Matérias-Primas Matérias-primas agrícolas: Um ano agri-doce

Matérias-primas agrícolas: Um ano agri-doce

2014 foi um ano de grandes disparidades nas matérias-primas agrícolas. Globalmente, os preços estão em queda no acumulado do ano, segundo o índice da Organização para a Agricultura e Alimentação (FAO), que agrega 55 produtos agrícolas. Mas houve fortes subidas, com o café à cabeça.
Matérias-primas agrícolas: Um ano agri-doce
Correio da Manhã
Carla Pedro 31 de dezembro de 2014 às 13:02

Os piores desempenhos de 2014 pertencem à soja, milho e algodão. No entanto, há "commodities" que sobressaem em alta, como é o caso do café, do cacau e do sumo de laranja. O café, aliás, é a grande vedeta em matéria de performance positiva em 2014, com um de ganho de mais de 50%.

 

Os cereais registaram fortes altos e baixos e as últimas subidas não têm sido suficientes para atrair os investidores de volta à agricultura. Só no último trimestre de 2014 saíram cerca de 85 milhões de dólares dos ETF (fundos de investimento negociados em bolsa, que replicam o desempenho dos índices) ligados aos produtos agrícolas, como trigo, soja, milho, café e açúcar, referem os dados compilados pela Bloomberg. No acumulado do ano, essa retirada ascende a 158 milhões de dólares.

 

Apesar de o sub-índice Bloomberg Grains (só dedicado aos cereais) ter disparado 20% desde finais de Setembro, num contexto de aumento da procura das colheitas norte-americanas e de receios de que a Rússia diminua as exportações, no acumulado de 2014 cai cerca de 6%, a caminho do segundo ano consecutivo de desvalorização. Já o sub-índice Bloomberg Agriculture, que agrega o café, milho, algodão, sementes de soja, óleo de soja, açúcar e trigo, cai 6,5% no conjunto do ano.

 

Mas vamos por partes. Como se comportaram estas principais matérias-primas isoladamente, entre cereais, oleaginosas e outros produtos agrícolas?

 

Café regista a maior valorização do ano

 

O café de tipo arábica registou uma subida superior a 50% no acumulado de 2014, no mercado de futuros nova-iorquino ICE. A determinada altura, a valorização anual chegou mesmo a ser superior, apesar de a produção mundial ter excedido a procura pela quinta campanha agrícola consecutiva.

 

Já em Outubro, os preços do arábica registavam um acréscimo de 50% desde o início do ano, depois de a seca ter afectado as plantações e diminuído as perspectivas de rendimento das colheitas no Brasil, que é o maior produtor do mundo. Entretanto, as chuvas fizeram-se sentir, o que ajudou à produção e travou o ímpeto altista nos mercados. Só em Dezembro, os preços caíram mais de 10%.

 

Já o café de tipo robusta somou 13% desde Janeiro, tendo a sua escalada sido penalizada pelo facto de muitos fundos estarem a liquidar as suas posições no final do ano. E prevê-se que este movimento de vendas regresse em Janeiro, segundo as estimativas de Keith Buers, operador do Marex Spectron Group, citado pela Bloomberg.

 

Cacau

 

Os preços do cacau somaram mais de 9% entre Janeiro e Dezembro deste ano. Foi o quarto ano consecutivo de valorização, devido a um défice na produção global face à procura. Esse défice de oferta deveu-se, nomeadamente, às doenças que atacaram os cacaueiros na África Ocidental, à possibilidade de o vírus do ébola chegar ao maior produtor mundial, Costa do Marfim, e também devido à instabilidade política em algumas regiões produtoras.

 

Esta diminuição da oferta de cacau fez disparar os preços nos mercados internacionais, gerando-se algum receio de que um dos seus maiores dependentes, o chocolate, pudesse estar ameaçado de escassez. Mas tal não acontecerá. "Rareando a oferta, a procura faz subir os preços, mas isso é normal e a situação tenderá a estabilizar. Daí a acabar o chocolate vai uma grande diferença", sublinhou ao Negócios o secretário-geral da Associação dos Industriais de Chocolate e Confeitaria (ACHOC), Manuel Barata Simões.

 

 

Sumo de laranja

 

Foi outro – dos poucos – produtos de origem agrícola que esteve em alta no cômputo de 2014. O sumo de laranja, que faz parte dos principais índices de "commodities" agrícolas, fecha o ano com um ganho agregado de 3,7%.

 

O maior produtor de laranjas do mundo, que é o Brasil (seguido de perto pelo Estado norte-americano da Florida), registou uma quebra da produção este ano, sobretudo devido à seca, o que tem sustentado os preços. Recorde-se que São Paulo é o maior Estado produtor de laranjas no Brasil, sendo que este país lidera a produção agregada de citrinos em termos globais.

 

Já na Florida, as temperaturas abaixo do normal também provocaram estragos nas colheitas, o que contribuiu para a subida das cotações deste produto.

