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Paulo Macedo: “A economia portuguesa não está em moratória”

“Não vejo nas moratórias uma bomba-relógio. Se retirarmos os apoios à economia antes de as empresas terem cash-flow, é que será uma bomba-relógio”, afirmou Miguel Maya, presidente da comissão executiva do Millennium bcp.

Filipe S. Fernandes 06 de Novembro de 2020 às 15:30
Miguel Maya, Millenium bcp, Paulo Macedo, CGD, e Pedro Castro e Almeida, Santander Portugal.
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"Os apoios foram corretos e os possíveis, tendo em consideração a dívida portuguesa, e a estrutura de receitas do Estado. Em termos genéricos as coisas correram razoavelmente bem e houve bastante convergência dos partidos políticos nestas medidas", referiu Miguel Maya, presidente da comissão executiva do Millennium bcp.

"A economia portuguesa não está em moratória. Temos uma concentração de risco e cabe-nos a nós antecipar as consequências. Os nossos clientes conseguiram de uma maneira significativa beneficiar da moratória mas também de outros apoios que são únicos, como não ter de pagar juros e capital, diferir impostos e ter uma parte possível de ser apoiada em termos de custos do trabalho são muitos apoios conjuntos", considerou Paulo Macedo, presidente da comissão executiva da CGD.

Foram as respostas a António Ramalho, presidente da Comissão Executiva do Novo Banco, que diagnosticou "uma economia em moratória", porque "é uma economia que está a avaliar quais são os próximos passos". Sustentou que os principais "setores covid-19" são a hotelaria, em que as moratórias ultrapassam o 60%, e restauração, estruturas de lazer e etc. com 30%. Falou ainda da "moratória de decisão", com as empresas a tardarem em tomar decisões das reestruturações, das reorganizações, das consolidações e das concentrações.

Gestão do ciclo pandémico

Esta estratégia das moratórias, segundo Paulo Macedo, permitiu que a maior parte do rendimento disponível dos portugueses se mantivesse, pelo que a parte do consumo que está retraído deve-se a uma menor procura por parte dos consumidores e não por quebra do rendimento disponível. As empresas estão a adaptar-se, uns com novos negócios, outros a rever as suas estruturas de custos e por isso o investimento retraiu-se.

Paulo Macedo sustenta que o sucesso das moratórias vai depender da gestão do ciclo pandémico com um equilíbrio entre a economia e a saúde, sobretudo evitando o shutdown, e se a saída das empresas das moratórias será uma transição apoiada. Depende se haverá "uma fase de transição para a saída das moratórias, se vai haver ambiente económico, procura, investimento para que essas empresas possam fazer face ao seu cumprimento de dívida".

Na Europa arriscamo-nos a viver uma década de moratórias pela tentação de ir empurrando. Pedro Castro e Almeida
CEO do Santander Portugal 
As moratórias foram positivas "porque, na prática, financiamos indiretamente um montante significativo de empresas e, só em prestações, o sistema financeiro português teve um impacto de liquidez de cerca de 9,2 mil milhões de euros, e com esta ajuda não se está a acrescentar crédito às empresas que depois não teriam mais capacidade para pagar prestações e alivia o Estado na sua capacidade de ajudar", referiu João Pedro Oliveira e Costa, CEO do BPI.

"Na Europa, arriscamo-nos a viver uma década de moratórias porque a tentação de ir empurrando tudo para a frente ou de sair rapidamente pode ser pernicioso", advertiu Pedro Castro e Almeida, CEO do Santander. Referiu que Portugal é um mundo à parte porque decidiu utilizar mais as moratórias do que apoio em linhas protocoladas ou com garantia do Estado, sendo que nos restantes países se fez ao contrário. Mas admitiu que "o resultado final entre mais apoio de linhas e mais moratórias no curto prazo o resultado é o mesmo".

Singularidade portuguesa

A preocupação em relação à singularidade da estratégia portuguesa das moratórias também teve as reticências de António Ramalho. Sublinhou que Portugal tem 22% do total do crédito em moratórias, a Irlanda 13% e os restantes países europeus estão abaixo dos 10% de moratórias. Ao mesmo tempo é o país com as moratórias mais longas, até nove meses, enquanto os outros países têm moratórias a três e seis meses. "Esta assimetria pode levar as tendências regulatórias diferente em relação às moratórias e não nos põe numa boa posição de antecipação dos movimentos regulatórios", disse António Ramalho.

Para Miguel Maya, "a moratória é uma resposta à redução dos cash-flows, de liquidez, por parte das empresas, e é uma crise que não tem nada a ver com as do passado. Não sabemos quando é que a economia vai recuperar mas sabemos que vai recuperar". Defendeu que as empresas que são viáveis devem ser preservadas, é a capacidade produtiva do país que está em questão e devem dar-se condições para que estas empresas bem geridas, viáveis, cheguem ao fim do deserto. Sublinhou que algumas destas empresas vão chegar ao fim da crise pandémica com um nível elevado de dívida, porque não tiveram cash-flows e acrescentaram dívida, por isso deveriam ser apoiadas por um fundo do Estado a "honrar algumas dessas garantias em empresas que têm viabilidade económica mas não financeira. O custo já está tomado em função das garantias e ajudar as empresas a superar a crise."
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