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"Liquidez vai ser reforçada com novos levantamentos"

As capitais de risco têm cerca de 500 milhões de euros disponíveis para investirem. E continuam a levantar fundos, principalmente no mercado internacional. Espera-se para 2009 grandes oportunidades de investimentos

Alexandra Machado amachado@negocios.pt 09 de Fevereiro de 2009 às 18:29
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As capitais de risco têm cerca de 500 milhões de euros disponíveis para investirem. E continuam a levantar fundos, principalmente no mercado internacional. Espera-se para 2009 grandes oportunidades de investimentos

As contas não estão fechadas, mas 2008correu bem para o capital de risco. Três operações desequilibraram os números. A compra da Enersis pela Magnum foi mesmo a maior operação de capital de risco na Europa no último trimestre. Tornou-se, com um investimento de mil milhões, no mega negócio. Mesmo sem esta operação, a compra da Generis pela Magnum,por200milhões,e a aquisição da Companhia das Sandes pela Explorer totalizaram 250 milhões de euros, mais do que o investimento normal anual do capital de risco em Portugal. Até ao terceiro trimestre ia nos 114milhões de euros. E em 2007 foi de 170 milhões, que já tinha sido um ano recorde. Tal como o foi no levantamento de fundos. 2006 e 2007 permitiram duplicar os fundos sob gestão, que passaram o patamar de 1,7 mil milhões e, desse dinheiro, o que estava investido rondava os 900 milhões de euros, ou seja, havia 800 milhões de euros disponíveis. Com os 300 milhões investidos em 2008, restam 500 milhões.

Os 500 milhões são suficientes para este momento de crise, em que não há liquidez nos mercados financeiros?

A grande diferença é a apetência que os bancos tinham demonstrado nos últimos anos de entrarem com agressividade nas operações, que foi reduzida. Vai ter de haver mais capital próprio, ou seja, mais dinheiro destes fundos de capital de risco, e menos dívida. As operações grandes, altamente alavancadas, vão deixar de existir ou serão muito menores. Portugal nunca as teve.

Mas quando falamos dos 500 milhões de fundos é precisamente para a tranche de capital. É suficiente para o que se prevê que sejam as operações?

Se não forem é um óptimo sinal, de que existe muitas oportunidades.

Não se espera que haja novo levantamento de fundos?

Com base nos sinais do mercado e nos processos em curso, espera-se levantar mais 500-600 milhões de euros. A tal liquidez vai ser reforçada pelos novos levantamentos. Mas o nível de investimentos em Portugal ronda os 100-200 milhões de euros. Quinhentos milhões num ano significa que teríamos de multiplicar por duas, três vezes o que já foi o máximo em Portugal. E passaríamos a estar no patamar dos países mais desenvolvidos de capital de risco na União Europeia, que não é o caso.

Então, por que é que se está a tentar levantar tantos fundos?

Se alguém está a ter uma “performance” boa e já investiu os seus fundos, vai precisar de mais dinheiro. Pode é haver outros que tenham muito dinheiro disponível e que não estejam a conseguir investir.

E há casos desses?

Há sempre operadores, ou que são mais receosos nesta época mais conturbada, ou que têm um posicionamento mais dependente de dívida e agora têm de reajustar. Tem a ver com a estratégia de investimentos. É um bocadinho perigoso estarmos a dizer que há quem tenha dinheiro e não consegue investir. Não é verdade. Pode ser a sua estratégia.

A partir do último trimestre sentiram que empresas, que já tinham capitais de risco, precisaram de novas dotações? Fala-se muito da Aerosoles, mas haverá outros casos?

O que se nota é os pagamentos estarem sempre atrasados. E isso é um efeito bola de neve. Mas aí o Estado é quem dá o mau exemplo. Quando temos o sector público a pagar a 300 dias, isso causa rupturas muito graves de tesouraria. Esses reforços são sobretudo para compensar problemas de tesouraria e aí todos nós sofremos com esse problema.

Esse é o principal problema das participadas que precisam de fundos?

É muito subjectivo. De forma genérica, os reforços que podem ter havido tem a ver com isso, défices de tesouraria pontuais que foi necessário colmatar. Pode haver situações de problemas estruturais, mas eu acho que não houve tempo suficiente para a crise da economia criar essas mossas.

Se existem problemas estruturais já vinham de trás e a crise veio agudizar.

Há queixas de que existe pouco capital disponível para as fases de arranque. Por que têm essa retracção?

