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O fascínio pelo ouro

O contínuo apelo do ouro como um porto seguro saiu reforçado num ano fortemente marcado pela turbulência nos mercados, a mais grave desde o colapso de 2008.

O fascínio pelo ouro
Evy Hambro 16 de Janeiro de 2012 às 11:30
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O contínuo apelo do ouro como um porto seguro saiu reforçado num ano fortemente marcado pela turbulência nos mercados, a mais grave desde o colapso de 2008. A revisão em baixa da notação do crédito dos Estados Unidos de AAA, em Agosto, e a crise da dívida na zona euro deixou os investidores a questionar-se se as obrigações, e até mesmo a liquidez, continuam a ser investimentos de "qualidade".

Perante a incerteza poucos ficaram surpreendidos quando o ouro atingiu um novo máximo nominal de mais de 1900 dólares por onça após a revisão em baixa dos Estados Unidos e os receios de incumprimento por parte da Grécia.

O preço do ouro aumentou de cerca de 1400 dólares por onça no início de 2011 registando actualmente uma subida de mais de 20%. O ouro já duplicou em valor, desde a crise financeira de 2008, quando era negociado a 800 dólares, devido principalmente à procura crescente por investimentos seguros. Acreditamos que existe uma série de factores que sustentam a visão de que o ouro irá manter a sua atractividade enquanto 'porto seguro', por mais algum tempo.

Em primeiro lugar, a ameaça da inflação parece destinada a sustentar o fascínio pelo ouro como uma protecção contra ela. A inflação é frequentemente vista como uma razão para se comprar Ouro, sobretudo porque as pressões inflacionistas, desde a década de 1990, têm sido favoráveis nos países desenvolvidos. Observa-se que, a nível mundial, os preços estão a subir liderados pelo sector alimentar e pela energia, tendo presente que os esforços para relançar as economias através de programas de "quantitative easing" são inflacionários na natureza.

Em segundo lugar, parece não existir uma solução evidente para a crise da dívida na Zona Euro e os receios persistirão até que uma solução credível para a dívida, défices, resgates e o próprio projecto da moeda única seja encontrada.

Em terceiro lugar, a procura pelo ouro físico permanece forte, particularmente nos mercados emergentes. A procura por joalharia na China aumentou cerca de 13% no terceiro trimestre, em relação ao mesmo período de 2010, para 131 toneladas no valor de 46 mil milhões de yuans (7,3 mil milhões de dólares americanos) e a procura de barras de ouro e moedas aumentou cerca de 24% para 60,2 toneladas. Esta mudança foi, em parte, impulsionada pela queda nos mercados imobiliários asiáticos que deixou muitos investidores da região à procura de uma reserva de valor, e também de uma protecção contra a inflação (que em Outubro era 5,5% na China e 9,7% na Índia). A procura mundial de Ouro cresceu 6% no terceiro trimestre para 1054 toneladas no valor de 57,7 mil milhões de dólares americanos, um recorde histórico em termos de valor.

Destacam-se, igualmente, as compras de ouro efectuadas este ano pelos bancos centrais, com a Turquia, a Tailândia e a Bolívia a juntarem-se às fileiras de outras nações em desenvolvimento que procuram aumentar as suas reservas nacionais de ouro. As vendas de ouro de Hong Kong à China (um indicador aproximado da procura total Chinesa) aumentaram 600% em Setembro, em comparação com 2010. No mundo desenvolvido, a Coreia do Sul adquiriu, no passado mês de Agosto, 25 toneladas de barras de ouro, a primeira vez em 13 anos.

No total os bancos centrais adquiriram cerca de 148,4 toneladas de ouro no terceiro trimestre. Enquanto isso, a produção mineira tem procurado crescer, mas a oferta global apenas aumentou 2% no terceiro trimestre para 1034 toneladas (o que, claramente, não responde à procura crescente do ouro), não se avizinhando aumentos exponenciais na oferta.

Quais são, então, os aspectos negativos do ouro? Uma inflação mais baixa ou uma subida das taxas de juros reais reduziria o apelo do ouro, mas a necessidade de se estimular a economia sugere que dificilmente se optará por este cenário. De facto, o Banco Central Europeu reduziu sua taxa de juro de base de 1,25% para 1,00%, no passado dia 8 de Dezembro, e a Reserva Federal Norte Americana continua empenhada em taxas "próximas de zero". A taxa de juro de base do Reino Unido situa-se nos 0,5%, desde Março de 2009, enquanto que a taxa de inflação é dez vezes superior.

O preço do ouro em dólares americanos envolve algum risco cambial na medida em que o preço do ouro tende a descer quando a cotação do dólar sobe, e vice-versa. A valorização do dólar, contra as principais moedas, desde o final de Outubro, tem influenciado o preço do ouro, mas mesmo assim, os factores que impulsionaram a subida do ouro nesta década continuam muito presentes. Nesse sentido, os investidores podem sair beneficiados ao considerarem o metal amarelo na construção de uma carteira de investimentos.



Gestor do BGF World Gold e Chefe da Equipa de Recursos Naturais da BlackRock


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