Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Notícia

Euro fraco - investimento forte

Dólar, iene ou franco suíço são algumas das moedas que têm vindo a valorizar face ao euro. E os analistas consideram que a tendência de queda da moeda única vai continuar. Saiba como a traduzir em ganhos para as suas poupanças.

  • Partilhar artigo
  • ...
O dólar parece ter voltado a assumir o seu papel como moeda refúgio a nível mundial. Nos últimos meses, o euro tem perdido terreno face à nota verde e a outras divisas e, segundo os especialistas, esta é uma tendência que vai continuar. Se está a pensar ir de férias aos EUA, esta poderá ser uma má notícia. Mas se a encarar numa lógica de investimento, há boas oportunidades à espreita.

Depois de vários meses a valorizar, o euro começou a recuar e está agora a cotar cerca de 20% abaixo do seu máximo histórico contra o dólar ($1,6038). A confirmação de que as instituições financeiras europeias também foram afectadas pela crise do "subprime" e os receios crescentes de que a economia vai entrar em recessão colocaram a moeda única sob pressão, face a várias divisas mundiais, como o iene ou o franco suíço.

"Em situações de grande debilidade da economia global, como a presente, o dólar é o activo de refúgio por excelência, fenómeno que decorre do estatuto hegemónico da economia americana no mundo", explicou ao Negócios José Brandão de Brito, responsável pelo "research" de mercados financeiros do Millennium IB. Também Agostinho Leal Alves, analista financeiro do BPI, realça que nos últimos meses a moeda americana reconquistou o seu papel de moeda refúgio, devido ao arrastar da crise, com o "agravamento da aversão ao risco e da turbulência financeira, alta volatilidade e incerteza acrescida".

A perspectiva de que os EUA vão recuperar mais rapidamente do que a Europa e que o Banco Central Europeu (BCE) vai continuar a descer os juros, diminuindo o diferencial de juros na Zona Euro e na maior economia do mundo, poderão continuar a dar margem de subida ao dólar, de acordo com as expectativas dos analistas contactados pelo Negócios. "Num período de tempo mais alargado, poderemos vir a assistir a níveis mais baixos do euro face ao dólar, com a confirmação da severidade da contracção económica na Zona Euro e a necessidade de uma política monetária expansionista", acrescentou Agostinho Leal Alves.

Mas a depreciação do euro pode representar uma boa oportunidade de investimento. Basta acertar nas divisas que podem ganhar à moeda única e investir em activos nelas denominados. Depósitos a prazo em dólares, fundos de investimento ou investimento directo no mercado cambial são alguns dos produtos em que pode investir para beneficiar com a subida do dólar e, assim, diversificar a sua carteira de investimento. Uma opção reservada apenas a investidores moderados ou agressivos.

Além do dólar, os responsáveis acreditam ainda que o iene e o franco suíço vão continuar a valorizar face à moeda europeia. "A reversão abrupta dos ‘carry trades’ [pedido de empréstimos em países com taxas de juro mais baixas para investir] repercutiu-se numa apreciação dramática do iene e do franco suíço, e correspondente depreciação das moedas de taxas de juro mais elevadas", explicou o responsável pelo "research" de Mercados Financeiros do Millennium IB. "Como a nossa perspectiva é de prolongamento do estado recessivo da economia mundial, consideramos que o "anti-carry trade" irá prosseguir potenciando a apreciação adicional do iene e do franco suíço", acrescentou José Brandão de Brito.

Ainda assim, há riscos a ter em conta. A desvalorização do euro face a outras divisas não é um dado adquirido e a moeda única pode inverter a tendência de queda e encetar uma recuperação, o que poderá colocar em risco o seu investimento.


Onde apostar

Dólar

A divisa voltou a ganhar o estatuto de moeda de refúgio. Os analistas consideram que esta é uma tendência que se vai manter, na expectativa que os EUA vão recuperar primeiro que a Europa.




















Iene

A moeda japonesa tem sido uma das mais beneficiadas nos últimos meses. O iene tem sido impulsionado pelo fim do chamado "carry trade", que consiste em pedir dinheiro emprestado em países com taxas de juro baixas para investir em activos denominados noutras moedas.














Franco Suíço

Ao contrário de outras divisas de países da OCDE, o franco suíço escapa à tendência negativa, funcionando como refúgio. Apesar da subida recente, os analistas consideram que a moeda mantém margem de valorização.

















Depósitos

Uma das formas mais simples e com menor risco de apostar em moeda é através de um depósito. Além de receberam um juro, os investidores podem beneficiar da subida da divisa em que estão a apostar, como o dólar. O investidor terá que abrir uma conta à ordem em dólares, e a partir dela constituir um depósito a prazo. Embora o capital investido em dólares esteja garantido, existe o risco associado à desvalorização cambial. Ou seja, se o euro valorizar face à moeda do depósito, quando voltar a fazer a conversão poderá ter menos dinheiro do que no início. Daí que esta aposta não seja recomendável para os investidores com perfil mais conservador.

