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O risco de endividamento do Estado e das empresas

A médio prazo, o sobre-endividamento pode levar à redução do investimento, enfraquecendo a competitividade e o crescimento económico. Por isso são necessárias medidas de fortalecimento do capital das empresas, para reduzir a alavancagem e aumentar sua capacidade de serviço da dívida.

Filipe S. Fernandes 06 de Novembro de 2020 às 17:15
Mário Centeno diz que nos próximos anos se assistirão “a transformações estruturais substanciais” na banca. DR
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"Os governos atuaram no mercado de trabalho e garantiram a liquidez com moratórias e créditos garantidos. Os bancos centrais disponibilizaram linhas de liquidez de emergência e flexibilizaram as regras prudenciais. Os mercados estabilizaram e o crédito fluiu para empresas e famílias. As empresas preservaram as condições produtivas e as famílias aumentaram a poupança", sublinhou Mário Centeno, governador do Banco de Portugal sobre os resultados da resposta das diferentes políticas públicas à pandemia de covid-19, em que "governos, bancos centrais, reguladores financeiros e, na Europa, as instituições comunitárias estiveram mais coordenadas do que nunca".

Na segunda fase da crise, o levantamento gradual das restrições à atividade económica levou a uma recuperação imediata e mais rápida e intensa do que o previsto dos indicadores económicos, as previsões de crescimento para 2020 foram revistas em alta no final do terceiro trimestre, embora ainda num contexto de incerteza, provocada pela segunda vaga de covid-19.

"Devemos ter presente que a decisão das autoridades comporta duas tendências opostas. Por um lado, uma retirada precoce dos apoios ao emprego e ao crédito terá um efeito desestabilizador nas condições de oferta e no ritmo de recuperação económica. Empresas com alta alavancagem, mesmo se viáveis, enfrentariam problemas de racionamento de crédito. Por outro lado, a extensão das medidas de apoio daria origem a uma indesejável manutenção do emprego e de afetação de crédito a empresas inviáveis, o que pesará nas perspetivas de crescimento futuras, sempre dependentes da realocação de recursos escassos", avisou Mário Centeno.

Para o governador do Banco de Portugal desde julho, "um dos legados da crise é o aumento do endividamento do Estado e das empresas não financeiras. A médio prazo, o sobre-endividamento pode levar à redução do investimento, enfraquecendo a competitividade e o crescimento económico. Para fazer face a esta dificuldade, são necessárias medidas de fortalecimento do capital das empresas, para reduzir a alavancagem e aumentar sua capacidade de serviço da dívida".

Bancos mais sólidos

Exemplificou que já se utilizaram como injeções de capital privado nas empresas, os apoios diretos, participação no capital social ou instrumentos de dívida subordinada com capital público ou incentivos fiscais. Mas alertou que devem "ser privilegiados instrumentos de mercado" e que "uma utilização eficiente dos fundos públicos exige o estabelecimento de procedimentos que permitam uma identificação efetiva das empresas que não sendo viáveis, não devem ser recetoras destes apoios".

"Os bancos enfrentam a crise pandémica com posições de capital e liquidez mais sólidas do que na crise financeira global, nomeadamente por causa das reformas regulatórias que se seguiram. Esta nova realidade permitiu fazer dos bancos parte da solução, ao contrário da crise financeira onde eles foram "parte do problema". As autoridades de supervisão utilizaram o espaço disponível para libertar os buffers macroprudenciais e para uma interpretação flexível dos requisitos microprudenciais, permitindo que os bancos absorvam perdas e mantenham o fluxo de crédito", sublinhou.

Segundo Mário Centeno, "a crise acelerou as tendências que transformarão o setor bancário no futuro. Os próximos meses serão desafiadores e os próximos anos assistirão a transformações estruturais substanciais. Decisões complexas com consequências de longo alcance terão de ser tomadas pelas autoridades e pelos agentes privados em todo o mundo. A digitalização, a inovação tecnológica e a diminuição da pegada ecológica serão todos acelerados à medida que saímos desta crise".

Numa última nota, Mário Centeno referiu o rejuvenescimento na governação das principais instituições bancárias nacionais em que cerca de 58% dos administradores executivos atualmente em funções nas sete maiores instituições bancárias nacionais se encontram a exercer cargos de administração no setor bancário nacional há 12 ou menos anos.
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