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Angela Merkel é a 3.ª Mais Poderosa de 2017

A Alemanha viu com muito receio a chegada de António Costa ao poder, depois de anos de cordata relação com o governo de Passos Coelho que aplicou os ditames de Bruxelas e que tinham a benção de Berlim. Merkel sabe que Costa não pode cortar com as regras da União Europeia e com as fronteiras de equilíbrio orçamental ali definidas. Com o seu poder muito pessoal e com a liderança das grandes decisões de Bruxelas, Angela Merkel continua a ser uma definidora da política económica e financeira portuguesa.

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Porque sobe

Os maiores Estados-membros da União Europeia (UE), em particular a Alemanha, têm um forte poder económico em Portugal, não só a nível das exportações como do investimento. Directa ou indirectamente, Angela Merkel tem um papel fulcral nas decisões da política económica e financeira que é seguida em todo o espaço comunitário. Com o Reino Unido em processo de saída da UE, o governo de Berlim e a sua chanceler reforçam a posição de liderança na definição dos destinos do Velho Continente.

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A Alemanha é um país rico, mas nem todos os alemães o são. O que torna a Alemanha muito forte é que tem uma classe média poderosa, criada a partir das pequenas empresas. Mais do que as empresas enormes são as empresas de família, que têm até 100 trabalhadores, que são a espinha dorsal da economia. Como a Alemanha produz máquinas, elas produzem parte delas e tudo isto funciona como uma rede. Vários grupos de formigas que trabalham para o mesmo fim. O sucesso da Alemanha é como se fosse uma rede de pessoas que se juntam para construir a grande máquina. E os directores dessas empresas têm ainda uma relação social muito forte com o trabalhador e com o produto. 

Nos EUA também existe muito calvinismo, mas ele fica num nível pessoal. Os americanos acreditam em gastar. Os alemães não. Angela Merkel disse uma vez algo sobre as donas de casa do sul da Alemanha, de uma lendária zona à volta de Estugarda, onde as pessoas são muito sovinas e nada generosas. Ela dizia que o Estado deve actuar como elas. Isto explica muito do conflito que temos hoje na Europa. A moralidade dos alemães cruza-se com a economia e usam-na mais quando estão bem e tentam não a usar tanto quando não estão bem.
Angela Merkel na reunião do G20, onde as divergências com Donald Trump se acentuaram
Angela Merkel na reunião do G20, onde as divergências com Donald Trump se acentuaram John Macdougall/Reuters
Nenhum político compreendeu a Alemanha e os alemães nos últimos anos como Angela Merkel. Por isso o seu poder reforçou-se de ano para ano e ela está prestes a ser reeleita chanceler, depois de algum tempo em que se julgou que ela poderia avançar para outras aventuras políticas. Não foi. No meio da confusão europeia, da ressaca de uma austeridade que empobreceu meio continente ao Brexit e aos desafios que a eleição de Donald Trump veio colocar, Angela Merkel surge como como uma ilha de segurança no meio das dúvidas alemães e europeias.

Nem a aposta em Martin Schultz, por parte do SPD, para a desafiar nas eleições internas, a parece pôr em causa. Tal como a sua política "flexível" face aos migrantes parece estar a causar-lhe mossa. Talvez por isso mesmo Merkel está a aproximar-se de um momento de alguma sobranceria. Começa a pensar que é indispensável aos alemães, à Europa e ao próprio mundo ocidental, como uma das últimas líderes capazes de mostrar capacidade de acção sensata e decidida.

Há poucas semanas disse mesmo: "Quanto mais tempo ficar, melhor estarei". E é isso que está em cima da mesa: um quarto mandato, que estenderia o seu reinado para 16 anos até 2021. É uma data difícil de alcançar, mas foi o tempo ue o seu outrora mentor, Helmut Kohl, esteve no poder. É um ensinamento: Merkel sabe que foi nos últimos anos que o poder de Kohl começou a sofrer os efeitos de uma forte erosão. E foi Merkel que lhe abriu as portas para ele sair, algo que Kohl considerou um golpe nas costas.

