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As variáveis que farão o mundo girar

É um mundo perigoso aquele onde vivemos hoje. Não há registo, nos últimos anos, de um momento tão incerto para a economia mundial. Neste mundo, os investidores têm, contudo, uma vantagem: ao contrário dos consumidores ou dos empresários, os que apostam n

Rui Peres Jorge rpjorge@negocios.pt 26 de Dezembro de 2007 às 12:00
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É um mundo perigoso aquele onde vivemos hoje. Não há registo, nos últimos anos, de um momento tão incerto para a economia mundial. Neste mundo, os investidores têm, contudo, uma vantagem: ao contrário dos consumidores ou dos empresários, os que apostam nos mercados de capitais conseguem, mesmo em crise, fazer dinheiro.

Para isso, o essencial é, como sempre, antecipar o andamento da economia, sentir o momento nos mercados e fazer as opções certas na escolha das aplicações financeiras. Não poderá, por isso, em 2008, deixar de acompanhar a evolução de cinco variáveis: os resultados de 2007 das principais instituições financeiras, que serão apresentados durante o primeiro trimestre do próximo ano, o andamento do consumo privado nos EUA - e logo do crescimento da maior economia do mundo -, a evolução do preço do barril de petróleo, o movimento das taxas centrais das principais autoridades monetárias (e a sua relação com as taxas praticadas entre as instituições financeiras) e, finalmente, a apreciação ou depreciação do dólar, euro e yuan. Uma boa avaliação destas variáveis não chegará para garantir o sucesso. No entanto, uma má avaliação será um passo quase certo para erros de investimento.

Que sinais procurar? "Antes de mais, estarei a olhar para o consumo privado e, desde logo, para as compras em altura de Natal", disse ao JdN, David Wyss, o economista-chefe da Standard & Poor"s, sedeado em Nova Iorque. "Depois, vamos ter de perceber quão fraco estará o mercado de hipotecas e residencial e qual o volume de perdas das instituições expostas ao "subprime"", acrescenta o economista que "espera uma economia americana muito fraca, muito próxima da recessão mas, ainda assim, a crescer". Isto, claro, "se mais nada correr mal".

E entre o que pode correr mal, está a evolução do preço do petróleo. Rui Constantino, economista--chefe do Santander, em Lisboa, quer perceber qual será o dinamismo das maiores economias na primeira metade do ano para melhor conseguir avaliar a pressão da procura sobre o preço do ouro negro. O problema é que, diz Constantino, "fazer previsões sobre o petróleo é hoje tão difícil como fazer previsões sobre taxas de câmbio, pois os factores extraordinários [como as decisões de produção da OPEP] estão a pesar tanto como os factores estruturais". Wyss quantifica: "A economia aguentará os actuais 85 a 90 dólares por barril de petróleo. Mas, se subir para os 120, então teremos problemas", avisa o economista da S&P que aponta para uma probabilidade de recessão nos EUA na casa dos 40%.

A evolução do preço dos bens energéticos, o crescimento das principais economias e os impactos da crise do "subprime" nos balanços das maiores instituições financeiras terão efeitos decisivos noutra das grandes incógnitas de 2008: como vão evoluir as taxas de juro centrais das principais autoridades monetárias e em que nível vão estabilizar os "spreads" destas face às taxas interbancárias.

"A evolução dos preços não me parece um problema de maior, uma vez que, excluindo os bens energéticos, a inflação permanece baixa", opina Wyss que, contudo, reconhece um efeito muito negativo das pressões inflacionistas: "o problema é que vai afectar a capacidade da Fed de baixar juros para evitar a crise", avisa, vaticinando para Ben Bernanke "decisões muito difíceis" em 2008. Trichet, líder do Banco Central Europeu, terá um dilema semelhante. Quanto às diferenças entre as taxas centrais e as interbancárias, Wyss confia que, se as perdas não ultrapassarem os 400 mil milhões de dólares, então "o processo de ajustamento de "spreads" deverá continuar nos próximos três a quatro meses", defende.

