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Edifícios sustentáveis deviam ter certificação independente

Falta de habitação, tanto para as classes médias como para a habitação social, está a gerar fluxos e tensões nas cidades e a criar exclusão social.

Filipe S. Fernandes 02 de Março de 2022 às 15:00
Maria João Andrade, MJARC Arquitetos Mariline Alves
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A sustentabilidade na arquitetura é um caminho inevitável, atendendo aos problemas climáticos que estamos a sentir. Temos de assumir de forma séria essa trajetória. Esta é a convicção de Maria João Andrade, do premiado gabinete MJARC Arquitetos. "Temos um longo caminho pela frente, mesmo ao nível da formação dos técnicos. Era importante integrar na formação mais cadeiras para os dotar de capacidades técnicas para responder ao desafio da sustentabilidade, que temos em mão", considera a arquiteta.

Maria João Andrade salienta que há uma ligação natural da arquitetura às cidades sustentáveis, que deve existir uma orientação holística. Se no passado os edifícios viviam por si só, hoje a medida do sucesso de um projeto de arquitetura é também a forma como está integrado na malha urbana. "Quando se tem um edifício sustentável e eficiente em termos energéticos, mas não se equacionaram os transportes públicos, a acessibilidade, entre outras variáveis, temos uma pegada ambiental maior apesar do próprio edifício", afirma.

"Não podemos olhar para as coisas de forma isolada e temos de trabalhar - todos os que trabalham em cidades - em conjunto, caso contrário, não é possível atingirmos os objetivos de sustentabilidade que há para 2030, que são metas muito exigentes, e impossíveis de alcançar da forma como está estruturado todo o sistema".

Na sua opinião, tem igualmente de se explicar às pessoas que quando se opta por um edifício verde "temos bastantes ganhos não só do ponto de vista energético, como ao longo da vida útil do edifício este terá menos custos, e contribuirá para a saúde e qualidade de vida das pessoas."

Os problemas graves da habitação

Maria João Andrade referiu-se ainda à falta de habitação tanto para as classes médias como para a habitação social, "o que está a gerar fluxos e tensões nas próprias cidades", podendo "criar exclusão social". Referiu igualmente a escassez de mão de obra e a subida dos custos de construção. Na sua opinião, "há muitas pessoas a ficar sem acesso à habitação e não podemos incentivar mais o recurso ao crédito e o endividamento das famílias, por isso, é importante criarmos outro tipo de incentivos". Defende que, a exemplo de outros países, se criem "empresas construtoras sem fins lucrativos para gerir este tipo de projetos, que seriam subsidiados, para fazer habitação social".

Para esta arquiteta, "temos um mercado nacional em que neste momento, e devido às políticas que foram introduzidas, há muito investimento estrangeiro. Por isso, hoje vejo custos de habitação que não estão direcionados para o mercado nacional, que não estão ao alcance do salário do cidadão português, mas sim do cidadão estrangeiro", disse Maria João Andrade.

Esta situação cria igualmente desafios à adoção de práticas de arquitetura sustentável, porque os rendimentos dos portugueses são escassos para as necessidades de reabilitação das suas casas de forma sustentável. "Nos meus projetos tenho de me ajustar ao mercado e tentar fazer a diferença de forma inteligente, na escolha dos materiais, nas soluções ao nível de reabilitação, procurando reduzir o custo que as pessoas têm de suportar." Neste contexto, esta arquiteta do Porto defende que devia existir uma certificação independente dos edifícios para que se garantisse a sua sustentabilidade, e os seus detentores deviam usufruir de "maiores benefícios, como menos impostos, ou outras medidas que incentivem este tipo de edifícios".