Investidor Privado Crédito consolidado - Desafogo que sai caro

Crédito consolidado - Desafogo que sai caro

Concentrar todos os empréstimos num só contrato pode representar um alívio de 30%, ou 400 euros, no orçamental mensal. Mas, no final do contrato, o dinheiro que paga em juros a mais supera os 90 mil euros. Compensa?
Sara Antunes 06 de junho de 2008 às 17:12
Pagar os empréstimo da casa, do carro e outros bens de consumo através de uma única linha de crédito pode solucionar alguns problemas financeiros mensais, alargando os prazos de pagamento. Mas saldar o empréstimo de um carro em 30 anos sai muito mais caro. Conclusão: só se estiver com a “corda na garganta” deve recorrer a esta solução para aliviar o “nó”.

O Jornal de Negócios fez os cálculos e pagar a casa, o carro, um crédito pessoal e um crédito “rápido” através de um só empréstimo, representa menos 400 euros de prestação mensal. Mas no final do contrato o montante adicional pago cresce em 99 mil euros (ver tabela pág. ao lado). A consolidação baixa a “mensalidade” em 30%, mas no total paga mais 41%. Um bom negócio... Para o banco.

Apesar de partir de um capital total igual nas duas situações, no final as contas são bem diferentes. O problema é que paga créditos de curto prazo, num período mais longo. E quanto maior for o prazo do contrato, mais juros vai pagar. Tal como acontece com o alargamento dos contratos de crédito à habitação. O banco empresta dinheiro por mais tempo e os juros são cobrados sobre o capital em dívida. Com a diluição do crédito por mais anos, a fatia de amortização do empréstimo é menor. Logo, o valor pago em juros é maior.

Num total de 165 mil euros de empréstimos, se pagar a dívida em contratos separados e em prazos diferentes, o dinheiro que terá de disponibilizar por mês supera os 1.300 euros. Se concentrar os empréstimos numa só instituição, o encargo mensal é 411,22 euros inferior. Contudo, feitas as contas, no final vai pagar 340 mil euros pelo crédito, mais 99,4 mil euros do que se deixar correr os empréstimos em prazos diferentes.

“É preciso pesar bem os pratos da balança” antes de optar pela consolidação do crédito afirmou João Fernandes, da DECO/Proteste. O director operacional da consultora financeira Centre Finance, Luís Rodrigues, avisa que esta solução “proporciona apenas um alívio temporário a um cliente com muita apetência pelo crédito ”, uma vez que após resolver o problema poderá ter a tentação de voltar a contrair novos empréstimos.

Os cálculos feitos pelo Jornal de Negócios consideram que ao consolidar o crédito, o cliente conseguirá uma taxa de juro idêntica à do empréstimo hipotecário. O que na maior parte das vezes não acontece. Quando um cliente recorre a uma instituição financeira com vários empréstimos e revela dificuldades para cumprir os pagamentos, o risco associado é mais alto e isso é expresso nos “spreads” praticados pelos bancos. Quanto maior for o risco associado ao cliente, mais altos serão os juros.

Luís Rodrigues revelou que num contrato de consolidação, que inclua crédito imobiliário, os “spreads” podem chegar aos 7%, um valor sob o qual ainda tem de incidir o indexante (que, regra geral, é uma Euribor), impostos, comissões e seguros. O responsável adiantou que, há mesmo casos, em que o risco do cliente é tão elevado, que os elevados juros correspondentes acabam por inviabilizar a operação. Na prática, o esforço do cliente não baixaria.

Já um cliente cumpridor pode conseguir condições favoráveis. Jorge Pires, director da consultora financeira AXT Capital, diz que “um cliente de topo pode conseguir um ‘spread’ de 0,2-0,25%, enquanto um cliente comum pode ter um ‘spread’ de 0,7-1%, isto na banca tradicional”.

Já se recorrer às empresas de consolidação de crédito, o “spread” pode ser mais elevado. O responsável da AXT diz que nestas sociedades aquela margem “não será inferior a 1%”. A associação de defesa do consumidor DECO admite que consolidar os créditos “poderá ser uma boa solução”. Mas é necessário analisar o processo, já que apesar de se pagar menos por mês, no final do contrato as diferenças ainda são significativas.

António Júlio Almeida, responsável da Associação Portuguesa dos Utilizadores e Consumidores de Serviços e Produtos Financeiros (Sefin), considera que “normalmente as empresas especializadas nesta área não são grande solução. Não melhoram muito a situação dos clientes.”

Tal como em qualquer outra operação de crédito é importante comparar, fazer contas e negociar com as instituições. Importante é também não cair na tentação do crédito fácil, para não acabar em situações de incumprimento.

Os casos de sobreendividamento têm vindo a aumentar em Portugal nos últimos anos, acentuando-se com a subida das taxas de juro. Um comportamento que Luis Rodrigues diz estar também relacionado com o rápido e fácil acesso ao crédito. “As pessoas começaram a contratar crédito fácil sem ter noção real do problema. Os muitos 20 euros por mês, acabam em muitas centenas de euros por mês”.

Alívio mensal implica gastar mais no final





Fonte: Jornal de Negócios

Para calcular as prestações e os custos com os empréstimos, o Jornal de Negócios recorreu ao “site” da Caixa Geral de Depósitos (CGD), o maior banco nacional, e recolheu as taxas anuais efectivas globais (TAEG) mais baixas para um crédito automóvel e um empréstimo pessoal. Para o crédito “rápido” recorremos ao “site” da Cofidis, onde estava divulgada a TAEG para um empréstimo que pode ir até aos 4.000 euros. Já nos cálculos do empréstimo à habitação e do consolidado, considerámos apenas a média da Euribor a seis meses de Maio mais um “spread” de 0,7%. Este valor não representa o total dos custos com aqueles empréstimos, ao contrário dos outros, uma vez que só a TAEG reflecte os custos totais (capital, juros, impostos, comissões e seguros). As conclusões que se tiram é que consolidar o crédito diminui os encargos mensais, mas o bolo total pago daria para comprar três casas. Sem a consolidação pagaria duas.


