Itália: Juros da dívida disparam e bolsa no vermelho com adensar da crise política

Perante um eventual governo "neutral" de iniciativa presidencial, que pode não recolher apoio do parlamento ou eleições antecipadas, que terminariam uma legislatura que nem chegou a começar, é incerto o futuro político da Itália. Juros disparam e bolsa recua perante incerteza.
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David Santiago 08 de maio de 2018 às 13:30

Os juros da dívida pública italiana seguem em forte alta no mercado secundário, com a taxa de juro associada às obrigações transalpinas no prazo de referência a 10 anos a disparar 9,6 pontos base para 1,855%. Trata-se da maior subida desde Dezembro de 2017 e da maior taxa de juro desde 28 de Março.

Em Milão, o índice bolsista FTSE MIB recua 2,39% para 21.912,14 pontos (mínimo de 30 de Abril), na maior queda desde 2 de Março. Os juros da dívida e a bolsa de Milão estão a reagir negativamente ao agravar da incerteza política em Itália, numa altura que ganha força a possibilidade de haver novas eleições.  


Esta segunda-feira, no final da terceira ronda de auscultação aos partidos com vista à formação de um governo, e perante a impossibilidade de o parlamento saído das eleições de 4 de Março assegurar uma solução governativa com apoio maioritário, o presidente da República, Sergio Mattarella, sugeriu a formação de um governo "neutral".

Contudo, os líderes das duas formações mais votadas nas últimas eleições - Luigi Di Maio, líder do Movimento 5 Estrelas (o partido mais votado) e Matteo Salvini (líder da Liga, partido mais votado da coligação pré-eleitoral de direita, por sua vez a formação com mais votos), recusam um cenário de "governo tecnocrático" e apelam ao regresso às urnas o quanto antes.

Confrontado com a indisponibilidade do PD para integrar ou viabilizar um governo protagonizado pelo anti-sistema 5 Estrelas e a rejeição de Di Maio a coligar-se à direita se Salvini não deixar cair Silvio Berlusconi (Força Itália), Sergio Mattarella apelou o compromisso do parlamento com um governo de "garantia" que ficaria em funções até Dezembro de forma a permitir a aprovação do Orçamento do Estado para 2019 e uma nova lei eleitoral.

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É que, tal como mostram as sondagens, se houver novas eleições com a actual lei eleitoral (Rosatellum, que configura um sistema misto: proporcional e maioritário) tudo indica que manter-se-á o actual bloqueio político, já que o Rosatellum não favorece a criação de maiorias parlamentares.

Di Maio e Salvini defendem a realização de eleições antecipadas o mais rápido possível, o que acontecer determinará que a legislatura termine antes sequer de ser inaugurada. Seria a primeira vez que tal sucede em Itália, país há muito conhecido pela instabilidade política.

Tendo em conta o calendário constitucional, novas eleições não poderiam decorrer antes de 22 de Julho. Mattarella quer evitar eleições no Verão, época que favorece a abstenção. Como tal, pede, no mínimo, um compromisso que adie eleições até ao Outono.

Por enquanto, o governo liderado por Paolo Gentiloni (PD) permanece em funções, contudo além do facto de ser um executivo de gestão, o PD já não dispõe de maioria no parlamento, o que fragiliza ainda mais a capacidade de actuação do primeiro-ministro.

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