Petróleo Como um conflito no Golfo Pérsico afetaria as matérias-primas

Como um conflito no Golfo Pérsico afetaria as matérias-primas

Subida dos preços do petróleo e gás, aumento dos custos dos seguros e ataques à infraestrutura bancária e de energia poderiam ser consequências imediatas caso a interceção de dois petroleiros com ligações ao Reino Unido por parte do Irão dê origem a uma verdadeira guerra.
Como um conflito no Golfo Pérsico afetaria as matérias-primas
Susana González
Bloomberg 27 de julho de 2019 às 15:00

Um longo conflito no Golfo Pérsico poderia empurrar as economias dos Estados Unidos e de outros países para uma recessão e até mesmo acelerar o movimento global contra os combustíveis fósseis. Aqui estão alguns dos cenários que analistas de petróleo, matérias-primas e geopolítica veem como mais prováveis.

O Estreito de Ormuz será fechado?

Num confronto limitado, o fluxo de petróleo e de outras matérias-primas deve continuar pelo estreito, com a ressalva de que certos petroleiros poderão ser alvos do Irão, antecipa Ian Bremmer, presidente e fundador do Eurasia Group, empresa de consultoria e pesquisa de risco político. No caso de uma grande guerra, o Irão poderia fechar o estreito e instalar minas.

Para Ole Sloth Hansen, chefe de estratégia de commodities do Saxo Bank, será feito um esforço conjunto para manter o estreito aberto e, antes de qualquer ataque militar, será acertado um plano para proteger os navios com outros países da região, como a Arábia Saudita. Os custos dos seguros devem disparar, ou não haverá mesmo qualquer cobertura, e os proprietários de navios sem cobertura podem ficar relutantes em arriscar as suas embarcações.

Já Fereidun Fesharaki, presidente da consultora de energia FGE, diz que a ideia de que o Estreito de Ormuz será fechado é "absurda". Fesharaki, que também foi consultor do governo do Irão na década de 1970, acredita que, se um navio for atingido no estreito, o fluxo poderá ser suspenso por algumas semanas, mas o tráfego será retomado.

Como reagiriam os preços do petróleo e do gás?

O petróleo poderia subir para os 100 dólares por barril, ou mais, imediatamente após o início da guerra, mas provavelmente estabilizaria perto dos 80 dólares, assim que fosse demonstrada alguma resiliência das exportações da região, segundo Ken Medlock, diretor do Centro de Estudos de Energia da Rice University, em Houston. Embora a subida da produção de petróleo de xisto dos Estados Unidos pudesse diminuir um pouco o impacto, não conseguiria compensar grandes perturbações da oferta do Médio Oriente.

O petróleo pode chegar aos 90 dólares por barril antes de voltar eventualmente a afundar devido aos sinais de quebra da procura global, disse Hansen. O nível de preços que o petróleo alcançará vai depender da capacidade de manter uma passagem segura através do Estreito de Ormuz.

No caso de um conflito regional completo, o petróleo ultrapassará os 100 dólares por barril, podendo mesmo alcançar os 150 dólares, de acordo com Bremmer. Se os ataques forem limitados, o petróleo deverá ficar em torno dos 80 dólares.

 

Os preços do gás natural liquefeito poderiam subir mais do que as cotações do petróleo, já que a proporção dos fluxos globais que passa pelo Estreito de Ormuz é maior do que no caso do petróleo. "Seja qual for a subida do petróleo, a do GNL será o dobro", disse em junho David Hewitt, analista de petróleo e gás da Macquarie Capital.

Fesharaki, da FGE, acredita que o mercado já está a descontar a possibilidade de uma guerra nesta altura. Se houver um grande ataque e represálias, o Brent poderia chegar aos 90 ou 100 dólares por barril. O GNL também seria afetado, mas o mercado está com excesso de oferta e é dominado pelo Qatar, que tem boas relações com o Irão, pelo que não é provável que seja um alvo de Teerão.

Quão vulnerável é a infraestrutura de energia do Médio Oriente?

Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, é mais vulnerável a um conflito porque as suas instalações petrolíferas estão numa área pequena, ao contrário do que acontece na Arábia Saudita, onde as unidades estão muito dispersas, disse Fesharaki. "Os seus campos estão próximos, os campos offshore poderiam ser atingidos imediatamente. Assim que forem lançados alguns mísseis, as empresas estrangeiras vão evacuar, e se não tiverem trabalhadores estrangeiros, não poderão produzir petróleo".

Segundo Bremmer, também era provável um aumento dos ataques cibernéticos do Irão contra alvos no setor da energia e finanças na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos.

Quais serão alguns dos efeitos indiretos?

Japão, a Índia e Coreia do Sul seriam algumas das economias mais vulneráveis a uma guerra no Golfo Pérsico devido à sua forte dependência do petróleo da região. A Índia importa mais de 80% do seu petróleo, e cerca de dois terços do total vem do Médio Oriente. Cada aumento de 10% no preço do barril de petróleo bruto aumenta o défice em conta corrente do país em cerca de 0,4% do PIB, disse no final de junho Sonal Varma, economista-chefe para a Índia do Nomura Holdings.

 

A subida dos preços do petróleo empurrará as economias dos EUA e do mundo em direção para uma recessão, segundo Hansen. Os metais industriais serão afetados pela desaceleração económica e o ouro deve subir, apesar de um dólar mais forte. A atual fuga global dos combustíveis fósseis também seria intensificada.

 

Uma guerra no Médio Oriente pode acelerar o afastamento do petróleo, já que lembraria as pessoas de que dependem de um lugar perigoso, disse Fesharaki. "O petróleo vai morrer por si nos próximos 10-15 anos, pelo que isso seria apenas uma aceleração do processo".

 




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