Obrigações Títulos do Tesouro dos EUA podem ser usados como arma na guerra comercial?

Títulos do Tesouro dos EUA podem ser usados como arma na guerra comercial?

Ser dono de um bilião de dólares em títulos do Tesouro americano já não significa tanto poder como antigamente.
Títulos do Tesouro dos EUA podem ser usados como arma na guerra comercial?
Reuters
Bloomberg 10 de março de 2018 às 18:00

A ameaça de novas taxas sobre as importações de aço e alumínio pelos EUA e a consequente saída do principal assessor económico da Casa Branca, Gary Cohn, elevaram a possibilidade de uma guerra comercial. Mas não só, há relatos de que a administração Trump considera uma série de restrições à China. Assim, é natural que se pense que alguns dos maiores credores dos EUA podem retaliar, parando de comprar a sua dívida pública.

 

A percepção de um recuo mínimo pela China, dona de quase 1,2 biliões de dólares em obrigações do Tesouro dos EUA, causou nervosismo no mercado no início do ano. O governo federal dos EUA não pode arcar com custos de captação muito maiores num momento em que o défice público aumenta.

 

No entanto, a participação da China no mercado de títulos do Tesouro dos EUA está próxima do menor nível desde 2005, em 9,4%. A parcela do Japão, detentor de 1,06 bilião de dólares, é de 8,4%, a mais baixa em pelo menos 18 anos. Ou seja, estes países não acompanharam o ritmo de emissão de dívida pelo governo americano.

 

Claro que esta conjuntura foi influenciada pelo programa de compra de títulos da Reserva Federal após a crise financeira, que absorveu uma boa parte da oferta de títulos. No entanto, a carteira da Fed oscilou pouco entre o final de 2014 até ao ano passado e diminuiu desde então. Já o mercado de obrigações americanas aumentou em mais de dois biliões de dólares para 14,7 biliões. Ou seja, com ou sem guerra comercial, grandes compradores estrangeiros da dívida pública americana já estavam a recuar lentamente.

 

"A importância relativa do Japão e da China como detentores da dívida dos EUA diminuiu", embora ainda seja mais do que suficiente para mexer com os mercados, disse Gennadiy Goldberg, estratega de juros nos EUA da TD Securities, em Nova Iorque. Se o total controlado por estes países não aumentar muito nos próximos anos, "estes números vão encolher ainda mais", considerando os biliões de dólares que os EUA tencionam emitir.

 

No auge da sua participação, em 2004, o Japão era dono de quase 25% de todas as obrigações americanas. Para a China, o ponto máximo foi em 2009, com uma parcela em torno dos 20%.

Nos últimos seis anos, investidores da Irlanda, Ilhas Cayman e Reino Unido foram os maiores compradores estrangeiros da dívida americana, segundo dados do Departamento do Tesouro.

 

Poucos operadores esperam que a China ou o Japão vendam Treasuries em massa e de maneira abrupta. Afinal, as quantidades que detêm são tão grandes que um movimento desses prejudicaria o valor de seus próprios activos.

 

"Nunca acreditei que a China pudesse vender obrigações dos EUA intencionalmente para elevar os juros nos EUA. De que modo isso ajudaria" os chineses, questiona Eric Stein, responsável da Eaton Vance. "Seria uma destruição mutuamente garantida no relacionamento entre os EUA e a China."

 

Agir devagar

 

O mais provável é um recuo lento.

 

A 10 de Janeiro, a Bloomberg News noticiou que pessoas do governo chinês recomendavam diminuir ou interromper a compra de títulos do Tesouro americano. O rendimento das obrigações com uma maturidade a 10 anos subiu 5 pontos base em menos de uma hora, logo após a notícia ser publicada sair.

 

Embora a Administração Estatal de Câmbio da China tenha divulgado um comunicado a afirmar que os investimentos são decididos de acordo com as condições do mercado, a reacção mostra que um país com tantos activos precisa de se desfazer deles num ritmo gradual.

(Notícia em actualização: Treasuries as Trade War Leverage? Big Creditors Already Cut Back)




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