 

Açúcar

 

2014 foi um ano pouco doce para esta "commoditiy". O açúcar não refinado caiu 10% no acumulado do ano, naquele que foi o quarto ano consecutivo de descidas. Já o açúcar branco (refinado) recuou 13%.

 

Estas quedas reflectem sobretudo o excesso de açúcar no mercado, com a oferta a suplantar a procura pelo quinto ano consecutivo.

 

Entre os factores de pressão, além do excedente mundial, esteve a debilitação da moeda brasileira, a queda dos preços do petróleo, os subsídios na Índia e as novas refinarias no Médio Oriente.

 

O sector receia que o Brasil – maior produtor mundial – possa continuar a transferir mais cana-de-açúcar para a produção de açúcar do que para o etanol, dada a forte queda dos preços mundiais do petróleo. De facto, os preços mais baixos do petróleo tornam o etanol um pouco menos atractivo, o que poderá incentivar a uma maior produção de açúcar no Brasil, onde a cana pode ser usada para adoçante ou para este biocombustível.

 

Assim sendo, o excedente de açúcar manter-se-á. No entanto, especialistas do sector citados pela Bloomberg têm começado a chamar a atenção para a maior procura de açúcar que começa a observar-se por parte do Médio Oriente. Se a tendência assim continuar, o excesso de açúcar no mercado poderá ser escoado com maior facilidade.

 


Trigo

 

Os preços do trigo nos EUA estão no nível mais baixo dos últimos quatro anos, devido à forte produção. Contudo, as cotações têm subido nas últimas semanas, na esteira dos receios de um período de seca na Austrália e das iniciativas da Rússia para limitar as suas próprias exportações de cereais como forma de evitar que os preços do pão subam muito mais numa altura em que o rublo desvaloriza.

 

Mas esta recente valorização pode ser pontual. O Departamento norte-americano da Agricultura (USDA) estima que a colheita mundial da actual campanha agrícola atinja um recorde de 722,18 milhões de toneladas. A ser assim, a pressão sobre os preços irá manter-se.

 

"A produção mundial de trigo atingiu novos recordes em 2013 e 2014, contradizendo as afirmações alarmistas de que o aquecimento global estava a reduzir as colheitas", referia a Forbes a 26 de Dezembro. De facto, alguns especialistas em ambiente salientaram recentemente, num artigo citado pela Reuters, que nas últimas décadas o rendimento das colheitas de trigo diminuiu em regiões mais quentes, como a Índia, África, Brasil e Austrália, mais do que ofuscando o aumento das colheitas em locais mais frescos, como algumas regiões dos EUA, Europa e China. No entanto, em termos globais, esse efeito não está a ser visível. Segundo os dados do USDA, citados pela Forbes, as colheitas de trigo a nível mundial aumentaram 33% desde 1994.

 

Milho

 

Os preços do milho chegaram a cair 40% este ano, atingindo a 1 de Outubro um mínimo de cinco anos. Depois disso, retomaram fôlego e conseguiram reduzir a descida em 2014 para 24%.

 

A produção de etanol está a provocar um fluxo regular de procura de milho e estima-se que o consumo por parte da China também aumente depois de o governo ter levantado o bloqueio à importação de alguns organismos geneticamente modificados, segundo os analistas da Shanghai Intelligence Co. e da Beijing Orient Agribusiness Consultant, citados pela Bloomberg.

 

 

Soja

 

Esta oleaginosa registou um recuo de 20% no acumulado do ano, pressionada sobretudo pela vasta oferta. Com efeito, a produção mundial de soja deverá subir para 312,9 milhões de toneladas na actual campanha agrícola, contra 285 milhões na campanha de 2012-2013, segundo as previsões da Oil World.

 

"As condições atmosféricas da América do Sul deverão continuar a ser propícias para que haja boas colheitas", de acordo com o Commonwealth Bank of Australia. O que manterá a pressão sobre os preços.

 

 

Algodão

 

A matéria-prima de origem agrícola, usada na produção têxtil, perdeu 26% no acumulado de 2014.

 

Em finais do ano, os preços registaram uma subida, devido à desvalorização do dólar australiano e à menor plantação deste produto em 2014. No entanto, o consumo em baixa - que nem a prolongada queda das cotações fez retomar – acabou por penalizar o algodão no conjunto do ano.

 

O esperado aumento da procura por parte das moagens, que se estimava que aconteceria devido à diminuição dos preços, também não se concretizou. E isto porque  os stocks de alta qualidade não estão disponíveis devido a problemas na Austrália e na China, conforme comentou à Bloomberg um professor da Universidade do Mississipi, O.A. Cleveland.

 

Além dos stocks que a China acumulou, o USDA também prevê que os inventários aumentem em termos mundiais. "Isso é certamente um motivo de receio", referiu à Bloomberg o conselheiro Matt Leeson, da Independent Commodity Management. Mas a queda dos preços do petróleo poderá tornar os preços do algodão sintético mais competitivos e Leeson acredita que haverá um aumento da procura de têxteis.




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