. Albino Bento
Vice-presidente do Centro Nacional de Competências dos Frutos Secos

 

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