Matérias-Primas Clube de elite dos diamantes está a desmoronar-se

Clube de elite dos diamantes está a desmoronar-se

No mundo do comércio de diamantes, fazer parte do grupo de compradores de elite da De Beers é considerado essencial para alcançar sucesso e ganhar dinheiro. Agora, já não é tão fácil.
Bloomberg 03 de agosto de 2019 às 15:00

É um dos clubes mais exclusivos do mundo, chamado ao longo dos anos como "Syndicate", "Central Selling Organization" e ‘Diamond Trading Company".

 

Durante mais de um século, a De Beers vendeu a maior parte dos seus diamantes brutos para um número seleto de clientes, uma lista que diz quem é quem no obscuro mundo do comércio de pedras preciosas. A Tiffany & Co., Graff Diamonds e Signet Jewellers possuem filiais neste grupo, garantindo uma oferta constante de gemas com o pedigree de serem examinadas pela De Beers.

 

No mundo do comércio de diamantes, fazer parte do grupo de compradores de elite da De Beers é considerado essencial para alcançar sucesso e ganhar dinheiro. Agora, já não é tão fácil.

A De Beers vende as suas pedras preciosas em 10 ofertas por ano em Gaborone, capital de Botswana, e os compradores - conhecidos como "sightholders" - aceitam o preço e as quantidades que lhes são oferecidas. Este sistema teve início na década de 90 e foi pensado para beneficiar tanto a mineira vendedora como o cliente, que recebe os diamantes com uma taxa de desconto.

 

Mas o desconto foi diminuindo. Nalguns casos, os preços saíram mais altos do que a taxa de negociação vigente, forçando os clientes a vender com prejuízo. Alguns sightholders estão agora a enfrentar dificuldades para ganhar dinheiro com um negócio que já foi altamente rentável.

 

Há dois problemas no setor de diamantes. As vendas de joias de alta qualidade estão estagnadas, já que outras ofertas de luxo, como sapatos, bolsas e férias em resorts estão a fazer concorrência. Empresas que comercializam diamantes também têm mais dificuldade em encontrar financiamento, porque os bancos estão a abandonar o setor depois de serem afetados por fraudes e empréstimos que não foram reembolsados.

 

"Não é um momento fácil, não vou fingir que é e não vou fingir para meus clientes que é", disse o presidente da De Beers, Bruce Cleaver. O gestor argumenta que a procura continua sólida e que os millennials vão querer ter diamantes tal como os seus pais e avós.

 
Relação tensa

A De Beers diz que também está gastar mais em marketing e a melhorar a cadeia de fornecimentos, no âmbito dos esforços para mostrar que os diamantes não estão a alimentar conflitos ou abusos dos direitos humanos.

 

Ainda assim, a relação entre a De Beers e seus sightholders agora é tensa, já que a empresa mantém os preços altos mesmo que isso signifique vender menos pedras.

 

É uma transformação para um setor onde ser um dos compradores escolhidos era considerado a maior conquista. Tornar-se um sightholder era algo tão cobiçado que algumas das coleções de arte da De Beers, que decoram os corredores da sua sede perto da Trafalgar’s Square, em Londres, incluem obras de David Hockney e Damien Hirst - presentes de clientes que esperavam agradar a companhia mineira.

 

Numa entrevista ao Financial Times em 2015, Laurence Graff, presidente da Graff, dizia que "quem quiser ter sucesso com diamantes, tem de estar o mais próximo possível" da De Beers.

 

Uma constatação que agora é menos verdadeira. Para os cerca de 80 compradores que operam na Bélgica, Israel, Índia e outros países, as margens de lucro na negociação de diamantes ficaram mais magras ou desapareceram. Muitos sightholders frustrados estão a recusar comprar aos preços atuais.

 

É impossível saber quanto estão a perder alguns clientes destas empresas. Para as retalhistas, como a Graff e a Tiffany, negociar e polir diamantes é apenas uma pequena parte do seu negócio e por isso são menos afetadas.

 


Para as muitas empresas especializadas neste segmento, os problemas têm sido de maior dimensão. Algumas já abandonaram o negócio de transação de diamantes e a Eurostar Diamonds, antes uma das maiores compradoras de diamantes em bruto, declarou falência no início deste ano.

Com os seus clientes em dificuldades, a De Beers também está a sofrer financeiramente. A holding que a controla, a Anglo American, viu os lucros do primeiro semestre descerem quase 30%. As vendas ficaram cerca de 500 milhões de dólares abaixo dos períodos homólogos dos últimos três anos.

 
Tempestade perfeita

O preço dos diamantes em bruto desceu cerca de 6% este ano, enquanto as pedras polidas ficaram cerca de 1% mais baratas, de acordo com a Polishedprices.com.

Os sightholders enfrentam margens de lucro mais baixas quando compram diamantes à De Beers. A taxa de desconto deste ano está nos 3%. Nalguns casos tem descido para apenas 1% e várias vezes o preço que é pago pelos diamantes em bruto é superior ao que valor que depois recebem quando vendem no mercado secundário, salientam várias fontes da indústria.


Além da descida das margens, os sightholders ainda pagam uma comissão de cerca de 1,5% à De Beers e taxas entre 0,5% e 1% aos brokers.


Trata-se de uma alteração de peso face ao que acontecia no final da última década, quando as taxas de desconto ficavam consistentemente acima de 5%.

Para apoiar os compradores dos diamantes, a De Beers adotou procedimentos pouco habituais. Baixou as quotas anuais que são pagas pelos sightholders e permitiu o adiamento nos pagamentos. Ainda assim defende que os preços que cobram continuam a permitir bons lucros aos clientes, caso seja tido em conta o preço médio.


"Tenho consciência que temos que os ajudar a superar a tempestade", diz Cleaver. "Há coisas que poderemos fazer até ao final do ano para impulsionar a procura [de diamantes] e ajudar os clientes a ter um pouco mais de flexibilidade no seu negócio".


Mas as boas notícias escasseiam. O ABN Amro, um dos maiores financiadores desta indústria dos diamantes, escreveu recentemente aos seus clientes a anunciar que já não iria conceder crédito para compra de diamantes em bruto, caso não ficasse claro que o negócio era lucrativo.

"É uma tempestade perfeita: temos muita oferta e a procura não é suficiente", diz Richard Hatch, analista de metais e minérios da Berenberg. "E não vejo potenciais melhorias nos próximos tempos".

Texto original: The Elite Club That Rules the Diamond World Is Starting to Crack




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