Tem a ver com o próprio modelo de negócio do “venture capital”,que é muito diferente do “private equity”. No “private equity” posso ter uma operação que corre mal e perco 30-40% do dinheiro que investi. No “venture capital” é o binómio do tudo ou nada. O rácio risco/retorno é diferente.

Por isso se chama capital de risco...

Ninguém pode achar que o capital de risco investe sem qualquer tipo de ponderação de risco. Senão virávamos mais hospitais de empresas. No “venture” tenho de ver quase duas vezes mais de oportunidades para conseguir ter o mesmo número de boas oportunidades que tenho no “private”, significa mais pessoas a trabalhar, ter conhecimentos específicos nas várias áreas.

O “seed capital”(capital semente, normalmente para apoiar empreendedores) está “condenado” a ser financiado por capitais públicos?

Há falhas no mercado de capital de risco. Não haver capital para empresas com facturação com menos de cinco milhões ou um milhão, ou para as micro-empresas, é uma falha de mercado. Se financeiramente não é interessante para os privados, acho bem que o Estado intervenha. Dizer que os privados não estão na parte do “start-up” ou “venture” não é verdade. O que falta é operadores especializados nas biotecnologias, semi-condutores, isso não há. Mas é difícil ter todo esse conhecimento dentro da capital de risco.

O que espera que aconteça em 2009?

Continua a haver liquidez, vai haver oportunidades mais baratas, com valorizações mais interessantes, e o segmento das PME tem uma característica muito importante para o capital de risco que é a fragmentação, que fomenta operações de consolidação. E vai haver operações de “turnaround”.

Que acontecem mais com as crises. Há dados sobre a anterior crise?

No início do século houve algumas operações sobretudo no “venture capital”, por causa da bolha. Agora, estamos a falar de indústria.

Recorrem ao capital de risco?

Hoje as empresas não esperam até à última hora para virem falar com as capitais de risco como acontecia. O capital de risco era o hospital das empresas. Só ia bater à porta quem não conseguia dinheiro de mais lado nenhum e quando ia bater à porta não era capital de risco, porque tinha de se comprometer com uma taxa de rentabilidade e colateralizar tudo.

Rentabilidade é ainda exigida...

Muito menos. O processo de investimento, já com recompra garantida a determinada taxa, pesou 10% em 2007. Já começa a desvanecer-se essa prática. Hoje é “full risk”. Há cinco anos, estaria nos 70%.

Investidores internacionais financiam capital de risco

É junto dos investidores institucionais que os fundos estão a ser recolhidos. Em Portugal, continuam a ser bancos e entidades públicas a financiarem o capital de risco.

O levantamento de fundos que está agora a acontecer está a ser feito a nível internacional. Já em 2007, ano recorde (em 2008 levantaram-se apenas 15 milhões), em que se recolheu 460 milhões de euros, 54% chegaram de fora. Os levantamentos em 2005 foram todos nacionais. Para o presidente da Associação Portuguesa de Capital de Risco (APCRI), significa que quem está a levantar fundos o fará com uma taxa de rentabilidade interna superior à média europeia, que em 2007 foi de 15% (nas operações de “private equity” a taxa foi de 23% e no “venture capital” de 11%).



Em 2007, na Europa, 20% dos financiamentos vieram dos fundos de pensões, 20% das seguradoras, 20% dos fundos de fundos, 18% de instrumentos públicos e 9% dos bancos. Em Portugal, 40% têm origem pública e 30% chegam dos bancos. Apenas 14% vêm de fundos de pensões e seguros e 12% de fundações e empresas. “Se olharmos para o capital de risco em Portugal, em comparação com outros países, o maior desequilíbrio tem a ver com a origem dos fundos”.Em Portugal, “há instituições que não acreditam no capital de risco português. Quando tenho fundos de pensões internacionais a investir no capital de risco em Portugal e não tenho fundos de pensões portugueses....”

As fases de investimento

Até 2007, as operações de financiamento em capital de expansão e “start-up” pesavam cerca de 75% dos investimentos. Nesse ano, o perfil do capital de risco alterou-se. 56%dos investimentos foram realizados em “buy-outs”(aquisições). As “start-ups”representaram16%. AfonsoBarros assume que uma das falhas do capital de risco é o “venture capital” especializado. As capitais de risco não têm o conhecimento técnico necessário.



Algo que ficará colmatado, com a criação dos centros de transferência de tecnologia, que estão a surgir pela mão da Cotec, e com as acções das universidades. Afonso Barros diz, ainda, que se tentou abordar essa falha com a criação da figura dos investidores em capital de risco (ICR), que têm benefícios fiscais, mas “não houve um único ICR a registar-se na CMVM”.

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