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A emersão lenta da Riopele

Aos 91 anos, a quarta maior exportadora do concelho está a construir um parque fotovoltaico, a estudar a entrada nos tecidos técnicos e a encetar uma "joint-venture" com a Índia.

Rute Barbedo 25 de Setembro de 2018 às 14:45
O centro de investigação e desenvolvimento da Riopele é o "orgulho" de José Alexandre Oliveira, presidente e neto do fundador da empresa que exporta 80% da sua produção para o mercado comunitário. Paulo Duarte
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Em 1927, dois teares e um moinho davam início a um percurso familiar que haveria de desembocar numa trama de tecidos. Hoje, a quarta maior exportadora de Famalicão testa sistemas de visão artificial, investe em tecnologia para reduzir a absorção de cheiros e permitir a limpeza fácil e passeia pelas ruas da Alemanha e do Japão, entre outros 50 países.

98% das criações têxteis originais de Pousada de Saramagos têm como destino o exterior. E não é apenas porque, com a globalização, exportar se tornou imperativo. Já no final dos anos de 1950, José Dias de Oliveira, o fundador da empresa, iniciava trocas com o mercado nórdico, que hoje se mantém comprador, o principal nas linhas de pensamento ecológico, como a Tenowa, feita a partir de tecidos reciclados e vencedora do prémio Inovação deste ano, atribuído pela COTEC.

A Ásia está nos dois/três dólares, enquanto nós nos posicionamos nos 8,5/9 euros [por metro de tecido].

A Turquia [um dos principais concorrentes] apresenta uma qualidade intermédia e tem a vantagem de ser uma indústria muito subsidiada pelo governo. 
Bernardino Carneiro
Administrador da Riopele

A sustentabilidade é algo em que os 18 trabalhadores do centro de investigação e desenvolvimento da Riopele - "o orgulho" do actual presidente, José Alexandre Oliveira, neto do fundador - não podem deixar de pensar. Mas o esforço no plano ambiental terá de ser "ainda maior", afirma o administrador Bernardino Carneiro. Processos que "gastem menos água, menos energia e que incorporem menos produtos químicos" são obrigatórios.


Não é de estranhar, por isso, o investimento de cerca de um milhão de euros num parque fotovoltaico junto à unidade de fiação, que deverá estar concluído no início de 2019. Alguns dos veículos a gasóleo estão a ser substituídos por eléctricos, e o trabalho diário, organizado em três turnos, é monitorizado por um sistema que visa aumentar a eficiência energética. Em nome do ambiente, mas também das contas, claro.

Um buraco a remendar-se

Entre urdideiras, cardadeiras, teares e râmolas, tudo segue a grande velocidade. Mas, perante cerca de 75 milhões de euros de facturação consolidada (contando com a RFS - Riopele Fashion Store), a Riopele flutua num barco de mais de 70 milhões de euros de dívida. "Tínhamos [uma dívida de] 96 milhões em 2012 e a nossa perspectiva, para o final do ano, é chegar à volta dos 74 milhões de euros. Ainda é um valor elevado, mas é sustentável", considera Bernardino Carneiro.


1.127
Trabalhadores
A Riopele emprega mais de 1000 pessoas. Apenas 2% têm mais de 60 anos.

66
Milhões de euros
Foi o volume de negócios em 2016. Contando com a RFS, sobe para 70,1 milhões.

80%
Na UE
Grande parte das exportações efectuam-se no mercado comunitário.

10
Milhões de euros
Serão investidos até 2019. Seguir-se-á um investimento de dimensão semelhante.


O furo começou na tempestade da crise, mostrando o verdadeiro diâmetro entre 2012 e 2013, altura em que a empresa avançou com uma reestruturação. Era mudar ou morrer. De um grupo de mais de 15 accionistas - o que dificultava a gestão - a liderança (e o capital) passou a ser assumida por José Alexandre Oliveira. Foi o princípio de um novo capítulo. "Tudo leva a crer que vamos completar o sexto ano de resultados positivos. Temos feito um caminho interessante, apesar de o ponto de partida ser complexo", reconhece Bernardino Carneiro.

Esta foi uma das fases mais marcantes. Mas outras, anteriores, também contribuíram para a sobrevivência da têxtil: as exportações precoces; as fibras "que revolucionaram os conceitos de vestuário e de moda"; e, nos anos de 1990, a evolução para um segmento médio-alto. Agora, estão a ponderar a entrada no mercado desportivo, estreando-se na "componente técnica", e a formar uma "joint-venture" com um grupo indiano para chegar a um segmento mais baixo.

Sinfonia 204

No pavilhão da tecelagem, 204 teares lêem a partitura de Pousada de Saramagos, numa velocidade impossível de replicar por humanos. A estes cabe "apenas" garantir que tudo corre como previsto no máximo de 700 mil metros de tecido que poderão sair num mês da fábrica.


Na unidade de fiação, já os fardos de fibras - naturais, sintéticas, artificiais e recicladas - tinham sido abertos mecanicamente e transferidos para cardadeiras de grande porte, que as transformaram em fios brutos. Dali à torcedura ou à coloração, a evolução acontece para que se obtenham produtos cada vez mais complexos e sofisticados.

Saídos da maquinaria, os tecidos deslizam sobre grandes quadros de luz, nos quais homens e mulheres revêem cada detalhe. É neste ponto que a empresa está implementar um sistema de visão artificial, que lança o alerta à mínima falha. Com tudo isto, a Riopele pretende segurar uma das linhas com que melhor se cose: a velocidade de resposta.