Das fintechs ao blockchain e à computação ubíqua

Mais de 75% das fintechs em Portugal se baseiam num modelo business-to-business (B2B), isto é, estão vocacionadas para ser enablers e atuar em ecossistemas colaborativos.
Das fintechs ao blockchain e à computação ubíqua
João Freire de Andrade é presidente da Portugal FinTech.
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Filipe S. Fernandes 15 de outubro de 2019 às 11:30

"O surgimento de fintechs disruptivas está a acontecer massivamente", refere João Freire de Andrade, presidente da Portugal FinTech, com o ecossistema português a receber fintechs estrangeiras com um grande volume de investimento, como a "a Revolut que diz ter já 250 mil clientes em Portugal, o que é já substancial". Diz que mais de 75% das fintechs em Portugal se baseiam num modelo business-to-business (B2B), isto é, estão vocacionadas para ser enablers e atuar em ecossistemas colaborativos.

"Em Portugal não há capacidade para o volume de investimento que exige um modelo de negócio direto ao consumidor, e o mercado interno não é suficientemente grande, pelo que à partida a fintech portuguesa está mais vocacionada para permitir aos bancos competir com os disrupters internacionais", explica João Freire de Andrade.

"Portugal tem um ecossistema de fintechs muito interessante, com soluções disruptoras e inovadoras" e até agora com "maior prevalência de fintechs com propostas de valor complementares à banca incumbente", afirma João Dias, chief-digital officer do Novo Banco.

Adianta que, a colaboração do Novo Banco tem com várias fintechs portuguesas, "está a permitir desenvolver soluções inovadoras com impacto direto nos clientes - quer via a simplificação e digitalização de processos, quer via a introdução de produtos e serviços novos".

A miragem blockchain

"A tecnologia blockchain tem potencial interessante de transformação de serviços bancários onde é necessário estabelecer confiança entre partes desconhecidas", admite João Dias. Por exemplo, as empresas que importam bens do estrangeiro recorrem a serviços de "trade finance" dos bancos para suportar transações com partes desconhecidas. A tecnologia blockchain pode ter um papel na transformação destas transações.

Mas João Dias não antevê que o blockchain "o motor da transformação bancária". Aposta que tendências tecnológicas como "a computação ubíqua e a inteligência artificial terão um impacto muito superior, pelo menos no curto prazo".

Para João Freire de Andrade, a tecnologia Blockchain é interessante, mas, como a Inteligência Artificial, "é necessário definir previamente o use-case em que é aplicável para que se possa tirar partido do seu potencial".

Existe potencial no blockchain, mas "é preciso que haja confiança e credibilidade no espaço, que só acontecerá quando um player de grande estabilidade e referência levar o mercado como um todo a dar um salto para dentro desse espaço. Ainda assim, estão a ser feitos testes muito interessantes no setor", conclui João Freire de Andrade.


A luta contra o tempo na personalização de produtos e serviços

As fintechs nascem com base tecnológicas mais modernas, mas as instituições incumbentes têm mais relação, mais dados e mais histórico.

"Quanto mais personalizável for um produto ou serviço, maior o potencial de impacto das ciências dos dados. Daí que a recomendação financeira de poupança e investimento, e personalização da interação com os canais digitais sejam exemplos de óbvio potencial", diz João Dias.

João Freire de Andrade sublinha que "o grande obstáculo à oferta de produtos personalizados é o tratamento de dados". Os bancos têm bases de dados extensivas mas não estão organizadas e limpas. Para construir produtos disruptivos, "é necessário dar um passo atrás e preparar estas infraestruturas".

"O legado tecnológico dos bancos incumbentes é a principal dificuldade à personalização de produtos e serviços", reconhece João Dias. No entanto, "com a adoção de tecnologias de ‘data lake’ reduz-se significativamente o custo de acesso e processamento massivo de dados, permitindo o desenvolvimento de soluções de Inteligência Artificial assente em informação originada por sistemas ‘legacy’", diz João Dias.

Nascer digital poderia ser fator de sucesso para as fintechs. Para João Freire de Andrade, a vantagem "está na montagem de toda a infraestrutura para isso e têm já os use-cases preparados, que são no fundo a razão de existirem, e a forma de os aplicar". O outro lado da moeda é que não têm o volume de dados nem a base de clientes na qual poderiam aplicar o use-cases. O sucesso passa muitas vezes pela colaboração entre os bancos e as fintechs , como é "o BiG Total Banking, um produto de agregação de posições financeiras do Banco BiG em colaboração com a fintech, a hAPI", refere João Freire de Andrade, que além de presidente da Fintech Portugal, lidera a BiG Start Ventures.

"As fintechs nascem com base tecnológicas mais modernas, mas as instituições incumbentes têm mais relação, mais dados e mais histórico. Os bancos incumbentes têm maior potencial e facilidade em personalizar o serviço ao cliente, porque conhecem melhor e mais clientes, podendo ser melhores a recomendar e sugerir produtos e serviços", defende por sua vez João Dias, que veio da McKinsey para o Novo Banco.




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