Os dois desafios da banca, segundo António Ramalho

António Ramalho, CEO do Novo Banco, reflete sobre o futuro do setor, identificando, em discurso direto, dois princípios que considera fundamentais, transparência e conveniência.
Os dois desafios da banca, segundo António Ramalho
Negócios 21 de outubro de 2019 às 21:00
Transparência
O primeiro desafio para a banca é aprender num mercado transparente. Vítima da sua tecnicidade, da discrição das suas operações, e da confidencialidade exigida pelos seus clientes, o comportamento da banca surge demasiadas vezes como sendo opaco, o seu silêncio é confundido com sobranceria e a sua reputação alvo das maiores dúvidas. Tudo isto é um facto.

Sou dos que acredita que, numa indústria de confiança, a reputação é o maior dos valores. E a reputação já não depende mais do "poder do dinheiro" nem da tecnocracia da competência e cada vez menos da forma como nos apresentamos. Depende, isso sim, da forma como nos percepcionam. E isso implica sinceridade e transparência.

É isso o que fazem continuamente os nossos gestores de clientes, que assim conseguem manter a sua credibilidade bem acima da do próprio banco. É isso que teremos de fazer através de vários esforços.
Primeiro, o esforço na literacia financeira de segunda geração, não destinada a explicar o básico dos produtos, mas sim a lógica do nosso comportamento. De forma aberta e clara.

Segundo, assegurando que o sigilo bancário essencial à atividade não justifica nem falta de escrutínio, nem falta de explicação.

Terceiro, sendo claro, simples e assertivo, na composição do preço, na justificação dos custos e na frontalidade da recusa do falso gratuito, que apenas esconde subsidiação cruzada, o que é igual a opacidade.

Não se pense que a reputação da banca se alterará de um dia para o outro. Mas o investimento em transparência é um investimento de longo prazo.

Conveniência
O segundo desafio da banca dos tempos modernos será a conveniência. Num mundo mais próximo, com mais dados partilhados, com maior transparência, com uma concorrência menos clara, a banca tem de provar diariamente o valor da sua conveniência, isto é, a utilidade de ajudar clientes na sua actividade de poupança, pagamentos e crédito, com um preço justo e uma qualidade adequada. E isso impõe um conjunto de prioridades claras.

Primeiro, uma operação com custos controlados e reduzidos, uma aparência discreta e uma capacidade de reinventar uma digitalização de custos e processos.

Segundo, uma operação próxima, ágil e flexível, capaz de responder em todas as geografias e em todas as circunstâncias.

E, finalmente, uma visão de serviço omnicanal e omniserviço, capaz de partilhar e integrar outros intervenientes num ecossistema de simplicidade e eficiência.

Também aqui a evolução não será linear, nem óbvia, nem isenta de erros. Mas é aqui que a banca mais capacidade tem demonstrado de se adaptar e de se reinventar. Só que, desta vez, para o melhor e para o pior, não estará sozinha e terá de partilhar boa parte do seu ecossistema com outros intervenientes. Será provavelmente o fim da banca universal e da banca exclusiva, mas será talvez a criação da banca próxima e inclusiva. Uma banca que agregue outros operadores e que se disponha a ser agregada. Uma banca de serviço e de clientes e não uma banca fábrica de produtos e de vendas.



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