Outros sites Cofina
Notícia

Christine Lagarde é a 46.ª Mais Poderosa de 2019

Há uma década que é uma figura reconhecida a nível internacional. Primeiro como ministra das Finanças de França, depois como diretora-geral do FMI e agora será presidente do BCE. É considerada uma das mulheres mais influentes do mundo.

Jacky Naegelen
  • Assine já 1€/1 mês
  • ...
Com a desaceleração económica a nível mundial em curso, a adaptação da política monetária a este cenário será o principal desafio de quem quer que esteja à frente dos bancos centrais, incluindo no Banco Central Europeu (BCE).

Christine Lagarde chegará em novembro e, até lá, Mario Draghi poderá já ter feito parte do trabalho para empurrar a economia, o que a deixará de mãos atadas no arranque do mandato. A sua primeira reunião de política monetária, onde se encontrará com os governadores dos bancos centrais dos países da Zona Euro, será a 12 de dezembro.

A ainda diretora do FMI terá a dificuldade acrescida de gerir as expectativas: suceder ao "Super Mario", para muitos o "salvador do euro", será uma tarefa difícil para alguém que não tem experiência em bancos centrais. Lagarde terá de se apoiar nas capacidades técnicas do economista-chefe, Philip Lane.

O seu trunfo é a capacidade de comunicação e de negociação a nível europeu e internacional. No FMI contactou com os principais ministros das Finanças e os líderes mundiais, criando ligações nos quatro cantos do mundo.

Nos últimos oito anos, Lagarde demonstrou capacidade tanto para estar sentada num programa de televisão ao lado do comediante Trevor Noah como para conversar com o polémico Donald Trump sobre a disputa comercial com a China, com quem discorda da aplicação de tarifas, mas admite que existe um problema entre os dois países.



Os poderes de Christine Lagarde
A carregar o vídeo ...
Nos cinco critérios do Negócios para analisar o poder, veja porque ficou Christine Lagarde na 46ª posição na lista dos Mais Poderosos de 2019.
"Flexibilidade" e "habilidade política" são dois elogios feitos por quem vê com bons olhos a sua ida para o BCE. As preocupações com as alterações climáticas e com a desigualdade económica trarão uma nova roupagem para Frankfurt.

A influência de Lagarde em Portugal

Para Portugal, a ida de Lagarde para o BCE traduz-se, desde logo, na continuidade da política acomodatícia de Draghi, seja através dos juros baixos, seja pela dívida pública adquirida no mercado secundário.

Mas também significa que na liderança do banco central está alguém que conhece bem a economia portuguesa dado que o FMI fez parte da troika do programa de ajustamento. Além disso, Lagarde apareceu ao lado de Mário Centeno e António Costa em Davos e, mais recentemente, no Palácio de Belém, quando participou no Conselho de Estado. Em ambas as ocasiões deixou elogios a Portugal, o "bom aluno", e pediu mais esforços ao Governo para preparar o país para o futuro agora que já amortizou todo o empréstimo pedido ao Fundo.


Gostaria de dar o meu apoio ao que o Mario e os seus colegas no BCE têm vindo a fazer. 

Christine Lagarde
Em maio de 2015

Se tivesse sido o Lehman Sisters em vez do Lehman Brothers, o mundo poderia ser muito diferente agora.

Christine Lagarde
Em setembro de 2018
Agora ao leme do BCE, as decisões de Christine Lagarde, em conjunto com os governadores dos bancos centrais, terão um grande impacto na economia portuguesa nos próximos anos. Por um lado, os juros diretores baixos e as exigências de capital têm condicionado os bancos. Por outro lado, os juros baixos e o programa da compra de dívida pública têm ajudado o Estado a melhorar as contas públicas e a pagar menos juros, os quais têm atingido mínimos históricos em mercado secundário e nos leilões do IGCP.

Lagarde está bem colocada para perceber como uma economia pequena e aberta como Portugal é vulnerável aos choques externos.

Ir mais além na arquitetura da Zona Euro

Enquanto diretora-geral do FMI, Christine Lagarde tem sido uma das vozes que reclamam a entrada em jogo da política orçamental para estimular a economia, em linha com o que tem defendido Draghi. O Fundo tem aconselhado repetidamente países da Zona Euro como a Alemanha e a Holanda a investirem mais, o que teria efeitos positivos nos seus parceiros comerciais, em vez de continuarem a aumentar os excedentes orçamentais e comerciais.

Christine Lagarde no encontro dos ministros das Finanças e bancos centrais do G20 em junho deste ano.
Christine Lagarde no encontro dos ministros das Finanças e bancos centrais do G20 em junho deste ano. Kim Kyung-Hoon Reuters

Mas este é um problema que passa também pela arquitetura da Zona Euro que, para muitos, incluindo Draghi e Lagarde, continua incompleta. Exemplo disso é a União Bancária e a exposição dos bancos aos respetivos soberanos ou a inexistência de um ativo seguro comum dentro da União Económica e Monetária que reforce o papel do euro no mundo. Se seguir as ideias que defendia no FMI, a nova presidente do BCE terá oportunidade de incentivar essas mudanças no Eurogrupo, onde tem assento, e noutros encontros a nível europeu.

Independência dos bancos centrais

Estando ciente de como funciona a economia mundial, Lagarde saberá como falar para os mercados financeiros, uma tarefa essencial para o cargo que ocupa. Mas há quem se preocupe com a independência do BCE por ser liderado por uma ex-ministra e pelo vice-presidente, o espanhol Luis de Guindo, também vir da política. Para essa imagem também não ajudou a forma pouco transparente como foi feita a nomeação para os altos cargos da União Europeia.

Contudo, se a sua influência será grande, é verdade que as decisões do BCE resultam também dos votos dos governadores dos bancos centrais de cada país e dos restantes membros do BCE. A sua tarefa passará por os persuadir durante os próximos oito anos.


Lagarde regressa aos poderosos
Evolução da posição de Christine Lagarde na lista dos Mais Poderosos

Após ter sido Poderosa por ser a diretora-geral do FMI, Christine Lagarde passa a ter na liderança do BCE a sua fonte de poder. Cinco anos depois de ter entrado na lista, é através da política monetária da Zona Euro que terá maior influência em Portugal.