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África - entre a percepção e a realidade

Apesar do pessimismo generalizado em relação a África, continuo a não me arrepender das perspectivas para o "continente negro".

Nick Price 05 de Abril de 2011 às 08:45
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A percepção negativa da África - decorrente das imagens de pobreza, fome e conflito - manteve a região fora da mira de muitos investidores ocidentais. Mas a opinião convencional não coincide com a minha experiência no terreno. Para mim, a África é um exemplo claro da distância entre a percepção e a realidade que leva à oportunidade de investimento.

Um dos aspectos menos notados da crise financeira foi a resiliência relativa da África à crise económica mundial. O crescimento económico da África Subsaariana manteve-se superior ao das economias desenvolvidas antes, durante e depois da crise. A integração limitada na economia mundial pode ter ajudado (menor dependência das exportações do que, por exemplo, a Ásia) mas igualmente importantes foram os fundamentais fortes de muitos países (dívidas públicas baixas e menor inflação do que no passado). Como o gráfico mostra, entre 2001 e 2010 a África contribuiu com seis para a lista das dez economias de crescimento mais rápido do mundo, prevendo-se que durante os próximos cinco anos contribua com sete. De facto, a economia de África não é declarada. Isto é bem evidente quando se observa o enorme volume de actividade baseada em numerário que decorre nas praças de táxis em África - desde bares não licenciados (ilegais) a cabeleireiros. Todo este negócio paralelo está à vista mesmo antes de se começar a considerar a agricultura de subsistência do continente (a agricultura ainda representa cerca de um quarto do PIB de África). É esta economia paralela que está por detrás da recente revisão em alta do PIB do Gana por uns surpreendentes 70% em 2010! Isto tem um impacto extremamente positivo nas notações de crédito, uma vez que rácios tais como Dívida/PIB começam a parecer consideravelmente melhores, o que por sua vez tem impacto no custo de financiamento de um país. A natureza baseada em numerário da economia africana tem profundas implicações na avaliação da procura real na região. Quando a crise de crédito atingiu o mundo ocidental, descobrimos rapidamente que parte da procura era ilusória (as vendas de automóveis nos EUA, por exemplo, caíram de 17 milhões para 10 milhões de unidades visto que uma grande parte dos gastos anteriores tinha sido financiada por crédito que nunca devia ter sido concedido). Em África, os números relativos à procura resistem melhor ao escrutínio porque praticamente não existe crédito pessoal. O potencial para o consumo em África é também o reflexo de rendimentos em rápido crescimento. De acordo com as Nações Unidas, o PIB per capita da região, no seu conjunto, aumentou de menos de 700 dólares em 2002 para mais de 1.500 dólares em 2008 e poderá duplicar novamente até 2013.

O impacto da telefonia móvel em África foi profundo. Recorde-se que há 10 anos atrás a Nigéria, que tem uma população de 150 milhões, tinha 450.000 linhas fixas. Hoje tem quase 70 milhões de utilizadores de telemóveis. Isto teve um impacto profundo na produtividade, que por sua vez se reflectiu no desempenho forte do PIB. É este ciclo positivo que encoraja a oportunidade dos consumidores em África, prevendo-se que na próxima década as receitas acumuladas das vendas de bens e serviços sejam quase três vezes superiores às receitas do sector de recursos. Os factores demográficos são o calcanhar de Aquiles do mundo ocidental. De facto, parte da responsabilidade pelo desempenho económico anémico do Japão pode ser atribuída ao envelhecimento, e agora à diminuição, da sua população. Esta é também cada vez mais uma preocupação na Europa. A África, em contraste, tem um excelente perfil demográfico, com uma população activa que representa actualmente cerca de metade da sua população de milhares de milhões. Prevê-se que a mão-de-obra de África mais do que duplique até 2040, mantendo o seu rácio de dependência baixo e assegurando que as várias preocupações relacionadas com o factor etário que prevalecem no Ocidente não venham a constituir um problema no futuro.

A história de África não é, obviamente, uma história de pura oportunidade. Seria pouco correcto não mencionar a política e a corrupção com que muitos dos dirigentes africanos se identificaram no passado - Idi Amin, Mobutu e, mais recentemente, Robert Mugabe. Estes líderes representaram, de facto, uma mácula no continente mas, de uma forma geral, não há dúvida que estas aberrações estão a tornar-se mais raras. A transferência democrática e pacífica do poder está a tornar-se a regra. Tem havido desde há muito uma relutância por parte das empresas ocidentais em investir em África - como resultado da fraca percepção do continente (embora haja sinais crescentes de que as empresas de bens de consumo globais estão a despertar para esta oportunidade). Em contraste, tem-se falado muito na imprensa da "colonização" de África pela China, mas considero esta um factor largamente positivo por uma série de razões. Em primeiro lugar, os investimentos levaram a melhorias massivas na eficiência, desde os portos da Nigéria até à reconstrução dos antigos caminhos-de-ferro de Luanda; em segundo lugar, o investimento chinês está a aumentar a tensão competitiva na região, para benefício de todos; e em terceiro lugar, está a criar emprego significativo em todo o continente.

A África beneficia de um número ímpar de recursos naturais, o que está a ajudar a impulsionar os fluxos de investimento comercial e o crescimento económico Mas, na minha opinião, a maior oportunidade está nas perspectivas para o consumo doméstico. Uma parte significativa da população está a tornar-se gradualmente mais rica e, com os baixos níveis de crédito, o potencial de crescimento é vasto. Outros mercados emergentes mais em voga e melhor estabelecidos têm atraído recentemente todas as atenções e penso que chegou a altura de a África ter o seu momento ao sol.


Só para investidores profissionais. Não deverá servir de base a decisões de investimento por parte de investidores particulares.


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