Vai querer perceber, também, para onde vão caminhar o dólar, o euro e o yuan. A evolução dependerá do crescimento de cada um dos blocos e do valor das taxas de juro (quanto mais elevadas, maior valorização das moedas). E há um elemento decisivo: a opção do governo chinês de valorizar o yuan. Se o fizer, o ajustamento dos desequilíbrios globais será mais gradual. Se não o fizer, o impacto no Ocidente pode ser grande, aconselhando o reforço dos activos de baixo risco na sua carteira.

0 dólares, então teremos um problema", afirma ao JdN, David Wyss, economista-chefe da Standard & Poor"s. Se o petróleo subir, então as já fortes pressões inflacionistas vão, ainda, aumentar, a economia continuará a arrefecer, e o mesmo sucederá com a dificuldade dos bancos centrais em optarem por descidas ou subidas de juros. E o problema aqui, como diz Rui Constantino, do Banco Santander, é que "os factores extraor

dinários a definir o preço do petróleo estão a ter tanta influência como os factores estruturais". Siga de perto nos próximos meses as decisões da OPEP e a pressão de procura da Ásia e EUA.

Não vai haver variável de conjuntura mais escrutinada nos EUA do que os gastos das famílias nos próximos meses. O consumo é uma das variáveis centrais na definição do andamento da economia norte-americana, sendo responsável por cerca de 60% do PIB. Com o número de famílias que não conseguem pagar hipotecas a aumentar, o desemprego a pressionar e os problemas financeiros a arrastarem-se e a condicionarem o comportamento do investimento, a evolução do consumo será a bitola para avaliar a transmissão da crise financeira à economia real. Para o conjunto do ano, a expectativa é de um crescimento de 1,8%. As vendas no retalho, nos próximos meses, vão já moldar o sentimento dos investidores.

Até agora, os principais bancos assumiram, em conjunto, perdas que rondam 80 mil milhões de dólares, relacionadas com investimentos no segmento de pior qualidade do mercado hipotecário norte-americano ("subprime"). Há um mês, a Standard & Poor"s avançou com uma estimativa de perdas globais de 400 mil milhões. Mantenha este limite presente: o número ficou a circular no mercado. Uma soma de perdas próxima ou superior deve fazê-lo repensar estratégias de investimento, pois a crise financeira terá atingido dimensões onde os problemas de capital vão pesar a sério. Até lá, não fique demasiado nervoso com as perdas. A maioria já está à espera delas. O grosso dos resultados será apresentado lá para Fevereiro.

A Reserva Federal (Fed) já cortou a sua taxa de juro central em um ponto desde Agosto, para dar uma ajuda à economia. Poderá continuar a fazê-lo, mas terá de ter cada vez mais cautela com os preços. A inflação, em Novembro, ficou acima dos 4,5%. Na Europa, o BCE resistiu a descidas e já avisou que não vai tolerar que a inflação média ultrapasse os 2,5%, em 2008. Na China, inflação e juros não param de subir. Falta acrescentar na equação os "spreads" entre as taxas centrais e as interbancárias - os tais que, desde que a crise financeira começou, dispararam como sinal da desconfiança entre instituições financeiras. A evolução do custo do dinheiro e as acções dos bancos centrais serão importantes barómetros sobre o futuro.

O ajustamento dos desequilíbrios globais é uma das principais incógnitas para o próximo ano. Dele resulta, e depende, a evolução da cotação das principais moedas: euro, dólar e yuan. O défice externo norte-americano já começou a diminuir, puxado por uma desvalorização do dólar, o que significa mais competitividade (e inflação) para os EUA e menor competitividade (e inflação) para a Zona Euro. No Ocidente, a pressão para que a China acomode parte da correcção através de uma valorização do yuan está a intensificar-se e deverá continuar. Se não acontecer, o mais certo é que o euro, que se valorizou 8% face ao dólar em 2007, continue a subir. A Comissão Europeia já avisou que, neste cenário, o impacto para a economia europeia será grande.

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