Manual de boas maneiras para o crédito consolidado


A tentação de usar a poupança conseguida na prestação mensal para um novo crédito é grande. Não se deixe levar.

As entidades financeiras que oferecem consolidação de crédito admitem que os juros cobrados neste produtos podem ser elevados, mas consideram que podem ser opções viáveis para as famílias endividadas. Esta visão não é muito diferente da perspectiva das associações de defesa dos consumidores. O recurso a este tipo de produtos pode ajudar uma família a controlar o orçamento mensal. E o melhor é mesmo “poupar” com o desafogo que se consegue.

Luis Rodrigues, director operacional da consultora financeira Centre Finance, diz que “estes produtos servem para os clientes estabilizarem a situação que têm, pagarem as dívidas e começarem a criar alguma poupança”. O responsável recomenda que parte do montante que deixa de estar canalizado para o pagamento de empréstimos “seja para poupança real”. Com o tempo, “o cliente poderá começar a amortizar o seu crédito à habitação”. O responsável alerta para a necessidade de se acompanhar os clientes, pois quem tem “predisposição para o crédito esta solução é temporária”, uma vez que poderá cair no erro de, depois de ter visto a sua situação aliviada, voltar a contrair novos empréstimos.

No caso da Centre Finance, “o crédito consolidado corresponde entre 15 a 20% do número de operações” que envolvem crédito à habitação. Luis Rodrigues justifica a evolução do crédito em Portugal com a abertura “muito grande, muito rápida e muito forte” ao financiamento, o que colocou muitas famílias numa situação de terem vários empréstimos.

Os responsáveis desta área são os primeiros a admitir que se encontram taxas de juro elevadas neste sector, mas estas são reflexo do nível de risco dos clientes. Quanto mais dificuldades um cliente tiver, mais juros terá de pagar.

Jorge Pires, director da AXT Capital, acredita que a concessão de crédito vai abrandar, com os bancos a restringirem o acesso ao mesmo. “Os bancos estão agora com um nível de selectividade muito maior” e “as famílias portuguesas vão ter de consumir menos”.

O presidente da Associação de Instituições de Crédito Especializado (Asfac), Menezes Rodrigues, diz que, mesmo assim, é possível conseguir beneficiar de “melhores taxas de juro”, dependendo das garantias dadas. Mas alerta para o dever do consumidor analisar “as diferentes propostas no mercado e optar pela que seja mais vantajosa para si”.

No caso de haver um crédito à habitação e créditos pessoais, uma família “pode ter ganhos mensais com a consolidação”, salvaguarda João Fernandes, da Deco. Mas, em contrapartida, está a pagar um crédito de mais baixo valor por muitos anos” , avisa. Em determinados casos, a concentração de vários empréstimos pode ser uma opção viável. Já António Júlio de Almeida, da associação de consumidores de serviços financeiros, Sefin, considera que “as pessoas que procuram soluções de consolidação estão com a corda na garganta” e, por isso, “as taxas de juro são maiores”.

Duas dicas
- Resista à tentação
A folga proporcionada pela consolidação dos créditos não deve ser usada para novos empréstimos.
- Poupe
Aproveite a diminuição do encargo mensal para constituir uma poupança. Depois amortize o crédito.



Negoceie com o banco
antes de chegar a uma situação de incumprimento


Os aumentos das taxas de juros desde 2005 têm dificultado a vida da maior parte das famílias, que vêem os custos associados aos empréstimos disparar. Algumas famílias estão mesmo a entrar em incumprimento com os bancos. As instituições bancárias dizem-se abertas à negociação para evitar estas situações.

Os Jornal de Negócios contactou os quatro maiores bancos nacionais, que na maioria diz não ter consolidação de crédito. Mas há outras opções para tentar diminuir os encargos mensais com os empréstimos. Alargamento dos prazos e períodos de carência estão entre as opções disponíveis.

Na Caixa Geral de Depósitos (CGD) não há crédito consolidado. Mas é feito um esforço para ajudar o cliente a cumprir: “Criámos o ‘factor à medida’ e vemos que tipo de soluções podemos oferecer para o cliente conseguir continuar a pagar”, explica fonte oficial da instituição. O maior banco nacional criou mesmo uma direcção de recuperação de crédito, há três anos, uma medida que permitiu diminuir o seu crédito malparado.

O Santander revela que “para situações de incumprimento, o banco tem uma política de monitorização atenta destas situações, entrando em contacto directo com os seus clientes aos primeiros sinais de dificuldade de pagamento, por forma a, em conjunto com eles, encontrar soluções e evitar que as prestações vencidas se avolumem”.

O Banco Espírito Santo (BES) recorre a ferramentas semelhantes: “O banco negoceia caso a caso” para evitar que os clientes falhem nas suas obrigações.

Só o Millennium bcp tem actualmente uma solução de consolidação, o “crédito mil opções”, onde o cliente pode optar por agregar o empréstimo do carro, das férias e de cartões.

Nenhum banco tem interesse que os clientes deixem de pagar os empréstimos, por isso não se iniba de negociar com a instituição financeira. Tente encontrar soluções junto do banco que o permitam recuperar uma situação de liquidez mais confortável, a fim de evitar que entre em incumprimento.




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