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Recessão inevitável nas economias ocidentais

O ano será marcado por contracções na actividade económica e subidas de desemprego na maioria das economias ocidentais, Portugal incluído.

Rui Peres Jorge rpjorge@negocios.pt 02 de Janeiro de 2009 às 10:00
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O ano será marcado por contracções na actividade económica e subidas de desemprego na maioria das economias ocidentais, Portugal incluído. Talvez no final de 2009 o horizonte pareça menos carregado, dizem alguns especialistas que, no entanto, não arriscam apontar para uma luz certa ao fundo no túnel. Por agora, os olhos estão postos nos governos e nos impactos dos seus planos anti-crise.


As várias previsões económicas coincidem na ideia de que uma recessão nas principais economias desenvolvidas parece inevitável em 2009. E, ao mesmo tempo que afastam o cenário de depressão, ninguém espera uma retoma significativa da actividade económica antes de 2011.

Como não se cansou de repetir nos últimos meses Jean-Claude Trichet, presidente do BCE, a incerteza permanece "invulgarmente elevada". Incerteza sobre quando regressará a confiança aos mercados financeiros, incerteza sobre a extensão dos impactos desta crise na actividade económica e incerteza sobre a eficácia dos vários planos anti-crise apresentados pelos governos.
Nos EUA, Barack Obama propõe-se a um plano que poderá chegar aos 550 mil milhões de euros, entre apoios fiscais e investimento público, com o objectivo de criar cerca de três milhões de postos de trabalho que estabilizem o desemprego - que está no nível mais alto de quinze anos.

Na Europa, a Comissão Europeia incentivou os Estados-membros a apontarem para uma factura conjunta de 200 mil milhões de euros, financiados por um valor médio de 1,5% do PIB de cada país. Apesar das reticências iniciais de alguns Estados-membros, Alemanha à cabeça, tudo indica que o valor será atingido, dada a velocidade da degradação da conjuntura. Várias previsões apontam para um crescimento de -3% na maior economia da Europa. Em Espanha, Zapatero, apesar dos cinco planos anti-crise, deve esperar uma taxa de desemprego acima de 15%.
Por cá, o Governo apresentou um plano para o investimento e emprego que prevê uma despesa do Estado em 2009 na casa dos 2,2 mil milhões de euros, ou 1,25% do PIB.

Mas apesar de todos os planos, anúncios e milhões, as perspectivas continuam sombrias e as instituições mantêm o tom de preocupação. A semana passada Angel Gurria, secretário geral da OCDE, veio avisar para a provável perda, até 2010, de 8 a 10 milhões de postos de trabalho no mundo nos países desenvolvidos. "Encara-se uma recuperação no final de 2009 e um crescimento fraco no decorrer de 2010", afirmou.

A OCDE, responsável pelas últimas previsões por país, publicadas no final de Novembro, espera crescimentos entre -1,1% e -0,6% para EUA, Zona Euro, Reino Unido, Alemanha e Espanha. Para Portugal apontou para -0,2%, sinalizando que o fraco crescimento dos últimos anos e inexistência de uma bolha na construção deverá evitar uma contracção semelhante à europeia.

Estes são valores que estão em linha com os que FMI publicou no início de Novembro, mas que a instituição já sinalizou que deverá rever em baixa. Em declarações à rádio BBC na semana passada, Dominique Strauss-Kahn, o director-geral da instituição afirmou: "estou especialmente preocupado pelo facto da nossa previsão, já muito negra, poder vir a ser ainda mais negra se não forem implementados estímulos fiscais suficientemente fortes".

A tornar a situação mais preocupante está o impacto já visível da crise em economias em desenvolvimento, especialmente a Rússia, o Brasil e a China. De tal forma que o FMI esperava que o PIB mundial cresça bem abaixo (2,2%) do limite de 3% a que a instituição associa o cenário de recessão mundial.

Neste cenário, ninguém arrisca apontar uma luz ao fundo do túnel. Até lá, provavelmente o melhor conselho será o dado a semana passada por Nouriel Roubini, um dos economistas que desde cedo avisou para a gravidade da actual crise: "dinheiro e outros activos semelhantes como as obrigações do Estado são a aposta mais segura para os próximos meses". A meio de 2009 logo se verá.


Cinco factores a ter conta

1 Resultados anuais das empresas cotadas
As expectativas para os resultados das empresas em 2008, que serão apresentados até ao final do primeiro trimestre de 2009, são muito más. O JPMorgan estima que os lucros das empresas do Standard & Poor's 500 caiam mais de 30% este ano, face a 2007, e, na Europa, a queda deverá ser semelhante. A boa notícia é que o mercado já descontou a maior parte desta previsões no valor das empresas pelo que, quando os resultados começarem a ser divulgados e a confirmarem-se as previsões, o impacto não será tão forte. Já se as previsões forem menos pessimistas do que a realidade, isso pode contribuir para animar o mercado. Se a realidade for ainda pior do que o previsto, então há razão para pensar que a recuperação ainda está longe de chegar. Certo é que todos esperam que seja em 2009 que o ciclo de quebra nos resultados bata no fundo. MJS

