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António Ramalho é o 26.º mais poderoso de 2019

Gostava de acelerar nas pistas de karts na adolescência. E agora na bicicleta que já o levou até Santiago de Compostela. Mas é no Novo Banco que está a pôr o pé no acelerador para o "libertar", o mais depressa possível, da herança do BES. 

Miguel Baltazar
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A adolescência foi passada entre pistas de karts, nomeadamente em Almeirim, terra onde se casou e tem ainda uma quinta. Era um "excelente condutor", dizem alguns amigos. Hoje, António Ramalho continua a acelerar, mas fora das pistas. É no Novo Banco que põe agora o pé no acelerador para o libertar o mais depressa possível do legado deixado pelo Banco Espírito Santo (BES).

António Ramalho assumiu a presidência do Novo Banco - que resultou da resolução do BES - em 2016. Com a liderança assumiu também uma tarefa difícil: dar vida a um banco que todos julgavam morto. Passo a passo tem vindo a vender carteiras de crédito malparado e imóveis e a desfazer-se de negócios que deixaram de ser considerados estratégicos. Tudo para pôr o banco no caminho da rentabilidade. E Ramalho, diz quem lhe é próximo, tem os ingredientes para ser bem-sucedido.

"É muito inteligente e criativo", diz um amigo de longa data, que elogia a sua " capacidade de comunicação invulgar". Mas é uma "criatividade que tem sempre em conta o rigor e a legalidade", considerando a sua formação em Direito, refere ainda. É também o "maior ‘workaholic’ [viciado no trabalho] que conheço", diz outra pessoa que trabalha com o gestor. Mesmo quando está de férias no estrangeiro, não deixa de estar atento ao que se passa e liga sempre que quer mais detalhes. Mesmo quando o fuso horário faz com que seja de madrugada por Lisboa. Também se mantém "sempre ligado" quando vai para a sua casa no Sul do país. António Ramalho tem uma sala na agência mais próxima do Novo Banco para que possa ir até lá trabalhar, conta outro amigo.

É a este ritmo acelerado que tem liderado o banco que é detido em 75% pelo fundo norte-americano Lone Star. E que decidiu mantê-lo como CEO mesmo depois da compra, em outubro de 2017. O Fundo de Resolução, financiado pela banca mas que tem assegurado os encargos com empréstimos estatais, manteve 25%.

O "bichinho" da banca que o pai deixou

Apesar de ser um trabalhador incansável, a família é o seu pilar. Assim como os amigos que foi cultivando ao longo dos anos, sobretudo quando esteve no Grupo Champalimaud. Foi aí que Ramalho, licenciado em Direito, ganhou as competências para gerir hoje uma instituição como o Novo Banco, um "bichinho" deixado pelo pai que foi diretor do Banco Pinto & Sotto Mayor. Foi também nesse grupo que acabou por criar laços com Vítor Fernandes, administrador do Novo Banco, e Jorge Magalhães Correia, presidente da Fidelidade.


Os poderes de António Ramalho
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Nos cinco critérios do Negócios para analisar o poder, veja porque ficou António Ramalho na 26ª posição na lista dos Mais Poderosos de 2019.

"É de uma grande lealdade com todos", diz alguém que trabalha com Ramalho. Mas é também um "gestor multifacetado", refere outra pessoa próxima do gestor. Um lado que foi alimentado pelas várias empresas por onde já passou. Antes de ingressar no Novo Banco, António Ramalho esteve à frente da CP entre 2004 e 2006. Foi depois presidente da Estradas de Portugal e a seguir da Infraestruturas de Portugal, que resultou da fusão com a Refer.

Criar uma expectativa errada sobre o tema [injeções de capital] é um erro.

Lusa, 17 janeiro de 2019


O Novo Banco deixou de ser banco de transição, capitalizou-se fortemente.

Twitter, 1 de abril de 2018


A nível político é bem visto tanto pelo PS como pelo PSD. "O bloco central aprecia-o", nota um amigo. Uma vantagem perante o Governo socialista liderado por António Costa que tem vindo a injetar capital no Novo Banco, através do Fundo de Resolução, no âmbito do mecanismo de capital contingente de até 3,89 mil milhões. Perante os prejuízos de 1.412 milhões de euros registados no ano passado, o banco pediu novo reforço: 1.149 milhões. O que, aliás, levou as Finanças a pedir uma auditoria aos créditos incluídos no mecanismo de capital contingente face ao "valor expressivo" das perdas, que também mereceram as críticas da esquerda.

Apesar das posições menos favoráveis, Ramalho vai continuando a trabalhar para pôr as contas do Novo Banco em ordem. Desde fevereiro, decidiu mesmo começar a apresentar dois balanços para que ficasse à vista o trabalho que tem sido feito: um com a atividade "core" da instituição financeira e outro apenas com o legado deixado pelo BES.

António Ramalho tem a tarefa de “apagar” a herança do BES, que tem penalizado as suas contas, mas também a dos restantes bancos, com as contribuições que têm de fazer para o Fundo de Resolução.
António Ramalho tem a tarefa de “apagar” a herança do BES, que tem penalizado as suas contas, mas também a dos restantes bancos, com as contribuições que têm de fazer para o Fundo de Resolução. Bruno Colaço

O gestor tem também vindo a apostar na venda de carteiras de crédito malparado e imóveis de maneira a libertar o banco desse mesmo legado. Este ano pôs à venda aquele que foi considerado um dos maiores portefólios alguma vez vendidos em Portugal: mais de 3 mil milhões em ativos tóxicos.

Estes esforços vão continuar até chegar ao derradeiro objetivo: dar uma nova entidade ao Novo Banco, para que este deixe simplesmente de ser associado a uma resolução que fez desaparecer um gigante da banca no verão de 2014. Vai continuar a "pedalar" no banco ou na bicicleta que já o levou, assim como a alguns banqueiros que o costumam acompanhar, em viagens de vários quilómetros por todo o país ou além-fronteiras. Seja até à serra da Estrela ou a Santiago de Compostela. 


Ramalho sobe 10 posições
Posição ocupada por António Ramalho nos Mais Poderosos

O presidente do Novo Banco só entrou na lista dos Mais Poderosos no ano passado. António Ramalho conseguiu melhorar a posição neste "ranking", passando a ocupar o 26.º lugar. Em 2018, o gestor tinha ficado no 36.º.