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Notícia

Durão Barroso é o 14.º Mais Poderoso de 2017

Desde que chegou à política sempre deu grandes passos em frente. Foi líder dos sociais-democratas, primeiro-ministro, presidente da Comissão Europeia. Agora alinha no Goldman Sachs e entrou no restrito Clube de Bilderberg. José Manuel Durão Barroso já disse que "política nunca mais", mas o sonho pode ainda não ter desaparecido. O português nunca escondeu que gostaria de ser Presidente da República. Mas talvez a velha ambição seja hoje mais difícil de concretizar.

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Porque desce

A ida de Durão Barroso para o Goldman Sachs levantou polémica e suscitou críticas por parte de vários responsáveis europeus. O Parlamento Europeu pediu e a provedora de Justiça Europeia abriu uma investigação à ida de Durão para o banco. O presidente não-executivo do Goldman tem o poder inerente ao cargo. Mas a polémica em torno da sua opção profissional condiciona a sua margem de influência nacional e europeia, o que o fez cair vários lugares na escala do poder em Portugal.

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José Manuel Durão Barroso é um dos rostos políticos do banco Goldman Sachs, uma instituição que se move em todos os tabuleiros de xadrez, sejam financeiros, económicos ou políticos. Mais do que um homem que faz da aritmética do investimento e dos modelos económicos a sua política de vida, ele representa o outro lado da face deste poder global: é um mestre da política que pode influenciar decisões económicas e financeiras. Essa é a mais-valia de Durão Barroso para o Goldman Sachs. Por isso ele não está fechado num gabinete a analisar mercados. Está no território onde se discutem opções e estratégias. As suas opiniões ecoam nos media e repercutem-se nas elites que decidem. Por isso, o seu poder é maior do que pode parecer à primeira vista. Não deixou de ser interessante ver como, em Maio, à margem de uma conferência organizada pelo Financial Times, disse que, apesar dos problemas, Portugal é um dos melhores países para investir. Ele está num centro nevrálgico de decisões estratégicas. E isso é importante para Portugal, ávido de sair da conotação de "lixo" pelas agências de "rating" e necessitado de investimentos externos que possam alavancar a sua economia. Durão Barroso foi claro: Portugal tem segurança e qualidade de vida. Num mundo inseguro, isto é uma mais-valia. 

Percorrendo o mundo, através das suas atribuições como membro cimeiro das actividades internacionais do Goldman Sachs, o antigo presidente da Comissão Europeia, faz comentários que delimitam estratégias e interesses. A sua opinião, que não irá contra a do banco para o qual trabalha, é de que o Brexit é "um erro para o Reino Unido e para a Europa", pelo qual "iremos pagar um alto custo". Para ele, Londres continuará a ser um dos principais centros financeiros do mundo. Ou seja, o poder de Londres manter-se-á, mas com mais limitações. Porque os grandes bancos internacionais "vão deslocalizar parte dos seus negócios para várias cidades europeias, não apenas uma". Um sinal amarelo para Londres. Porque Durão Barroso (e o Goldman Sachs) acredita numa economia global e não numa nacionalista e fechada.
Durão Barroso foi uma das estrelas da primeira edição do Web Summit que teve lugar em Lisboa. Em Novembro, o presidente não-executivo do Goldman Sachs foi recebido na conferência entre palmas e vaias.
Durão Barroso foi uma das estrelas da primeira edição do Web Summit que teve lugar em Lisboa. Em Novembro, o presidente não-executivo do Goldman Sachs foi recebido na conferência entre palmas e vaias.
É por isso que José Manuel Durão Barroso já reiterou que política "nunca mais". É uma frase enigmática: ele faz política ao serviço dos negócios. Durante uma década foi o presidente da Comissão Europeia. Agora alinha por outro poder, ainda mais global, a Goldman Sachs. E entrou para o restrito clube de Bilderberg. O seu poder é mais vasto. E tem que ver com aquilo que foi sempre uma conquista da última fronteira que o moveu ao longo da vida. Desde que chegou à política sempre deu grandes passos em frente. Tornou-se líder do PSD, primeiro-ministro, presidente da Comissão Europeia, membro do Clube de Bilderberg e, também, presidente não-executivo do conselho de administração do Goldman Sachs International, com sede em Londres. Talvez por isso, no ano passado, em entrevista ao Expresso, tenha dito que política "nunca mais". Como se a ida para o Goldman Sachs fosse o início de uma nova era. Talvez seja e o novo Durão Barroso seja um cidadão global, que se interessa sobretudo pelos ramos da estratégia e das finanças. Sabia-se que ele, após deixar Bruxelas, tinha várias janelas abertas. Afinal a sua lista telefónica deve ser vasta. O Goldman Sachs sabia isso e justificou a contratação de forma clara: "A sua perspectiva, capacidade de julgamento e aconselhamento vão trazer um grande valor ao nosso conselho de administração, aos nossos accionistas e aos nossos clientes." As reacções não foram simpáticas. Na Europa, ninguém ainda esqueceu que o Goldman Sachs foi o principal conselheiro do governo grego para maquilhar as contas que lhe permitiu entrar na Zona Euro. Ou que esteve ligado à crise do "subprime" que atirou o mundo para uma crise financeira que ainda não desapareceu. Na Europa, foi criticado à esquerda e à direita. Ninguém esquece, mas o passado tende a esbater-se.

