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É preciso capacitar o setor agrícola e florestal para receber a inovação

Existe tecnologia, há proximidade do sistema científico, mas a incorporação de tecnologia no setor agrícola e florestal português tem ainda um caminho a fazer ao nível da capacitação dos vários “stakeholders” para que estes possam responder aos desafios do futuro.

11 de Março de 2022 às 14:39
Custódia Correia (RRN/DGADR), Nuno Canada (INIAV), Ana Rita Azevedo (CAP), Aldina Fernandes (CONFAGRI) e António Ferreira (UNAC)
Custódia Correia (RRN/DGADR), Nuno Canada (INIAV), Ana Rita Azevedo (CAP), Aldina Fernandes (CONFAGRI) e António Ferreira (UNAC)
Muito se tem falado de capacitação e muito tem sido feito ao longo dos últimos anos, como também deverá ser reconhecido. Contudo, os especialistas garantem que há ainda muito caminho a percorrer para capacitar de forma efetiva os diversos atores do setor, seja ao nível das infraestruturas, seja no reforço da capacidade de investigação e inovação ao nível das unidades de I&D, ou ao nível da cobertura de rede 4G e 5G nas zonas de baixa densidade, que ainda é muito incipiente. António Ferreira, da União da Floresta Mediterrânica (UNAC), diz que a floresta tem uma velocidade que não é a mesma da internet. "Estamos no bom caminho, mas é necessário limar posturas e vontades, e cultivar o bom senso e uma melhor articulação, para todos avançarem à mesma velocidade", acrescenta o responsável.

A CONFAGRI tem acompanhado esta dinâmica tentando envolver os associados. "Identifico como grandes desafios a inclusividade, a resiliência e a preservação da diversidade." Aldina Fernandes considera que é fundamental descer à terra. Mais do que conhecer tecnologias, esta responsável determina que é preciso conhecer as características da nossa agricultura.

"Na agricultura temos uma média de idade de 64 anos, temos 46,3% dos produtores apenas com o ensino básico, apenas com formação prática nestas áreas agrícolas", destaca. As tecnologias estão associadas a dados georreferenciados, a drones, satélites, sensores que permitem uma intervenção dirigida em zonas diferenciadas, no entanto, os números apontam que apenas 0,3% das explorações possuem estes dados. Embora isto represente uma superfície que não é equivalente, porque obviamente são as explorações mais capacitadas e mais bem dimensionadas. Porém, apenas 0,2% utilizam esses dados na sua gestão em 2,3% da SAU (superfície agrícola utilizada) – dados de 2019.

Incorporar a inovação

Nuno Canada, do INIAV, defende que esta revolução digital e tecnológica vai ser fundamental no futuro para a evolução do setor, que embora tenha feito um caminho muito grande em termos de incorporação de inovação e de conhecimento, terá desafios gigantescos pela frente. "Se pensarmos que a função primordial da agricultura é produzir alimento e se nós percebermos pelos estudos perspetivos que até 2050 vamos ter de produzir mais 50 a 60% do que produzimos hoje, isto por si só é um desafio ainda maior." "Vamos ter de produzir mais alimentos, sem aumentar a terra arável e num contexto mais difícil com as alterações climáticas e com doenças emergentes, e também com a escassez de mão de obra crescente", acrescenta Nuno Canada.

Ana Rita Azevedo, da CAP, refere que a revolução não será apenas digital, embora a tendência seja pensar nesse sentido. Será também biológica, muito ligada à biotecnologia. Pois só ela é que permitirá, além de ter culturas resistentes, cumprir os compromissos do "Green Deal".

Para esta responsável, "as empresas agrícolas estão muito habituadas a adaptarem-se a todos os constrangimentos que vão aparecendo, dando o passo em frente." É necessário garantir uma concertação de esforços e vontades para que os conhecimentos e as tecnologias sejam efetivamente transferidas dos centros de saber para o terreno, e que estas sejam desenvolvidas tendo em conta as necessidades efetivas do setor e não só na base de adaptação de outras tecnologias desenvolvidas para outros setores e que são depois adaptadas ao setor agrícola.
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