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“Subprime” pode ter solução baseada em facturas hospitalares

A solução para a crise no mercado dos empréstimos hipotecários de alto risco, que varreu 66 mil milhões de dólares do capital desta indústria financeira este ano, pode estar num punhado de facturas hospitalares. É o que defende um especialista do sector.

Carla Pedro cpedro@negocios.pt 04 de Dezembro de 2007 às 16:48
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A solução para a crise no mercado dos empréstimos hipotecários de alto risco, que varreu 66 mil milhões de dólares do capital desta indústria financeira este ano, pode estar num punhado de facturas hospitalares. É o que defende um especialista do sector.

Um operador do mercado de futuros, Richard Field, afirma que a sua patente para rastrear facturas médicas pode ser adaptada para os pagamentos de juros sobre hipotecas, ajudando os bancos a avaliar melhor os títulos hipotecários e outra dívida a receber. Da sua sede em Nova Iorque, a Deloitte & Touche diz que está a desenvolver modelos informáticos que farão o mesmo.

Field e a Deloitte fazem parte de uma indústria em rápido crescimento e que inclui nomes como a Moody’s Investors Service, que tentam lançar alguma luz nos mercados mais opacos do mundo. A incapacidade para avaliar adequadamente - com recurso aos seus próprios modelos - os dois biliões de dívida baseada em activos, provocou mais de 66 mil milhões de dólares em perdas para os bancos e corretoras e a demissão dos CEO da Merrill Lynch e do Citigroup.

Para Wall Street, as escolhas dividem-se entre trabalhar com pessoas como Field para se chegar a uma solução ou conseguir uma solução forçada pelos reguladores, afirmou à Bloomberg um ex-"chairman" da Securities and Exchange Commission (SEC), Arthur Levitt. "Para recuperarmos a confiança do investidor, não poderemos ignorar a necessidade de transparência a todos os níveis", disse aquele responsável.

Ao contrário do que sucede com o mercado obrigacionista corporativo, que ganhou transparência ao nível dos preços em 2002, quando a SEC passou a exigir que os operadores reportassem as suas transacções num sistema informático chamado Trade, o mercado da dívida baseado em activos não possui qualquer rede centralizada para se observarem os preços. Para avaliarem a dívida, os investidores e Wall Street dependem do seu próprio "software", de modelos já prontos e adquiridos a vendedores como a Moody’s, e de informações por parte dos operadores.

A enorme variedade de métodos de avaliação e a complexidade dos títulos baseados em activos impossibilitam avaliações consistentes. As obrigações sobre hipotecas são compostas por milhares de empréstimos. As obrigações de dívida colateralizada (CDO) vão um pouco mais longe, reconvertendo as obrigações, bem como outra dívida - como os empréstimos -, em títulos com diferentes "ratings" e "yields" para o crédito. As CDO podem mesmo constituir novas CDO.

Uma pessoa que possua um modelo que avalie com exactidão os títulos baseados em activos pode ganhar dois mil milhões de dólares por ano, de acordo com Sylvain Raynes, consultor na R&R Consulting, citado pela Bloomberg.

Dan Fuss, vice-presidente da Loomis Sayles, não encontrou um sistema adequado que o ajudasse a avaliar as CDO, por isso recusou inclui-las nos 22 mil milhões de dólares de títulos que gere.

A E*Trade Financial Corp., banco e corretora online, vendeu dívida baseada em activos - que tinha avaliado em três mil milhões de dólares a 30 de Setembro – por 800 milhões de dólares na semana passada ao fundo de cobertura de riscos Cidatel Investment Group.

Menos de um mês antes, o Citigroup reviu em alta as suas estimativas de prejuízos em títulos e empréstimos hipotecários, para 17 mil milhões de dólares, contra seis mil milhões. O seu CEO, Charles Price, demitiu-se a 4 de Novembro.

Richard Field diz ter um modelo que permitirá aos investidores monitorizarem diariamente o desempenho da dívida hipotecária. Aquele operador da Needham anunciou que planeia uniformizar a informação entre emitentes para facilitar aos investidores a comparação da qualidade de diferentes títulos. Field patenteou em 2000 o seu sistema computorizado destinado a ajudar os fornecedores de cuidados de saúde a venderem as queixas dos seus doentes no mercado do papel comercial baseado em activos.

Field está a trabalhar com a Deloitte para reformular os sistemas de reporte da empresa de consultoria, como é o caso de um programa chamado "CDO Suite" e que é usado para monitorizar as garantias que sustentam os títulos.

"Quando observo a indústria financeira de hoje, descrevo-a em três palavras: complicada, opaca e ilíquida", declarou Field, citado pela Bloomberg.

"O primeiro passo, quando se é alcoólico e se precisa de parar de beber, é reconhecer a doença. Nós, enquanto mercado, temos de reconhecer que há falta de compreensão quanto ao que o valor significa no mundo dos produtos estruturados", segundo Raynes.

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