Em Portugal, todos os bancos "online" dispõem de contas em dólares. O Best comercializa uma conta a prazo com taxas que variam entre 3,4% e 3,6%, enquanto o Activobank7 e o Banco BiG não têm uma remuneração ‘standard’ para os depósitos. Esta é atribuída de acordo com o montante e o prazo da aplicação desejada.

Fundos de Investimento

O recurso a fundos de investimento pode revelar-se uma estratégia adequada, confiando o seu dinheiro a profissionais. Existem duas estratégias. Uma é investir em fundos de tesouraria denominados em moeda estrangeira. A maior parte investe no mercado monetário do dólar. Mas também é possível encontrar produtos em francos suíços e outras divisas. Nos últimos 12 meses, os fundos em dólares têm um retorno médio de 13%. Outra possibilidade são os fundos do mercado cambial de retorno absoluto. Estes produtos investem num cabaz de moedas, depósitos e obrigações, procurando obter um retorno acima das taxas de juro de curto prazo. A rendibilidade média, nos últimos 12 meses é negativa em 0,2%. A maior oferta destes fundos encontra-se nos bancos "online", como o Best, BiG e ActivoBank7.

Certificados e "warrants"

Os bancos oferecem uma gama de produtos mais agressivos, como os certificados ou os "warrants". Os certificados são instrumentos financeiros que têm como subjacente um determinado activo, cujo desempenho no mercado replicam. Face aos fundos, oferecem a vantagem de permitir investir com montantes muito baixos e terem uma elevada liquidez, já que são transaccionados em mercados de bolsa. O Best comercializa um certificado, o ABN Amro USD Money Market, que permite estar exposto à valorização do dólar face ao euro.

Os "warrants" representam um salto na escala de risco, já que envolvem alavancagem. Ou seja, o potencial de retorno ou perda do investimento é superior à variação do activo que lhe está subjacente. Tal como os certificados, os "warrants" têm um prazo de maturidade, elevada liquidez e permitem aplicar montantes baixos. Para apostar na subida de uma moeda, terá de adquirir um "call warrant". A generalidade dos bancos e corretoras "online" disponibilizam plataformas para a negociação destes produtos.

Mercado cambial

Através do mercado cambial – Forex – os investidores podem comprar e vender pares cambiais, como o euro/dólar, directamente no mercado, à cotação actual. Os bancos e corretoras disponibilizam plataformas de negociação "online" com vários pares cambiais, sendo exigida a abertura de uma conta com um saldo mínimo. O investimento é realizado com base numa margem, que permite, por exemplo, estar exposto a um contrato de 100 mil euros com apenas cinco mil. Esta elevada alavancagem pode representar ganhos significativos, mas também perdas, que no entanto podem ser limitadas à margem utilizada. A negociação é, tipicamente de curto prazo. Esta estratégia exige um grande conhecimento por parte do investidor. É necessário um acompanhamento permanente das cotações do mercado cambial, bem como o conhecimento dos dados macroeconómicos.

Dólar reconquista estatuto de moeda refúgio, com crise a agravar-se e diferencial de juros a diminuir

Economistas esperam que a moeda americana continue a valorizar

1) Depois da valorização dos últimos meses, ainda há margem para nova subida do dólar face ao euro? Porquê?

2) Quais os principais "drivers" da moeda americana e quais os potenciais riscos?

3) Que outras moedas, entre as principais economias da OCDE, têm perspectivas de valorização face ao euro a médio prazo?

4) Que factores justificam essa tendência?


BPI
Agostinho Leal Alves, analista financeiro


1) Com o arrastar da crise, o agravamento da aversão ao risco e da turbulência financeira, bem como a alta volatilidade e a maior incerteza, o dólar reconquistou, nos últimos meses, o papel de moeda refúgio. O mercado tomou consciência que estava a ser encarado com demasiado optimismo o futuro económico da Zona Euro.

De facto, confirmou-se que a Europa não estava à margem da crise. A crise do "subprime" e dos chamados produtos tóxicos minaram a solidez de importantes instituições financeiras europeias, que tiveram de ser socorridas estatalmente perante o espectro da falência. Acrescem as consequências na economia real, sendo o cenário de curto e médio prazo de maior alinhamento com a forte contracção económica americana.

Assim, o euro desceu do máximo histórico, em $1,6038, alcançado em Julho, face ao dólar, para valores na casa dos $1,23. O câmbio do euro face ao dólar evolui dentro de um intervalo largo de consolidação, que variou nos últimos dias entre $1,23 e $1,33, procurando um nível de equilíbrio.