Angela Merkel olha hoje para si como a política que salvou a Zona Euro e afastou, pelo menos para já, o populismo. Mas a que preço? Os países do sul da Europa (especialmente Portugal e Grécia, mas também a Espanha) sofreram os impactos de uma política de austeridade que os deixou com feridas que serão difíceis de sarar. Para salvar o euro, Portugal foi colocado na linha da frente de uma política económica e financeira que alterou substancialmente os equilíbrios sociais e empobreceu a generalidade da população.

A América não pode ser grande se não se preocupar com o que se passa fora das suas fronteiras. Agosto 2017
Angela Merkel
Chanceler Alemã, em Agosto de 2017

Temos de lutar pelo nosso próprio futuro, pelo nosso destino como europeus. Angela Merkel
Chanceler Alemã, em Maio de 2017

Não foi tudo em nome das finanças sólidas: no caso grego, por exemplo, foi também para salvar os bancos alemães e franceses que se fizeram resgates. Pelo meio, Angela Merkel teve de se defrontar com a complicada questão dos refugiados, que causaram muitas complicações no Leste da Europa e também internamente. Como se isso não bastasse, os ataques terroristas no Velho Continente mostraram que a antiga fortaleza não era intransponível. Internamente, a Alemanha também teve de se defrontar com uma questão a que a opinião pública alemã é muito sensível: a da ecologia. E a falsificação de limites de emissões de carros feitos por empresas alemães causou espanto nos cidadãos.Numa altura em que a economia se comporta bem este foi um severo golpe no orgulho alemão.

As fissuras na Alemanha são hoje mais regionais, enquanto no tempo de Kohl eram entre as antigas RFA e RDA. Hoje a fragmentação continua, com o ainda visível do antigo leste, com as mais visíveis tensões étnicas nas cidades e com a pobreza. E sabe-se que uma Alemanha unida é uma novidade. Bismarck conseguiu realizá-la a ferro e fogo e, com diplomacia, Kohl fez o mesmo no pós-Guerra Fria.

No mundo, Angela Merkel defronta-se com o ziguezagueante Donald Trump, com quem já teve desavenças no G20 por causa da emigração e das questões ambientais. Outra da clivagem é sobre a segurança ocidental: Trump quer que os europeus paguem mais com ela. E, depois, há o lugar da Europa num mundo multipolar, onde a China, os EUA e mesmo a Rússia concorrem com uma Europa que esteve demasiado tempo debaixo do guarda-chuvas americano. Na Europa assistem-se aos tempos da austeridade mais disfarçada. O velho continente precisa de crescer e por isso os tempos do cinto apertado vão-se suavizando.
Angela Merkel com o primeiro-ministro português, António Costa, cuja chegada ao Governo foi inicialmente olhada com desconfiança pela chanceler.
Angela Merkel com o primeiro-ministro português, António Costa, cuja chegada ao Governo foi inicialmente olhada com desconfiança pela chanceler. Fabrizio Bensch/Reuters
Com forte importância no Portugal dos últimos anos, a Alemanha viu com muito receio a chegada de António Costa ao poder, depois de anos de cordata relação com o governo de Passos Coelho que aplicou os ditames de Bruxelas (e que tinham a benção de Berlim). Merkel sabe que Costa não pode cortar com as regras da União Europeia e com as fronteiras de equilíbrio orçamental ali definidas e por isso sabe que Portugal não pode passar de certas linhas demarcadas.

Por outro lado, a União Europeia - e a Alemanha - tem um forte poder económico em Portugal, não só a nível das exportações como do investimento. Nesta área não vê com bons olhos a crescente presença de investimento chinês em Portugal. Quer apertar regras, algo que vai contra a vontade do governo português, necessitado de investimento externo, já que há uma descapitalização enorme e os seus bancos deixaram de ser as veias de oxigenação da economia. Mas, com o seu poder muito pessoal e com a liderança das grandes decisões de Bruxelas, Angela Merkel continua a ser uma definidora da política económica e financeira portuguesa.

Bilhete de identidade

 Funções: Chanceler alemã, desde 2005
 Naturalidade: Nasceu a 17 de Julho de 1954, em Hamburgo
 Formação: Licenciatura em Física e doutoramento em Química.
 Outros cargos: É presidente da União Democrata-Cristã (CDU).




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