Outros sites Cofina
Notícia

A nova vida da velha Oliva

Há cinco anos que os edifícios da antiga fábrica da Oliva voltaram a mexer-se. Hoje, à vida da incubadora Oliva Creative Factory estão a juntar-se empresas como a ERT ou a Tecmacal.

Rute Barbedo 29 de Janeiro de 2019 às 15:00
A icónica torre da Oliva tornou-se a receção do Turismo Industrial local, no Museu do Calçado e no Núcleo Histórico da Oliva Ricardo JR
  • Assine já 1€/1 mês
  • ...

Uma parte do colosso industrial de 90 mil metros quadrados da antiga Oliva, que chegou a ser uma das maiores fábricas nacionais, continua apagada. Há janelas partidas e "graffiti" espalhados pelo que "era uma cidade dentro da cidade", como ainda se diz em São João da Madeira.

Na Oliva, chegaram a trabalhar mais de 3.000 pessoas à volta de máquinas de costura, banheiras ou tubos de aço. A empresa faliu em 2010 e as principais peças do complexo foram adquiridas e reconvertidas pela Câmara Municipal. Sob um investimento de cerca de 12 milhões de euros (grande parte vinda de fundos comunitários), a icónica torre da Oliva tornou-se a receção do Turismo Industrial local, no Museu do Calçado e no Núcleo Histórico da Oliva e a área dos fabricos gerais acomodou a incubadora de indústrias criativas Oliva Creative Factory (OCF) e um núcleo de arte contemporânea.


Hoje, na nova "fábrica", ouvem-se mais teclas de computador e telefones do que jatos de água e fornos a estremecer. A funcionar há cinco anos, a OCF tem cerca de 30 empresas e 120 trabalhadores. E à exceção do "cowork" (trabalhar em áreas partilhadas), está lotada. É também por isso que, este ano, o espaço será reformulado e que dentro de cinco pavilhões de 281 metros quadrados vão começar a fabricar-se inovações "made in" São João da Madeira, desde o calçado ao imobiliário (ler "Espaço de produção era 'uma necessidade'").

A Cartonagem Trindade (que exportou mais de 9 milhões de euros em 2018) e a ERT (que faturou 53,8 milhões de euros em 2017 e só é ultrapassada, no concelho, pela Faurecia e pela EDA quanto ao volume de negócios) também colocaram os seus centros de inovação a funcionar nas antigas instalações da Oliva.

Mas a presença da ERT não fica por aqui. Voltada para o setor automóvel, a empresa comprou uma boa parte da antiga Oliva, onde deverão trabalhar em breve cerca de 300 pessoas.

Também a Tecmacal escolheu o complexo industrial dos anos de 1950-60 para produzir maquinaria para o setor do calçado, a sua principal área de negócio.

"Está a dar-se continuidade à vida que iniciámos aqui, com a criação da Oliva Creative Factory, num espaço que estava completamente abandonado", descreve Carla Relva, responsável pela incubadora sanjoanense. No ano passado, o conjunto de empresas a operar na OCF gerou um volume de negócios perto dos 2,8 milhões de euros. É incomparável ao de gigantes vizinhos, mas aqui operam pequenas empresas criativas, que "não têm nada que ver com a área tecnológica, em que a capacidade de escalar é outra", adverte Carla Relva. "Aqui a progressão é mais lenta."

Dar música aos grandes

O maior empreendimento da OCF é a Braver, um grupo que partiu de projetos já existentes e que hoje congrega 47 trabalhadores e oito áreas de negócio, do marketing à cobertura e organização de eventos, como festivais de música. Pode não ser uma escalada, mas, neste curto período, a Braver já se prepara para abrir um segundo escritório, em Lisboa, e tem no portefólio nomes como o Amsterdam Dance Event, na Holanda, ou o Palmesus, "o maior festival de praia da Escandinávia". "São organizadores que, com a dimensão que têm, podiam ter escolhido qualquer empresa do mundo e escolheram-nos a nós!", congratula-se Pedro Abelha, um dos fundadores.

Numa área completamente diferente move-se a And I Wonder, que desenha sapatos de noiva personalizados sob o argumento de que o conforto não deve perder para a estética. "Há designers que nos dizem que, com estas palmilhas [mais espessas], os nossos sapatos ficam feios. Mas as clientes, depois de estarem 12 horas de pé no casamento, só agradecem", diz Tiago Correia.