Possivelmente, nos próximos dias, este espaço será suficiente para ver a volatilidade diária ao sabor dos dados económicos divulgados dos dois lados do Atlântico.

Informações que têm confirmado o pior dos cenários esperados para os EUA e a Zona Euro: quebras acentuadas de produção e vendas, diminuição do consumo e do investimento, aumento do desemprego e confiança dos agentes económicos em níveis mínimos. Num período de tempo mais alargado poderemos continuar a assistir à descida do euro face ao dólar, com a confirmação da severidade da contracção na Zona Euro e da necessidade de uma política monetária expansionista. Deverá assistir-se a um movimento rápido de descida das taxas do BCE, diminuindo o diferencial de juros entre dólar e euro.

2) As previsões apontam para uma contracção económica nos EUA em 2009, mas o facto do país liderar este ciclo fará com que o possa inverter em primeiro lugar. Pelo menos é esta a perspectiva dos mercados. Por outro lado, o forte movimento de correcção do preço das "commodities", sobretudo do preço do petróleo, deu espaço a um movimento semelhante no euro/dólar. Os riscos prendem-se exactamente com a não confirmação do surgimento, em meados de 2009, de sinais mais positivos da economia americana, depois de alcançado o patamar mínimo. Tudo dependerá do ritmo de recuperação da actividade e da restauração da confiança dos agentes económicos. O movimento social que rodeou a eleição do Presidente Barack Obama poderá ajudar a encontrar um novo dinamismo, esperando-se também medidas económicas concretas por parte do novo presidente americano, nomeadamente a ajuda à classe média e o aumento do rendimento das famílias mais necessitadas. A nova política fiscal prometida será outro factor dinâmico. O facto de o preço das "commodities" poder estabilizar pode vir também a tirar força à continuação da tendência de subida do dólar.

3 e 4) A questão poderá ser vista de forma global. O euro tem perdido para a generalidade das moedas, corrigindo os ganhos obtidos, quando durante algum tempo foi refúgio de um mercado agastado com a crise financeira ainda centrada nos EUA e que penalizou de forma acentuada o dólar. Com a globalização da crise, não nos parece que alguma moeda dos países pertencentes à OCDE possa sobressair de forma significativa. O abrandamento económico vai contagiar todas as áreas, sendo já visível a convergência na decisão de descida de taxas de juro. Poderia mencionar-se o iene e o franco suíço, que têm sido beneficiados com a forte aversão ao risco instalada nos mercados financeiros. No entanto, depois do movimento acentuado de apreciação destas moedas em relação ao dólar e ao euro, poderá surgir futuramente uma evolução mais tranquila, de acordo com o desejo das autoridades.


Millennium bcp
José Brandão de Brito, responsável pelo "research" de Mercados Financeiros do Millennium Investment Banking


1) e 2) Consideramos que o dólar se irá continuar a apreciar ainda mais, por duas ordens de razões. Em primeiro lugar, o diferencial de taxas de juro deverá continuar a evoluir favoravelmente ao dólar, uma vez que a Fed já está perto do fim do ciclo de descida de taxas de juro, enquanto os demais principais bancos centrais ainda têm muitos cortes para efectuar (BCE, Banco de Inglaterra, Banco do Canadá, Banco de Reserva da Austrália, etc). Em segundo, em situações de grande debilidade da economia global, como a presente, o dólar é o activo de refúgio por excelência, fenómeno que decorre do estatuto hegemónico da economia americana no mundo.

3) e 4) Iene, franco suíço e coroa norueguesa. A percepção de que a crise financeira se iria transformar numa grave crise económica pôs fim à principal estratégia de investimento no mercado cambial que prevaleceu durante a fase expansionista do actual ciclo económico: o "carry trades", ou seja, endividamento em moedas de baixas taxas de juro (tipicamente o iene e o franco suíço) e aplicação em moedas com elevadas taxas de juro (moedas dos mercados emergentes, dólares australiano e neozelandês, etc). A reversão dos "carry trades" repercutiu-se numa apreciação do iene e do franco suíço e a correspondente desvalorização das moedas com taxas de juro mais elevadas. Como a nossa perspectiva é de prolongamento do estado recessivo da economia mundial, consideramos que o "anti-carry trade" irá prosseguir, levando à valorização do iene e do franco suíço. Relativamente à coroa norueguesa, consideramos que a depreciação ocorrida não se justifica, uma vez que a situação macroeconómica é das mais robustas da OCDE, o sistema bancário é dos mais sólidos e menos afectados pela actual turbulência, e o estado dispõe de recursos quase ilimitados para suportar a economia através do fundo de estabilização. Esta moeda oferece grande potencial numa perspectiva de médio prazo.


Ver comentários
Outras Notícias