2 Os efeitos das políticas dos governos e dos bancos centrais
A rapidez com que os planos anti- -crise dos governos se vierem a sentir na economia será decisiva em 2009. Do lado de cá do Atlântico, os vários Executivos têm anunciados planos com estratégias e dimensões diferentes, também porque as várias economias estão a sofrer em diferentes graus (ver ponto 5). As armas utilizadas são as disponíveis: baixas de impostos, aumentos de gastos sociais e de investimento público, este último a principal aposta do governo português. Nos EUA a receita é a mesma, mas em dimensão "XL". Enquanto o plano europeu anti-crise aponta para 1,5% do PIB, Barack Obama deverá apontar para valores acima dos 4%. Importantes serão as decisões dos bancos centrais quanto a juros.
A Europa tem mais margem de manobra: a Fed terminou 2009 com a taxa central muito próxima de zero, enquanto o BCE a mantém nos 2,5%.

3 Matérias-primas nas mãos da economia
Durante boa parte de 2008 foi a economia que esteve nas mãos das matérias-primas, com a subida dos preços, em particular do petróleo e alimentos, a fazer subir a inflação e diminuir o rendimento disponível. A ameaça de uma recessão global inverteu este cenário. Depois de sete anos de fortes valorizações, o panorama para 2009 é sombrio na óptica do investimento nesta classe de activos. Desta feita, a queda dos preços das matérias-primas acentua a perspectiva de uma deflação. O petróleo, por exemplo, depois de atingir máximos históricos acima dos 147 dólares em Julho, poderá cair para os 25 a 30 dólares por barril no próximo ano. Os baixos preços também estão a levar a um menor investimento por parte das petrolíferas, o que, a prazo, poderá fazer disparar os preços já que o ritmo de exploração de novos recursos é insuficiente. CP

4 Rendimento dos dividendos a marcar o passo das acções
O "tsunami" vivido em 2008 faz com que, no próximo ano, os investidores procurem assegurar algum rendimento perante a elevada incerteza. E porque as acções são, naturalmente, os activos mais voláteis, é expectável que as empresas venham a procurar compensar esta maior instabilidade dos preços das acções oferecendo dividendos mais elevados. Os analistas estão, assim, convictos que as taxas deste tipo de remuneração paga pelas empresas aos accionistas vão aumentar no ano que se avizinha. Alguns bancos de investimento, como o americano Merrill Lynch ou o holandês ING, estimam um aumento de 20% dos dividendos em 2008. A expectativa geral é de que os títulos com mais risco, quer seja pela sua menor dimensão em bolsa ou liquidez mais reduzida, sejam os que tenham o retorno de dividendos mais alto. MJS

5 Aumento do desemprego: uma face real da crise
O retrato da crise ganha outros contornos quando se olha para as taxas de desemprego esperadas. Espanha será das economias mais massacradas: a taxa de desemprego, que em 2007 foi de 8%, poderá chegar aos 16% em 2009. No Reino Unido, também a braços com uma severa crise no sector imobiliário, a taxa de desemprego, actualmente nos 6%, poderá saltar para os 9%, uma evolução também esperada para os EUA. Alemanha e Portugal esperam aumentos menores. No caso da maior economia europeia, a taxa deverá aumentar dos 7 a 8% deste ano para algo acima dos 9% em 2009, enquanto para Portugal se espera que o desemprego suba um ponto para a casa dos 8,5% a 9%. Estes valores significam que os orçamentos das famílias vão estar muito pressionados - significam também aumentos dos gastos dos Estados com apoio social.


Onde colocar o dinheiro

O ano que agora finda deixou marcas dolorosas nas carteiras de muitos investidores. E o próximo ameaça não ser diferente. Mas os analistas acreditam que, até ao final de 2009, há boas hipóteses de uma inversão aos primeiros sinais de recuperação. O UBS lançou-se ao desafio de construir uma carteira para o próximo ano. O exercício, ilustrado no gráfico ao lado, parte do peso que os diferentes activos têm no mercado. Esse é o chamado "benchmark", ou indicador de referência. O "tsunami" de más notícias que espera os investidores nos primeiros meses do próximo ano aconselha cautela. Por este motivo, o banco de investimento suíço não foge muito aos pesos normais. Nas acções há uma ligeira sobreponderação, sobretudo nos EUA, levando esta classe a "ocupar" mais de metade da carteira. Mas alerta que os resultados do último trimestre de 2008 serão importantes para perceber se o mercado accionista está mesmo barato. A redução no "stock" de dívida e a elevada rentabilidade, leva o banco de investimento suíço a recomendar as obrigações de empresas. À medida que surgirem sinais de uma recuperação, o UBS propõe aumentar o peso destas classes. Já para a dívida pública, a posição é neutral. No imobiliário e matérias-primas é esperada uma continuação da queda dos preços, o que leva o UBS a adoptar uma perspectiva negativa. Os depósitos e fundos de tesouraria, com rendibilidades reais abaixo da inflação, são os grandes preteridos pela equipa de estrategas do banco suíço.

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