Obrigações O “buraco negro” que está a “engolir” os mercados financeiros

O “buraco negro” que está a “engolir” os mercados financeiros

Há cada vez mais dívida pública a transacionar nos mercados com taxas negativas. A Bloomberg explica porque este é um problema.
O “buraco negro” que está a “engolir” os mercados financeiros
JOEL SAGET
Bloomberg 15 de julho de 2019 às 15:38

Há um buraco negro de vários biliões de dólares a crescer no coração dos mercados financeiros mundiais. As "yields" negativas na dívida – obrigações a valerem menos, não mais, se forem detidas até à maturidade – estão a espalhar-se a mais cantos do universo das obrigações, destruindo os retornos potenciais dos investidores e alterando o sistema tal como o conhecemos. Agora que as "yields" abaixo de zero estão aí para ficar, são cada vez maiores as preocupações sobre os efeitos para os pequenos aforradores, pensionistas, investidores, empresas e governos.

 

1 – Porquê investir dinheiro numa obrigação em que vai perder dinheiro?

Tipicamente, as obrigações são os ativos mais seguros do mercado, pelo que muitos investidores procuram-nas em alturas de maior stress nos mercados, como é o caso da disputa comercial entre os EUA e a China e as tensões no Golfo Pérsico. Uma obrigação pode ter um cupão modestamente positivo quando é emitida por um governo, instituição ou empresa, mas assim que começa a ser transacionada, a alta procura por parte dos investidores pode impulsionar as cotações – e portanto pressionar as "yields" em baixa – de tal forma que os investidores podem nem receber qualquer pagamento.

 

Vários fundos seguem a composição dos índices de obrigações governamentais, pelo que têm de comprar determinadas obrigações independentemente da "yield". Alguns investidores ainda podem conseguir retornos positivos com essas obrigações, quando são tidas em conta as variações cambiais.

 

2 – Quanta dívida está a ser comprada?

A dívida com "yields" negativas atingiu 13 biliões de dólares em junho, duplicando desde dezembro, e já representa cerca de 25% da dívida global. Na Alemanha, 85% da dívida soberana apresenta taxas negativas. Quer isto dizer que os investidores estão efetivamente a pagar 0,2% pelo privilégio de comprar as suas obrigações de referência: o governo fica com 2 euros por cada mil que pede emprestado por um período de 10 anos. Os Estados Unidos são dos poucos países ainda de fora, uma vez têm 16 biliões de dólares em obrigações no mercado e nenhuma linha de obrigações apresenta uma "yield" negativa. Mas no resto do mundo, os especialistas alertam que o problema pode ficar pior.     

 

3 – Porque existem motivos para preocupações?

As taxas negativas contrariam os princípios básicos do sistema financeiro global. "Foi quebrada uma importante regra da lógica financeira – emprestar dinheiro por prazos mais longos deve gerar retornos mais elevados", refere Marcus Ashworth, colunista da Bloomberg que segue os mercados europeus. (Um bom exemplo: as obrigações a 100 anos que a Áustria emitiu há dois anos e atingem a maturidade em 2117, ofereciam inicialmente um retorno de 2,1%, mas apresentam agora uma "yield" de 1,2%). Tudo isto pode atirar os investidores para ativos de maior risco, aumentando as probabilidades de bolhas nos mercados financeiros e no imobiliário.

 

4 – Quem beneficia com as taxas negativas?

Em primeiro lugar os governos. O incentivo para emitir dívida nunca é tão forte como quando são pagos para pedir emprestado. A Alemanha, por exemplo, está a ser subsidiada para emitir dívida ao longo dos próximos 20 anos, mas tal não quer necessariamente dizer que vai aumentar a despesa pública. As empresas que emitem obrigações também estão a tirar partido dos custos de financiamento em mínimos históricos. Tal como as firmas de private equity, que tipicamente usam a alavancagem para realizar aquisições e veem melhores oportunidades quando o capital está mais barato. Os proprietários com crédito a taxa variável também têm razões para celebrar.

 

5 – Quem é penalizado?

Os fundos de pensões e as seguradoras, tradicionalmente grandes investidores em obrigações soberanas, estão numa situação particularmente difícil: as suas responsabilidades aumentam de forma estável tal como a idade dos seus clientes, mas não são aconselhados a não assumir riscos elevados. Os bancos veem as suas margens encolher. Ganham pouco mais do que zero nos empréstimos que fazem, mas ainda têm de oferecer aos depositantes uma taxa positiva para manter o negócio ativo. Na Alemanha, o BCE está sob pressão política por penalizar os retornos das poupanças. Os bancos centrais correm o risco de atingir o ponto em que os baixos custos de financiamento sejam mais perniciosos do que favoráveis ao crescimento económico, caso os bancos comecem a restringir os empréstimos. O que pode aprofundar qualquer abrandamento económico.

 

6 – Como chegamos até aqui?

Alguns bancos centrais, sem alternativas para impulsionar o crescimento económico na sequência da crise financeira de 2008 e 2009, cortaram as taxas de juro para níveis abaixo de zero em 2014. O Japão fez o mesmo pouco depois. A ideia passava por impulsionar a concessão de crédito ao cobrar às instituições financeiras, em vez de lhes pagar, por parquearem dinheiro que de outra forma poderia ser colocado ao serviço da economia real. Desde 2016, a taxa do BCE para os depósitos está em -0,4%, pelo que os bancos perdem 4 euros por cada mil euros que colocam no banco central. Era suposto que as taxas negativas fossem temporárias, mas têm perdurado. Os operadores estão a estimar que o BCE vai colocar a taxa dos depósitos ainda mais negativa este ano, o que está a levar um valor recorde de obrigações para terreno negativo.

 

7 – Porque estão a durar tanto tempo as taxas negativas?

Mais de uma década depois do início da crise de crédito, a inflação ainda é escassa, com os salários a aumentarem apenas ligeiramente apesar da queda pronunciada do desemprego. O BCE, por exemplo, não deverá conseguir aproximar-se da meta dos 2% ao longo da próxima década. E a diferença entre a yield dos títulos de dívida soberana dos EUA a 3 meses e a 10 anos está invertida, uma indicação de que uma contração da economia poderá estar a caminho. Além da Reserva Federal, poucos bancos centrais que desceram as taxas de juro durante a crise financeira já as conseguiram subir, pelo que durante o próximo ciclo económico negativo deverão colocá-las em terreno ainda mais negativo.

 

8 – Para onde nos leva tudo isto?

Na Europa, existe o receio de que o continente esteja a seguir a denominada década perdida do Japão, quando os decisores de política monetária tiveram dificuldades na luta contra o crescimento anémico e a inflação baixa.

 

Os bancos centrais insistem de forma intensa que ainda têm ferramentas disponíveis para combater qualquer abrandamento, incluindo cortes de juros e mais programas de compras de ativos. Para os mercados, uma volatilidade branda é mau para o trading. As tensões geopolíticas sobre o comércio e a saída do Reino Unido da União Europeia vão continuar a conduzir os investidores para os ativos mais seguros, pelo que vai continuar elevada a procura por obrigações com "yields" negativas. Mas a procura por retornos mais sumarentos através de apostas mais arriscadas aumenta a perspetivas de mais colapsos de fundos ou mesmo uma nova crise.




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