Depois de uma temporada no "cowork", a And I Wonder decidiu arriscar tudo na "capital do calçado". "Começámos no andar -20, sem saber no que nos estávamos a meter. Eu era bancário, o Ricardo trabalhava numa pizzaria e a Andreia estava ligada ao calçado ortopédico", enquadra o gestor. Acabaram por apanhar o elevador. "Por estarmos num meio mais pequeno, conseguíamos comprar a crédito [aos fornecedores] sem sermos ninguém e houve até uma pessoa que nos deu máquinas e disse para pagarmos quando pudéssemos." Entretanto, a empresa deixou de produzir internamente e, hoje, o negócio baseia-se no design e no comércio eletrónico. "Somos a Uber dos sapatos", resume Tiago Correia.

Depois de duas rondas de investimento, a start-up prepara-se para "o grande salto", uma iniciativa de financiamento colaborativo através da plataforma Seedrs, em que vão pedir meio milhão de euros. E é também "uma forma de apresentar o projeto a 300 mil investidores", acrescenta o gestor. Em 2018, a And I Wonder faturou 330 mil euros, 40% acima do volume de negócios do ano anterior. "Vendemos 1.800 pares de sapatos personalizados", contabiliza Tiago.

De tirar o chapéu

Tal como a empresa de Tiago olhou para a herança local do calçado, também os projetos Feltrando e Olives quiseram pegar no feltro e acrescentar-lhe valor. Na terra da Fepsa, líder mundial de chapéus de feltro de pelo, Filomena Almeida decidiu valorizar as técnicas tradicionais, como o entrelaçado, colocando-as em sapatos, chapéus e outros acessórios, e levando-a a oficinas com o apoio da Santa Casa da Misericórdia. As peças - arrojadas - têm mais aceitação no exterior, em países como a Alemanha, Inglaterra e França, sobretudo entre a classe média alta.

"Comecei a perceber que o feltro tinha um potencial enorme", diz a escultora. Agora falta fazer crescer o negócio. "Este ano temos o objetivo de vender, em média, um par de sapatos por dia." Mas a meta não é a quantidade. "O que encontramos aqui [na OCF] é um novo paradigma empresarial, voltado para nichos, para a qualidade e não para a massificação", explica.


Perguntas a Carla Relva
Coordenadora da Oliva Creative Factory

Espaço de produção era "uma necessidade"

Mais 1.405 metros quadrados da antiga Oliva estão a ser ocupados pela incubadora municipal. Desta vez, a cidade ganha cinco pavilhões de produção para as indústrias criativas.

Como vai ser o novo espaço da Oliva Creative Factory (OCF)?
As obras terminaram em outubro e estamos a finalizar o caderno de encargos para abrir concurso. São cinco pavilhões de 281 metros quadrados cada, que permitem conciliar espaços de produção com escritórios. Era uma necessidade que tínhamos de colmatar. Um dos pavilhões é um 'maker space' [oficina] para as pessoas interessadas em fazer um protótipo ou a maqueta de um projeto com as próprias mãos. É um espaço que vai ter ao dispor ferramentas, maquinaria e o acompanhamento de profissionais de várias áreas [vindos de um projeto semelhante em Aveiro, gerido pela Sandbox Projects]. Será possível trabalhar materiais como a madeira, compósitos de fibra, de plástico ou papel. Além disso, vamos ter outros dois projetos: um relacionado com a tecnologia e o ambiente e outro com o calçado, em que será possível desenvolver testes a partir do desenho de sapatos, com uma componente do apoio a pequenas produções.

42 projetos já passaram por cá e cerca de 30 mantêm-se na OCF. Carla Relva
Coordenadora da Oliva Creative Factory 


Se tivessem mais espaço teriam mais empresas?
Sim. Um dos objetivos para este ano é remodelar o 'cowork' [a taxa de ocupação é de cerca de 50%], reduzindo-o, para dar resposta aos pedidos que temos recebido de espaços com mais privacidade. Este projeto de transformação de uma parte da fábrica da Oliva numa incubadora foi inspirado nos países nórdicos, mas Portugal ainda não está habituado a funcionar em espaços de partilha.

Qual é a taxa de sucesso entre as empresas que passaram pela OCF?
Não acolhemos apenas empresas já criadas mas projetos empresariais… Mas, não contabilizando o 'cowork', foram 42 os projetos que já passaram por cá e cerca de 30 mantêm-se na OCF.

Os centros de inovação de duas grandes empresas, a ERT e a Cartonagem Trindade, também estão na OCF. Há uma articulação com a incubadora?
São empresas-âncora que olharam para a OCF como uma oportunidade para desenvolver novos produtos, aproveitando a capacidade de trabalho e ideias de gente criativa. Já houve várias parcerias, como com o André Rocha, que criou uma joia para a ERT usando um dos seus têxteis técnicos. Também a Like A Pro organizou eventos corporativos e houve um consórcio de designers voltado para a criação de calçado.