Obrigações Alerta nos mercados: Juros dos EUA estão mais altos a 3 meses do que a 10 anos

Alerta nos mercados: Juros dos EUA estão mais altos a 3 meses do que a 10 anos

A inversão das pontas da curva de rendimentos dos títulos de dívida dos EUA sinaliza uma recessão na maior economia do mundo.
Nuno Carregueiro 22 de março de 2019 às 16:02

A curva de rendimentos dos títulos de dívida dos Estados Unidos está a dar um sinal preocupante sobre a evolução da maior economia do mundo. A taxa dos títulos de dívida pública a 3 meses já está acima da "yield" das obrigações a 10 anos.

 

É preciso recuar a 2007 para encontrar esta situação anómala na curva de rendimentos dos Estados Unidos. Nesta altura os investidores estão a exigir uma remuneração mais elevada para comprar títulos de dívida pública dos Estados Unidos que têm de ser reembolsados dentro de três meses, face à rendibilidade que exigem para investir em obrigações emitidas pelo mesmo soberano, mas que têm uma maturidade de 10 anos.

 

A curva das "yields" da dívida norte-americana já tinha invertido no ano passado, mas em prazos mais próximos. Em dezembro de 2018 a taxa dos títulos a dois anos superou a dos títulos a cinco anos.

 

Agora a inversão foi nas pontas da curva e mais pronunciada, um sinal de que o "stress" dos investidores com a saúde da economia norte-americana está a aumentar de forma acentuada.

  

A "yield" dos títulos a 3 meses até está a descer (-1,3 pontos base para 2,445%), mas nas treasuries a 10 anos a queda é bem superior (-10,6 pontos base para 2,43%). A inversão da curva não é total, pois nos prazos a 2 anos (2,32%) e cinco anos (2,24%) a yield é inferior ao que se verifica no prazo a 10 anos.

 

Uma inversão de curva de rendimentos ocorre quando a taxa de juro associada às obrigações de curto prazo supera a yield das obrigações de longo prazo, que normalmente é mais baixa porque os investidores "cobram" mais para terem o seu dinheiro investido numa maturidade mais longa.

 

Recessão à espreita?

 

Esta situação no mercado de obrigações dos EUA faz soar os alarmes pois historicamente indica que vem aí uma recessão económica. A última vez que aconteceu foi em 2007, na antecâmara da grande crise financeira de 2008. Na recessão dos anos 90 a curva de rendimentos também inverteu uns tempos antes.

 

A descida acentuada dos juros dos títulos dos EUA a 10 anos surge depois de a Reserva Federal ter esta semana suspendido os planos para aumentar mais os juros este ano, devido às preocupações com o abrandamento da economia.

 

Numa altura em que a economia global está a reforçar os sinais de travagem brusca, os investidores temem que a economia norte-americana esteja mais próxima de entrar em recessão. Daí estarem a refugiar-se nos títulos de dívida de longo prazo, em detrimento das maturidades curtas.

 

A evolução das taxas de juro dos títulos norte-americanos também mostra que os investidores estão agora a descontar que a Reserva Federal poderá ser obrigada a baixar os juros nos próximos tempos.

 

"Parece que as preocupações com o abrandamento global se confirmaram e o mercado começa a descontar uma política monetária expansionista por parte da Fed e uma recessão económica a caminho", comentou à Bloomberg Kathy Jones, analista da Charles Schwab.

 

Desde a reunião da Fed da passada quarta-feira, a "yield" das obrigações dos EUA a 10 anos já baixou quase 20 pontos base, com a taxa a descer para um mínimo de dezembro de 2017, abaixo de 2,5%. No ano passado esta taxa disparou para máximos de vários anos (bem acima dos 3%), devido aos receios com o agravamento de juros por parte da Fed, o que provocou uma forte turbulência nos mercados acionistas.

   

Juros da Alemanha negativos

 

Não é só nos Estados Unidos que o mercado de dívida está a mostrar um receio crescente dos investidores com a saúde da economia global.

 

Os juros da Alemanha a 10 anos já estão em terreno negativo, o que já não acontecia desde outubro de 2016. A "yield" dos títulos a 10 anos recua 6,7 pontos base para -0,025%.

 

Se nos Estados Unidos os investidores preferem dívida de longo prazo face ao curto prazo, na Alemanha estão dispostos a pagar para terem em carteira títulos de dívida deste país que só serão reembolsados em 2029.

 

Na dívida alemã, bem como noutros países europeus, a curva de rendimentos não está invertida, uma vez que as taxas dos títulos de curto prazo estão ainda mais negativas (-0,542% nos títulos alemães a 3 meses).

 

Esta acentuada descida dos juros alemães (e de outros soberanos da Zona Euro) surge depois de terem sido publicados indicadores que apontam para uma travagem mais acentuada da economia da Zona Euro.

 

O PMI, publicado hoje, revela uma contração da atividade económica de França e uma travagem maior da economia da Alemanha.

 

"Esta leitura desapontante aumenta o risco de que o crescimento da Zona Euro falhe em recuperar efetivamente no primeiro trimestre", o que minará a "esperança de que 2019 estava a começar com o pé direito", salienta Maeva Cousin, da Bloomberg.

 

A taxa de juro associada à dívida a 10 anos de Portugal está a descer 2,2 pontos para 1,261%, aproximando-se de um novo mínimo histórico.




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