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Notícia

Existe a perceção de que estes temas são críticos, mas ainda há incapacidade de os implementar

Tecido empresarial nacional é sensível às questões ambientais, porém está muito focado na gestão de resíduos. Falta uma visão de futuro sustentável.

04 de Abril de 2022 às 11:50
Paula Policarpo, presidente e cofundadora da DariAcordar/Zero Desperdício
Paula Policarpo, presidente e cofundadora da DariAcordar/Zero Desperdício

Lançado em dezembro de 2021, o Compromisso Zero Desperdício é um projeto da Zero Desperdício que conta com o apoio da Secretaria Geral do Comércio, Serviços e Defesa do Consumidor. Este projeto consiste, essencialmente, na capacitação, promoção e reconhecimento das organizações e empresas pelas suas boas práticas ao nível de circularidade e sustentabilidade e tem como objetivo garantir, através de um conjunto de critérios e parâmetros, que é possível reconhecer as mesmas junto dos consumidores ou cidadãos e dos mercados. Ao abraçarem este compromisso, as empresas demonstram estar compromissadas com os ODS, alinhando as suas práticas com os critérios ESG e em conformidade com a diretiva sobre o Reporte de Sustentabilidade Corporativo que propõe às empresas mais transparência sobre as suas políticas económicas, sociais e ambientais. Assim, e no âmbito deste especial, entrevistámos Paula Policarpo, presidente e cofundadora da DariAcordar/Zero Desperdício.

Que balanço faz do Compromisso Zero Desperdício?
Não poderia ser mais atual e premente. Urge a questão da sustentabilidade/transição climática/energética como uma questão de sobrevivência. Existem ainda muitos desafios e caminhos a percorrer para colmatar o gap de circularidade – a nível mundial 91% dos modelos de produção assentam ainda em economia linear –, de consciencialização e da abordagem e ação global, concertada e ecossistémica que a mesma implica. Apesar de o tema estar já bastante presente no discurso, assistimos a um crescente surgimento de alegações ambientais (greenwashing), pelo que o projeto Compromisso Zero Desperdício, com uma estrutura e processo que permite gerar confiança nas organizações que forem reconhecidas com o compromisso, faz todo o sentido, pois premeia a preocupação ambiental, social, económica e ética das organizações portuguesas e, consequentemente, reforça a importância da questão da sustentabilidade.

Que critérios são analisados por vós?
Alguns dos critérios que analisamos passam pela gestão eficiente da água e da energia, pelo uso racional de materiais sustentáveis, pela sua reintrodução na cadeia de valor, igualdade de género e de oportunidades, pela promoção da sustentabilidade junto dos fornecedores, clientes e colaboradores, o impacto social gerado pela operação das organizações, entre outros. Tal permite aos consumidores e ao mercado fazer opções com base em informação credível. Numa altura em que as novas diretivas comunitárias exigem mais das organizações, o Compromisso Zero Desperdício apresenta-se como uma solução não só de reconhecimento de boas práticas, de medição dos resultados atingidos, mas também de cocriação e apoio no desenvolvimento de novas soluções que promovam a circularidade, a sustentabilidade e o caminho para a transição verde e neutralidade carbónica.

Ser uma empresa Compromisso Zero Desperdício é saber que existe um equilíbrio entre a economia e os ecossistemas, entre proteger o ambiente e conseguir gerar emprego, reutilizando materiais e assim reduzindo custos, contribuindo para a criação de novos mercados/economia sustentáveis. É, no fundo, um compromisso das organizações com o futuro do planeta.

 

Pela vossa experiência, como está, no geral, a consciência ambiental das empresas e organizações portuguesas?
Olhando para o contexto em Portugal, eu diria que, se por um lado a grande maioria do tecido empresarial português é permeável e sensível à importância das questões ambientais ainda que por pressão, bem como da economia circular, este é ainda focado na gestão de resíduos, ou seja "no correr atrás do prejuízo" e não na visão de "nada se perde, tudo se transforma" que implica o seu total aproveitamento e reintrodução no processo produtivo. Existe uma perceção de que estes temas são críticos para a sua sobrevivência, competitividade e crescimento futuro. Porém, ainda há uma enorme incapacidade de os implementar na prática nos negócios, de os incorporar nos processos produtivos de início ao fim da cadeia de valor e da sua adoção como elemento e conceito estratégico da sua atividade empresarial.

