Outros sites Cofina
Notícia

Carlos Tavares é o 27.º mais poderoso de 2019

Com um estilo sóbrio, Carlos Tavares faz do rigor e da organização do tempo quase um mantra. É visto como frontal, mas não arrogante. Saiu da Renault e relançou o grupo PSA rumo aos lucros. É tido como um dos gestores que mais sabem sobre automóveis.

  • Partilhar artigo
  • ...

Um competidor. É assim que Carlos Tavares se define. Aos 60 anos, o líder do grupo PSA é visto como um dos melhores gestores no setor automóvel, muito por causa da forma como "deu a volta" às contas do grupo automóvel francês e, mais recentemente, como integrou a Opel no grupo e pôs a marca alemã a gerar lucro.

Em Portugal, a fábrica da PSA em Mangualde, a segunda maior produtora automóvel do país, prevê bater este ano o recorde de produção, com 70 a 80 mil veículos, incluindo o Opel Combo. E anunciou um investimento de 20 a 25 milhões de euros para a produção de um novo modelo a partir de 2023, afastando as nuvens pelas ameaças de encerramento.

Nascido em Lisboa em 1958, Carlos Tavares tem uma ligação umbilical à cultura francesa: a mãe era professora no Liceu Francês, que o gestor frequentou, e o pai trabalhava como contabilista numa empresa francesa. Aos 17 anos, Carlos Tavares rumou a França para se licenciar em engenharia.

A paixão pelos carros vinha já desde a adolescência, tendo sido comissário de pista no Autódromo do Estoril. E ainda hoje participa frequentemente em competições automóveis.

Em 1981, ingressou na Renault como engenheiro de testes. Carlos Tavares subiu na hierarquia da empresa até ser visto como um "delfim" de Carlos Ghosn, que desde 2005 era "chairman" e CEO da Renault. Em 2013, o português aspirava a liderar um fabricante automóvel e disse-o numa entrevista à Bloomberg. Ghosn ficou desagradado e forçou a sua saída da Renault. Desta forma, Tavares acabou por se afastar do seu mentor antes de este cair em desgraça, detido e acusado de prestar falsas informações ao mercado e de uso indevido de dinheiro da Nissan.

Consumada a saída da Renault, Carlos Tavares assumiu o cargo de CEO do grupo rival PSA em março de 2014, numa altura em que o fabricante gaulês se encontrava numa situação financeira bastante difícil. A chegada do português à PSA coincidiu com a entrada do Estado francês no capital, com 14%, tendo o grupo chinês Dongfeng ficado com outros 14% do fabricante gaulês.

Carlos Tavares pôs em marcha um rigoroso plano de corte de custos, a expansão para fora da Europa e a redução do número de modelos dentro de cada marca do grupo.

O regresso aos lucros da PSA

No final do primeiro ano, as medidas implementadas pelo gestor português resultaram em lucros superiores a mil milhões de euros. Os primeiros resultados positivos desde 2010. Carlos Tavares conseguiu tomar medidas impopulares, incluindo o congelamento de salários e, mesmo assim, ser admirado e respeitado pelos líderes sindicais. Pierre Contesse, um dos representantes dos trabalhadores da PSA, referiu ao Le Figaro que o CEO "sempre cumpriu as promessas e transformou as fábricas para o futuro". Já o líder do grupo PSA, em entrevista ao El Mundo, disse ser "o mais sindicalista dos sindicalistas".


Os poderes de Carlos Tavares
A carregar o vídeo ...
Nos cinco critérios do Negócios para analisar o poder, veja porque ficou Carlos Tavares na 28ª posição na lista dos Mais Poderosos de 2019.

E na contenção de custos deu o exemplo: vendeu o jato privado do grupo e viaja sempre em económica. Ainda assim, em 2016 o "patrão" da PSA esteve no centro de uma polémica após ser conhecido que o seu salário em 2015 tinha duplicado. O Governo francês não escondeu o desconforto com a situação. 

 

Obcecado com a gestão do tempo

Carlos Tavares reconhece ser obcecado com a gestão do tempo. O seu dia a dia está organizado de forma metódica. Levanta-se pelas 05:00, faz exercício físico e sai de casa às 07:00, aproveitando a viagem até ao trabalho para consultar emails e fazer telefonemas. As reuniões iniciam-se pelas 08:30 e não excedem 30 a 40 minutos. Almoça uma salada e encerra o dia de trabalho às 18:00.

Faz questão de separar o trabalho da vida familiar e "desliga" do emprego quando chega a casa. Deita-se pelas 21:30 e dedica cerca de 30 minutos diários à leitura.


Pilotar ensina-nos a manter o sangue frio, a viver com rigor e a ter espírito de equipa.

Carlos Tavares, CEO da PSA

Ele é o mais promissor futuro CEO da indústria automóvel.

Tom Lasorda, Ex-CEO da Chrysler em 2012


O "milagre" da Opel e a "traição" da Fiat

Quando Carlos Tavares decidiu que a Opel/Vauxhall devia integrar o grupo PSA muitos acharam que era um "passo em falso". A Opel estava nas mãos da General Motors (GM) desde 1999 e nunca tinha dado lucro. Adquirida em 2017, a marca alemã gerou lucro de 859 milhões de euros já no ano passado, consolidando a reputação do gestor português. Mas a sua competência já era reconhecida há largos anos. "Ele é o mais promissor futuro CEO da indústria automóvel", dizia, em 2012, o antigo líder da Chrysler Tom LaSorda.

Carlos Tavares conduziu o grupo PSA de volta aos lucros. O português é apontado como o CEO do setor que melhor conhece os automóveis, fruto da experiência como engenheiro de testes.
Carlos Tavares conduziu o grupo PSA de volta aos lucros. O português é apontado como o CEO do setor que melhor conhece os automóveis, fruto da experiência como engenheiro de testes. Christophe Morin Bloomberg

Este ano, Carlos Tavares encetou negociações para uma parceria com o grupo FCA (Fiat Chrysler Automobiles), admitindo a possibilidade de fusão. Mas o grupo presidido por John Elkann recuou e acabou por tentar uma fusão com a Renault, que também viria a falhar. 




O gestor obcecado com o tempo
Evolução da classificação ao longo dos anos nos Mais Poderosos

A chegada aos Mais Poderosos coincide com uma das "coroas de glória" de Carlos Tavares: os primeiros lucros da Opel desde 1999. A PSA de Mangualde é a 2.ª maior produtora automóvel nacional e passou este ano a fabricar veículos da Opel.