Há pessoas que pensam que vou voltar. Não é verdade. Janeiro 2017

Claro que (Emmanuel Macron) não conseguirá fazer tudo, mas se fizer 50-60% daquilo que quer isso será positivo para o crescimento sustentável de França. Maio 2017

Sem França, simplesmente não podemos ter uma União Europeia.  Junho 2017

Depois do Brexit e da vitória de Trump, nos Estados Unidos, a opinião pública previu uma onda populista na Europa. E ainda estamos, em certa medida, preocupados. Mas até agora, podemos dizer com segurança que não se verificou o prognóstico de que iria haver uma onda populista na Europa. Agosto 2017

Já antes Francisco Pinto Balsemão, que abandona Bilderberg ao fim de 32 anos, escolhera Durão Barroso para o substituir no "steering committee", o conselho director que organiza os encontros anuais da organização. O seu destino parecia estar a ser desenhado com tempo. Estrategicamente. Como aprendeu no seu passado marxista-leninista-maoista. Antes de aderir ao PSD, em 1980, Durão Barroso (conhecido como camarada Abel) foi um dos dirigentes da FEML (Federação dos Estudantes Marxistas-Leninistas), o departamento juvenil do MRPP, que tinha sido fundado por Fernando Rosas. A Faculdade de Direito de Lisboa, onde Durão Barroso estudava, era o grande bastião do movimento. E a UEC (do PCP), o seu grande inimigo. Na altura, viveu intensamente o chamado período revolucionário. Os que têm mais memória recordam um célebre texto de Durão Barroso no Luta Popular (órgão oficial do MRPP) em 2 de Abril de 1975, em que atacava a "linha negra" de Saldanha Sanches e Maria José Morgado. O título era intenso: "Que viva Estaline", com um texto que se adequava à época: "O camarada Saldanha Sanches (…) mal se falou em Estaline começou a hesitar, titubeou, hesitou, indo cair no campo da contra-revolução, arrastado pelo poderoso campo magnético de que fala o Comité Lenine na sua Directiva". Mas talvez o sonho da política ainda não tenha desaparecido. Durão Barroso nunca escondeu que gostaria de ser Presidente da República. Mas talvez isso hoje seja mais difícil.


O homem que em 2009 o conhecido colunista do Financial Times, Wolfgang Munchau, descrevia como "o caniche de Angela Merkel", chamando-lhe "conservador de um pequeno país", resistiu e singrou. Durão Barroso já provou várias vezes que tem um colete quase à prova de bala. Hoje, para Portugal, Durão Barroso é um elo essencial na cadeia de representantes nacionais em instituições que têm um peso determinante no apoio externo às nossas finanças ou lhe dão amparo político global. Daí que o seu peso seja ainda maior.

Bilhete de identidade

 Cargo: Presidente não-executivo do conselho de administração da Goldman Sachs International
 Naturalidade: Nasceu em Lisboa em 1956
 Formação: Licenciatura em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa
 Outros cargos: Professor na Universidade Católica.