Investidor Privado Moeda a moeda

Moeda a moeda

Ensinar as crianças a lidar com o dinheiro pode ser um desafio para os pais, mas ajuda a formar adultos financeiramente responsáveis. Incentive-as a poupar, a gerir a semanada e, acima de tudo, dê o exemplo...
Moeda a moeda
Ana Pimentel 09 de abril de 2010 às 09:30

Ensinar as crianças a lidar com o dinheiro pode ser um desafio para os pais, mas ajuda a formar adultos financeiramente responsáveis. Incentive-as a poupar, a gerir a semanada e, acima de tudo, dê o exemplo


"É fundamental começar a falar de dinheiro às crianças desde muito cedo", diz Susana Albuquerque, secretária-geral da ASFAC - Associação de Instituições de Crédito Especializado. A altura ideal para começar a explicar aos mais novos a diferença entre desejos e necessidades é por volta dos 2 anos: quando começam a pedir "compra-me isto".

O exemplo dos pais é essencial nesta tarefa. "Daí a importância do comportamento dos educadores e da não transmissão de crenças e mitos associados ao dinheiro que geram medo e sentimentos de culpa", explica. Só assim as crianças desenvolvem uma relação saudável com o dinheiro, conseguem ser auto-suficientes financeiramente e atingir a maturidade financeira.

"Falar desde cedo com as crianças pode ajudar a que tenham uma maior consciência dos limites, de acordo com o que têm disponível", acrescenta Catarina Rivero, psicóloga e terapeuta familiar. Até porque as pessoas tendem a trazer para a sua vida financeira os hábitos familiares dos pais e, se o dinheiro não for falado naturalmente no seio familiar, é preciso trazer o tema "à mesa".

"Quanto mais cedo forem transmitidos os conceitos de poupança e educação financeira, mais fácil será 'resistir' à sociedade do consumo e criar hábitos saudáveis de gestão financeira", comenta Pedro Carrilho, director da Kash, empresa de formação especializada na Educação Financeira. Para o autor dos livros "O Seu Primeiro Milhão" e "O Primeiro Milhão para Casais" é preferível errar com pouco dinheiro do que fazê-lo mais tarde e sofrer consequências maiores.

Envolver as crianças nas compras do dia-a-dia e explicar-lhes o porquê de algumas decisões é "meio caminho andado" para gerirem melhor as suas finanças pessoais, no futuro. Por isso, é importante explicar algumas expressões financeiras como a de que o dinheiro representa um valor, é um recurso escasso e limitado e, por vezes, há que adiar o consumo. "São importantes para promover comportamentos mais adequados na vida adulta", adianta Sandra Lopes, do Gabinete de Orientação ao Endividamento dos Consumidores (GOEC).

Catarina Rivero considera que a atribuição da mesada pode ser um excelente recurso para a criança criar uma relação saudável e positiva com o dinheiro, desenvolvendo competências ao nível da gestão das suas finanças, "fundamentais para a vida adulta".

As finanças também se aprendem
No que toca à educação financeira portuguesa, António Júlio de Almeida, presidente da Sefin - Associação Portuguesa dos Utilizadores de Serviços e Produtos Financeiros garante que ainda há muito a fazer. "Portugal será dos poucos países europeus que não tem, neste momento, qualquer plano de características nacionais ou programas consistentes dirigidos à educação financeira", diz.

Para António Júlio de Almeida, a responsabilidade de assegurar a educação financeira das crianças e jovens deve ser múltipla: dos pais, professores e autoridades da educação. Programas de formação financeira, criação de "sites", lançamento de contas de poupança para jovens, programas de formação de professores são exemplos de iniciativas que podem ser tomadas para promover a educação financeira das famílias, professores, crianças e jovens.

Os riscos da vida moderna, como o desemprego, necessidade de prevenir a velhice e o risco de reformas que não permitem manter o nível de vida, exigem conhecimentos financeiros que permitam prever as consequências destas situações. "Hoje, é consensual que uma maior educação financeira não só teria contribuído para uma menor dimensão da actual crise, como também teria atenuado a gravidade das suas consequências sobre as famílias e empresas."

Uma coisa é certa: cada criança é única e, se os pais são quem melhor conhece os filhos, só estes saberão como adaptar estratégias adequadas às suas características. De qualquer modo, "quanto mais concreta e palpável for a nossa explicação sobre o mundo financeiro melhor a criança o compreenderá", explica Susana Albuquerque.

As semanadas e mesadas "são o melhor instrumento de educação financeira - conhecido até à data - desde que os pais as utilizem para monitorizar e avaliar a gestão que as crianças fazem do seu dinheiro, com uma atitude pedagógica e não crítica", acrescenta.





A arte de bem educar

A psicóloga e terapeuta familiar Catarina Rivero ajuda-o a educar financeiramente os seus filhos, em 8 passos.

1. O dinheiro não é um prémio
A criança deve compreender que o dinheiro faz parte da sua educação e que os pais confiam nela ao ponto de lhe atribuírem a responsabilidade de gerirem as suas despesas diárias. "Se é importante para o seu desenvolvimento emocional que a criança se sinta valorizada, é fundamental que tal não seja através de bens materiais mas sim de afecto, encorajamento e elogios."