De acordo com os resultados do inquérito de avaliação geral da realidade do tecido empresarial em Portugal em matéria de economia circular da CIP, no âmbito do projeto "Economia Mais Circular", ainda uma reduzida percentagem tem em conta a temática nas suas decisões de modo a reduzir a sua pegada ambiental e é um elemento central da sua estratégia.

O que contribui para essa realidade?
Para este estado da arte concorrem barreiras, sendo a maior a legislação e enquadramento regulamentar – que aliás conheço relativamente até porque sou jurista e estou neste momento a frequentar uma pós-graduação em Direito do Ambiente. Existem ainda questões económicas, financeiras, técnicas, culturais, investimento e não só. Também o receio e a resistência a mudar o paradigma, ou seja, pensar, atuar e fazer diferente e de perceberem que são parte dum ecossistema em que as parcerias e as sinergias são fundamentais.

O que está bem no tecido empresarial português?
É muito positivo que a generalidade das empresas considere estas temáticas importantes, logo, é preciso olhar para as barreiras e constrangimentos dos vários setores e dimensões e responder aos desafios.

Como?
É necessário que as empresas se mobilizem no sentido de criar ações conjuntas entre indústria, academia, sociedade civil e Estado, que tem um papel fundamental na política pública como um facilitador e promotor e nos incentivos e investimentos gerados. Neste sentido, os cenários a desenvolver passam por uma forte simbiose industrial, urbana e projetos de I&D avançados, bem como uma monitorização dos principais indicadores e evolução dos mesmos para compreender se as ações atuais são suficientes para atingir os objetivos.

Dinamizar os clusters de sustentabilidade em Portugal e posicioná-los numa rede nacional e internacional com partilha de boas práticas, de casos de sucesso e que vise a comunicação eficaz de políticas integradas e de reporte de informação é a chave para melhor reconhecer o cenário atual e promover um cenário futuro mais sustentável e integrado em toda a cadeia de valor. É ainda necessária a criação de mercados de matérias secundárias. Está previsto mas não existe, nem está feito.

"É necessário que as empresas se mobilizem no sentido de criar ações conjuntas entre indústria, academia, sociedade civil e Estado" Paula Policarpo, presidente e cofundadora da DariAcordar/Zero Desperdício

Quais as áreas ou setores mais sustentáveis. E os menos sustentáveis?
No que concerne aos setores de atividade em Portugal e ao seu índice de desperdício/circularidade, igualmente segundo estudos portugueses, é possível compreender que alguns setores têm um potencial para a circularidade mais relevante, em particular destacaria, o setor do imobiliário e construção, a metalurgia e metalomecânica, minérios e o setor do comércio e serviços.

Importa igualmente destacar alguns setores que, tendo um potencial para a circularidade, têm também um impacto relevante na economia portuguesa, em que se destaca o setor têxtil, vestuário e calçado, e ainda o setor alimentar. Isto, aliás, motivou também que o Compromisso Zero Desperdício tivesse duas categorias específicas para estes dois setores com o objetivo de dar um contributo para a transformação e transição para a sustentabilidade.

Além dos setores de atividade, é relevante entender a variação do potencial para a circularidade e do impacto do desperdício na cadeia de valor: entre produção, distribuição e consumo, é sobretudo ao nível do consumo que o desperdício mais se verifica, de forma transversal às diversas indústrias. Este ponto é crucial para entender que a transformação e regeneração sustentável só pode ocorrer de forma colaborativa onde envolvemos não só empresas e outras organizações, mas também o cidadão, o consumidor. Uma transformação centrada no consumidor, orientada ao cidadão e guiada pela sociedade civil é a chave para um novo modelo social, económico e ambiental.

Estudos de 2015 mostram que a economia circular tem um potencial de 4,5 triliões de dólares ao nível do crescimento económico mundial até 2030 e o uso de recursos triplicou desde 1970 e poderá duplicar de novo até 2050 se nada for feito. As políticas sustentáveis e a transição para uma economia verde representam um mercado em claro crescimento, do qual surgirão oportunidades em múltiplas indústrias se estivermos preparados.

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