2. Todos ajudam
Promova a participação da criança, desde cedo, nas tarefas domésticas e familiares. Isto fará com que o seu sentimento de pertença à família aumente, bem como a sua responsabilidade. Dar dinheiro a uma criança ou adolescente por lavar a loiça ou fazer a cama perverte a noção de responsabilidade pelas tarefas que todos têm no seio familiar.

3. Espaço de partilha
Crie um espaço em que pais e filhos falem das diferentes opções tomadas, respectivas consequências, elogiem os momentos de sucesso e aprendam com os erros. Isto ajudá-los-á a desenvolver um sentido de justiça e responsabilidade, que lhes permite considerar de forma adequada a relação com os pais, reconhecendo e agradecendo o seu apoio em detrimento de exigência de mais dinheiro ou chantagem.

4. Seguir o exemplo
As crianças seguem os pais como modelos e tentam reproduzir os seus comportamentos. Se os filhos participarem nas conversas sobre as despesas familiares, percebem que o dinheiro se esgota, que os pais abdicam de comprar certo produto para pouparem ou investirem em algo mais importante para a família e que evitam fazer compras por impulso. É "meio caminho andado" para que sigam o seu exemplo.

5. Dizer "não"
As crianças pedem muita coisa: não dê tudo. Quando vão a um centro comercial ou supermercado evite ceder a todos os impulsos. "É natural, numa sociedade em que o tempo familiar é cada vez mais curto, que os pais tendam a procurar, de algum modo, compensar a sua ausência. Contudo, essa compensação só faz sentido se for através de carinho, afecto, atenção e diálogo."

6. Para quem mais precisa
Ajude as crianças a escolherem brinquedos e roupas que já não usam para oferecerem a uma instituição de solidariedade social. Esta estratégia permite que criem uma visão social e de sentido de justiça, com menor apego aos bens materiais e maior bem-estar por contribuírem para a sociedade.

7. Evite adiantamentos
Quando a criança esgotar a mesada antes do tempo, é importante evitar a tendência para "adiantamentos". Assim, ela não fica com uma ideia errada do dinheiro e cria a necessidade de fazer uma boa gestão. Mesmo que fique ansioso, lembre-se que os bens essenciais estão garantidos. "Dizer um 'não' pode ser um desafio para os pais, mas é, muitas vezes, uma excelente forma de as crianças crescerem com noção de que a realidade tem limites."

8. Bê-á-bá das finanças pessoais
O último conselho vem de Pedro Carrilho: ensine a criança a fazer uma lista com os seus gastos, guardando as despesas mensais numa folha. Este bê-á-bá das finanças pessoais é o registo das entradas e saídas de dinheiro. Só assim percebem quanto dinheiro custa cada coisa, quanto gasta.



Gerir o dinheiro: quando e quanto?

Descubra a idade certa para promover a gestão financeira nos seus filhos.


Não há uma idade fixa para começar a dar semanada ou mesada. A partir dos 5 ou 6 anos já se pode dar um valor certo por semana, para ajudar as crianças a crescer, na sua educação financeira, por tentativa e erro, segundo Pedro Carrilho. "Nessa altura, não é pela necessidade de dinheiro, mas sim pelo equilíbrio e aprendizagem que possibilitam", explica. O objectivo é ajudar as crianças a desenvolver um espírito de poupança e a familiarizarem-se com o valor dos bens. "Quanto mais novas são" mais importante se torna o facto de receberem dinheiro com alguma regularidade. À medida que se aproximam da adolescência, vale a pena passar para as mesadas.

"A partir dos 7 anos, a criança já é capaz de compreender as opções feitas tendo em conta as necessidades humanas e contexto das situações", acrescenta Catarina Rivero. É por esta altura que entram numa "moralidade autónoma". Contudo, é a partir da pré-adolescência (10-11 anos) que as crianças começam a ter uma maior independência e a pedir dinheiro mais frequentemente. Nesta fase, a mesada ou semanada farão a diferença no modo como a relação com o dinheiro é desenvolvida. A maturidade da criança é um aspecto a ter em conta. Esta deve receber semanada quando compreende conceitos básicos de cálculo. "Talvez entre os 8 e 10 anos, pois é nessas idades que, na escola, terão que gastar dinheiro na obtenção de alguns materiais escolares e mesmo na refeição que têm de pagar", adianta Sandra Lopes. Na transição das semanadas para as mesadas, a criança deve fazer 4 orçamentos semanais para gerir a mesada, depois passa a dois, e, por último, a um orçamento mensal. O conselho vem de Susana Albuquerque, que acrescenta que deve ser incluída uma parte destinada à poupança. Quanto ao valor, esse varia consoante a família. "A melhor forma de decidir quanto dar passa por analisar o clima económico da escola ou zona de residência das crianças", aconselha Pedro Carrilho. Regra geral, a mesada destina-se a gastos diários de lanches, revistas ou colecções que a criança goste de comprar, de acordo com Catarina Rivero. Se incluir uma actividade que a criança frequente ou o dinheiro gasto com o telemóvel, ajuda a desenvolver um maior sentido de responsabilidade.